quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Marias da Sé (2018)

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Marias da Sé de Filipe Martins (Portugal) foi uma das obras apresentadas no âmbito do Family Film Project - Festival Internacional de Cinema que decorre até ao próximo dia 20 na cidade do Porto.
Num relato docu-ficcionado da vida no Bairro da Sé no Porto, o espectador acompanha o dia-a-dia de um conjunto de mulheres que ali habitam. Entre a comédia, o companheirismo, a vizinhança, as alegrias e algumas tristezas, conhecem-se momentos que formam a vida destas mulheres e de uma comunidade.
Realizador e autor do argumento, Filipe Martins cria aquilo que numa breve expressão pode ser considerado como uma pérola. Marias da Sé é, para lá de uma obra-prima ou talvez daquele último grande êxito de bilheteira nacional - não o será por uma eventual falta de distribuição em sala -, uma longa-metragem cheia de espírito, energia e principalmente coração.
Encontramo-nos no Porto. Mais concretamente no Bairro da Sé. Aqui a vida, aparentemente não abalada pelas vagas de turismo em massa que agora chegam às nossas cidades, é levada numa calma apenas perturbada pelos pequenos e rotineiros afazeres desse dia-a-dia tido com calma. Das conversas entre vizinhos aos pequenos encontros na rua, são apresentados ao espectador os seus principais intervenientes aqui protagonizados por um conjunto de mulheres do bairro que são como que a força motora do mesmo. Tudo acontece à sua volta e todas as dinâmicas estabelecidas em Marias da Sé têm-nas como as suas principais protagonistas deixando a principal mais valia do argumento de Filipe Martins recair na espontaneidade das palavras e das situações criadas entre uma comunidade que se conhece como às palmas das suas mãos. Ali não se encontram estranhos... por vezes nem sequer vizinhos. Ali encontra-se uma inesperada família tal a cumplicidade que estas mulheres criam e estabelecem entre si deixando o espectador criar - também ele - uma inesperada cumplicidade com estas personagens que o leva a querer participar nas suas histórias, nas suas pequenas conversas ou nos seus habituais encontros onde (se) conhecem os seus problemas, as suas alegrias e até mesmo os seus receios que, expostos ou não, se sentem nas dinâmicas criadas e até mesmo nas palavras não ditas por vezes mais reveladoras do que aqueles que em tom mais humorístico são proferidas pelas mesmas.
Há uma certa magia que Marias da Sé transporta nos seus escassos setenta minutos de duração. Magia essa que seduz e enfeitiça o espectador a compreender um pouco mais de perto o que é a verdadeira vizinhança e a disponibilidade para aqueles que co-habitam no mesmo espaço durante anos e que se compreendem como os verdadeiros alicerces de uma comunidade da qual também "nós" fazemos parte. Cumplicidade essa que apenas se pode compreender e perceber quando vivida nessa pequena comunidade de um daqueles ainda persistentes bairros típicos das nossas cidades - Lisboa e Porto exímios nesse elemento caracterizador - que, mesmo abalados por esse crescente turismo, ainda se mantêm fiéis a um espírito quase desaparecido onde as populações se conhecem, onde os estrangeiros facilmente se identificam e nos quais as pequenas tradições de bairro ainda se mantém isentas dessa transformação globalizante. Encontramo-lo na dinâmica estabelecida entre as peixeiras e os seus clientes - mais ou menos habituais - ou junto deste conjunto de mulheres que todos os dias se encontram naquele café onde conversam e partilham histórias, onde almoçam e se confidenciam, onde se zangam e se redimem e onde se expõem de forma cândida e cúmplice. O que ali se conta dali não sai... não existe nenhum compromisso verbal mas sim um acordo compreendido que todos os problemas são ali resolvidos e esquecidos iniciando, no dia seguinte, todo um idêntico mas renovado ritual que as transforma numa qualquer sociedade matriarcal onde a ordem e a lei são imediatamente proferidas e executadas.
Dentro de toda a seriedade que este conjunto de mulheres aqui expõe existe, ao mesmo tempo, toda uma veia humorística que se fomenta através dessas já referidas cumplicidades que tudo permitem dizer e escutar dando cor àquilo que todos nós conhecemos ser a "linguagem familiar" que se exibe ao longo de Marias da Sé. Longe das formalidades ou das ditas regras de cortesia que se fomentam em qualquer lugar (que mais não são do que um ritual de hipocrisia ao qual se apelida de "boa educação"), em Marias da Sé a dinâmica de bairro estabelecida entre estas mulheres leva-as à utilização de um calão que, não programado, confere todo um espírito elevado de boa disposição e humor que cativa o espectador para as suas dinâmicas de grupo e para a vivência entre as mulheres deste bairro, "líderes" de uma sociedade comunitária onde todos estão dispostos e disponíveis à entreajuda fruto de um conhecimento de décadas que não passa indiferente a ninguém.
Da matriarca Maria João à entusiasta Maria "Comunista", todas estas mulheres acrescentam às demais um pouco da sua alma... da frontalidade comum a todas ao sentimentalismo que uma doença ou condição mais frágil pode trazer a uma delas, e como tal... a todo o grupo, Marias da Sé é uma longa-metragem com alma - tantas vezes ausente do cinema -, capaz de fazer render o espectador mais sisudo, amolecer o mais sério e comover todos aqueles que se preparam para receber de coração aberto uma história que não só é popular como reflexo de um espírito imenso característico de uma cidade que se mantém fiel a si e à sua História. Filipe Martins conquista o público com esta tragédia agridoce ou comédia de espírito assertivo, conferindo a todos os seus breves - muito breves - setenta minutos - poderiam ser cento e oitenta que nunca iriam cansar o espectador - toda uma gigante alma quer pela cumplicidade exposta entre as suas protagonistas quer pela sua linguagem popular ou até mesmo pela preservação de um sotaque que apenas verdadeiras protagonistas poderiam reproduzir e que não se tentou - felizmente - adulterar mantendo toda uma alma nova numa história que se quer fiel (tão ou mais) quanto as mesmas o são para o bairro que é seu.
As pérolas no cinema por vezes tardam em aparecer... Filipe Martins fez aqui surgir uma que, seguramente, irá perdurar no tempo. Uma viva a todas as Marias da Sé.
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9 / 10
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