sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Isola (2016)

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Isola de Fabianny Deschamps é uma longa-metragem francesa presente no Ciclo ACID - Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion da décima-sétima edição da Festa do Cinema Francês a decorrer em Lisboa, num relato onde a ficção e a realidade se misturam originando um triste e enigmático conto sobre os dias que hoje vivemos.
Dai (Yilin Yang) é uma jovem mulher grávida que vive numa ilha não nomeada. A sua casa é uma gruta numa pedreira onde espera por um marido vindo num barco e onde tenta sobreviver com a pouca ajuda humanitária a que recorre e aos favores sexuais pagos de alguns trabalhadores da área.
Enquanto espera Dai comunica com o mar, com o seu bebé e com ela própria numa esperança de não perder o sentido da (sua) vida e a ideia de que um dia o seu marido irá chegar.
Fabianny Deschamps dirige e escreveu a história deste filme que começa por expôr este anonimato de uma ilha que qualquer um de nós consegue facilmente situar no espaço e no tempo para depois revelar a história de um dos seus improváveis e mais recentes habitantes... uma mulher que fugida de um qualquer destino que não conhecemos encontra naquele espaço o refúgio prometido. No entanto, é neste mesmo refúgio que "Dai" espera pelo tal futuro prometido mas aguarda pela chegada de um marido que tarda em aparecer. Desconhecemos parte do passado recente desta mulher e apenas percebemos que sobrevive graças aos ocasionais aponto de um centro de acolhimento a refugiados e pelos igualmente esporádicos encontros sexuais a que se sujeita para ganhar algum dinheiro extra. A sobrevivência - bem como a garantia da saúde do seu filho por nascer que o espectador desconhece ser ou do seu marido desaparecido ou fruto de algum destes encontros - está, acima de tudo, como o elemento fundamental da sua existência.
Entre o seu isolamento numa pedreira abandonada que lhe serve de lar e o "trabalho" sexual a que se sujeita para um dia poder ter uma casa - o sonho sempre presente - "Dai" é uma alma perdida num ambiente que não é o seu. Tudo em seu redor é um espaço estranho pelo qual ela vagueia enquanto um fantasma visível mas do qual todos os nativos se distanciam por não ser um dos "seus". "Dai" sujeita-se a uma habituação (pouco) natural, misturando-se nos meios que precisa frequentar e, há excepção do seu "cliente" mais regular, todos os demais parecem apenas olhar para ela como mais uma entre os "desgraçados" que ali aportam estando - todos eles - preparados para mais um momento de prazer que ela lhe faculta.
Perdida entre o sonho de uma vida melhor, de um marido que poderá chegar a qualquer momento - mas que o espectador subentende que se perdeu no mar como centenas de outros - e os sacrifícios que efectua para sobreviver num mundo "melhor" que a colocou no limbo, "Dai" perde-se por entre as suas próprias divagações sentimentais e ilusões sobre a sua própria felicidade encarnada na chegada de um novo refugiado que, ao contrário dela, chegou em condições adversas que determinam a sua própria extinção e consegue fazer dele o objecto do seu desejo e de uma reza em nome do impossível.
A sua história é, no fundo, uma parábola comparativa com o próprio espaço em que se encontra... Isola (ilha) perdida no meio de um mar imenso - tal como "Dai" - incompreendida, distante e sobrevivente das inúmeras investidas de um mar nem sempre piedoso resiste afirmando-se como indiferente a todas as intempéries. Sobrevive porque essa é a sua condição natural despertando o seu lado selvagem - quando necessário - para proteger a sua integridade física (e moral no caso da nossa protagonista) dos abusos naturais e humanos que lhe são frequentemente perpetrados.
Tida como uma história de sobrevivência, Deschamps cruza a realidade que insistentemente nos chega através dos inúmeros relatos televisivos que chocam pela crueldade de imagens distantes com a ficção de uma história - entre muitas - que revela que essa sobrevivência nem sempre termina quando se pisa terra firme prolongando-se, por outro lado, por tempos indeterminados quando a integridade e dignidade do ser são constantemente ameaçados lançando a protagonista - que poderia ser qualquer uma - numa viagem que oscila entre a imaginação, o sonho, o desejo profundo e uma loucura permanente. "Dai", como tantos outros homens e tantas outras mulheres é uma sobrevivente que a tudo se adaptou para que um dia alguém possa escutar a sua história de uma luta sem um fim.
Interessante e actual pela realidade por vezes esquecida que a Europa vive no presente, Isola oscila entre a já referida ficção - a história de "Dai" - e pequenos grandes apontamentos que deixam o espectador questionar-se sobre a sua veracidade como, por exemplo, até que ponto é ficcionada a manifestação dos inúmeros funerais que (suspeitamos) serem documentais ou até mesmo os factos que "Dai" interpreta como a sua sobrevivência, ou seja, até que ponto estará distante a ficção no caso desta sobrevivência extrema, os abusos, a violação e até mesmo a fome e carência que se esconde para lá da chegada a um "bom" porto...
Fabianny Deschamps junta-se assim a uma nova "vaga" de cinema cuja temática aborda os últimos e dramáticos dias de uma Europa que insiste fechar os olhos às suas fronteiras marítimas, insistentemente questionando-se sobre até que ponto estes problemas são seus mesmo que ocorram dentro dos seus limites. Mais que uma obra de ficção, Isola reflecte - e obriga a reflectir - sobre até que ponto resiste a dignidade humana quando, do "outro" lado, todos insistem em fechar os olhos àqueles que nos batem à porta com os seus dramas sobre a des(h)umanidade.
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7 / 10
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