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terça-feira, 14 de julho de 2026

People Who Wait Backwards (2026)


People Who Wait Backwards (EUA) é mais uma das curtas-metragens recentemente editadas dirigidas com o recurso à Inteligência Artificial. Nesta história, todas as manhãs os cidadãos de uma qualquer cidade aguardam numa plataforma de metro pela chegada do seu transporte. Mas esta espera não é feita de qualquer forma... todos esperam de costas voltadas para a linha em absoluto silêncio. A que se deve esta estranha transe que ninguém consegue explicar?
Sem uma aparente coerência na sua narrativa, esta curta-metragem tem uma premissa interessante que gira em torno da ideia da rotina que todos assola diariamente. A repetição de actos, movimentos e acções condenam todos a uma prisão a céu aberto que, em último recurso, acabam por a todos condenar a um esvaziamento da alma lançando-(n)os nesta impermeabilidade de sensações e sentimentos. No fundo todos estão presos a uma solidão (silêncio) no meio de tanta gente, já o dizia a canção.
No entanto, se esta premissa tem o seu potencial para criar um filme que permita a reflexão sobre os dias de hoje e sobre essa solidão cosmopolita, a verdade é que entregar a sua execução a esta nova tendência da inteligência artificial acaba por minar o resultado final e entregar ao espectador algo que acaba por ser, em diversos momentos, francamente bizarro. Bizarria esta que inicia com a movimentação artificial das personagens, a opacidade da sua presença no ecrã e sobretudo às expressões e (falta de) emoções que as personagens criadas transmitem. Expressões essas que são muitas vezes quase cópias baratas de filmes como Body Snatchers, de Abel Ferrara (1993) onde todos parecem estar numa transe (caras deformadas) dentro da própria transe que já prevê a própria história ao colocá-los num espaço e ambiente de saturação social.
Assim, o argumento que foca essencialmente os efeitos a longo prazo de um ambiente centrado na rotina e numa sociedade onde a comunidade vive perto fisicamente mas distante psicologicamente de si própria acaba por se perder numa execução que se transforma em pequenos momentos de bizarria e desconectividade provocados por uma "entidade" que, felizmente, ainda se distancia e não compreende a verdade concepção dos sentimentos e emoções humanas criando, em sua representação, figuras que são em muitos momentos, fantasmagóricos e disfuncionais daquilo que entendemos como seres "humanos"... mesmo quando vivem o auge das suas adversidades.
Potencialmente interessante sob uma perspectiva da mensagem que parece pretender transmitir, este People Who Wait Backwards acaba por ser irrelevante graças à sua execução que se torna assustadora e não pelos melhores motivos.


3 / 10

sábado, 31 de maio de 2025

Portugueses (2025)


Portugueses de Vicente Alves do Ó (Portugal) é a mais recente longa-metragem do realizador de Florbela (2012), Al Berto (2017) e Amadeo (2023) que teve a sua ante-estreia ontem nas Ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa.
António (Diogo Branco) está em fuga. Bento (Paulo Calatré), aparentemente mais habituado aos tortuosos caminhos que mostravam um local de saída do país, ajuda-o nessa mesma fuga. Assim começa a história de Portugueses que se centra em pequenos, mas carregados de simbolismo, segmentos que mostram o Portugal do pré-25 de Abril pontuados com a revisitação de algumas das canções que marcaram esse final de regime.
A grande surpresa de Portugueses chega não necessariamente com a história em si, pois facilmente qualquer um de nós encontra esse "antigamente" ainda não tão distante presente nas histórias colectivas, pessoais, individuais ou familiares permitindo assim a qualquer um de nós encontrar pontos de referência com o mesmo, mas sim no elemento que acaba por encerrar cada um dos diferentes segmentos de forma quase catártica que nos permita (a nós espectadores) perceber ou ter uma abordagem em imagem viva sobre o que eram as diferentes realidades desse regime que felizmente terminou com a chegada do 25 de Abril de 1974: a canção. Da fuga - ou do "salto" - ilegal que tantos fizeram como forma única de fugir da Guerra Colonial ou dos seus traumas sentidos por aqueles que por lá passaram, da prisão, da perseguição ou da miséria que se fazia sentir no país há décadas, sem esquecer a perseguição política, todas as proibições incluindo a de reunião, a inexistência de Direitos, Liberdades e segurança até ao despertar de uma "nova manhã" que permitia a possibilidade de sonhar com os tais dias melhores que tantos (quase todos) nunca haviam conhecido, esta longa-metragem revisita esses diversos momentos para conferir-lhes (-nos) um momento de conhecimento para quem os assiste pela primeira vez para, de seguida, nos brindar com um final (de segmento) com a já mencionada canção que aqui se assume como o culminar desse mesmo momento seja ele o "salto" para o estrangeiro (quase sempre Espanha como ponto de passagem), a fuga das "elites" até então associadas com o regime que encontravam também no país de nuestros hermanos o porto de abrigo ainda a viver o seu próprio "antigo regime" ou ainda diversos momentos da sociedade que se deparavam com a perseguição política e repressão, com a perda de direitos parentais e ostracização familiar, com os traumas da guerra ou tão simplesmente com o despertar da nova realidade que aquela manhã de Abril a todos trouxe. A canção, quase sempre de intervenção que passa por exemplo pela "Tourada" de Fernando Tordo ou a eterna "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, entre outras, assume em cada um dos segmentos um papel protagonista que  traça a fronteira entre o antes (a preto e branco) e o depois (a cor) de cada uma das realidades a que o espectador assiste, nenhuma delas com uma directa relação com a anterior ou seguinte existindo perfeitamente de forma independente, como o momento em que do nada se sentir se começou a compreender que tudo mudara... que tudo poderia ser vivido e experienciado como uma nova realidade que, de facto, o era. Se no início de cada canção a vida exibe-se com as cores (ou falta delas) desse regime que ao fim de quarenta e oito anos encontrara finalmente o seu término, é com a compreensão de cada uma daquelas personagens (e do espectador enquanto sua testemunha directa) que está perante um momento de transformação e mudança que o ecrã (as suas vidas) ganha(m) cor possibilitando a todo e qualquer um deles todo um conjunto de oportunidades que, até então, nem se ousavam sonhar (ou eram feitos em silêncio). Até mesmo o momento em que testemunhamos a fuga das elites para uma Espanha ainda franquista onde se reúnem todos num qualquer hotel perdido no centro do país encontramos ao som de "Conquistador" dos Da Vinci a compreensão de que essa mesma realidade de transformação é testemunhada pelos mesmos como novos tempos que, e ao invés da demais população Portuguesa, seriam da perda da sua influência e poder adquiridos até então. O país que era só "deles" passou a ser para e de todos... impensável para quem sempre deteve o poder e uma esfera de influência próxima e fechada... "já fui um Conquistador" escutamos ao som de uma voz que em descrédito assume a sua nova condição de "mais um" entre tantos que agora, tal como aqueles que havia perseguido é, também ele, um estrangeiro num país que não é o seu. A transição de preto e branco para cor é já conhecida, por exemplo, no igualmente magnífico Pleasantville (1998), de Gary Ross que, em certa medida, assume a mesma da manifestação de compreensão de uma nova realidade e de novos sentimentos que agora se podem expressar (e sentir) revelando-se como uma pequena cereja no topo do bolo. A escolha do preto e branco não poderia ter sido mais certeira. Primeiro porque dá ao espectador a imagem desse obscurantismo vivido no Portugal pré-25 de Abril onde reinava o medo, a incerteza, o analfabetismo, a insegurança, a miséria e a perseguição demonstrando portanto a falta de cor de um regime que lentamente apodrecia levando consigo aqueles que poderiam ter sido os seus melhores. Ao mesmo tempo, é essa ausência da cor que nos fornece no depois, ao surgir, a igual compreensão de que agora existe a possibilidade, a oportunidade e a vontade de construir algo novo... "era um mundo novo, um sonho de poetas"... A possibilidade do "ser". A compreensão do "existir". A manifestação do "querer".
Como já referira antes, cada um destes pequenos grandes segmentos existe por si só. Nenhum deles necessita da confirmação dos demais para se assumir como uma história dentro da História e que poderia seguramente sem qualquer apoio dos demais segmentos dar um filme cuja narrativa assumiria os seus próprios contornos. A mulher escorraçada pela família e que cria um filho sózinha recorrendo a formas nem sempre legítimas ou legais. Os jovens que deram a vida a uma guerra sem sentido (não o são todas?!) e que ou a perderam ou para sempre viveram (vivem) os seus traumas. Os despedimentos pela suspeita de que se pode pertencer a um partido que o regime não aceita. As elites que perdem o seu poder e influência encontrando-se na mesma posição que aqueles que outrora perseguiram. O despertar para uma nova realidade da qual tudo se desconhece ou até teme esperar. O perigoso saudosismo de um "antigamente" sob o qual se viveu durante décadas temendo a diferença. O despertar para as novas liberdades e direitos que ainda se temem poder sentir. O "salto" para o estrangeiro desconhecido na esperança de uma vida melhor. Todos estes, e tantos outros, poderiam ser os momentos aqui explorados à exaustão e nenhum deles necessitaria da validação do segmento anterior para se justificar assim como nenhum deles necessita validar a seguinte realidade vivendo, cada um deles, o seu próprio momento, a sua própria realidade e a sua própria verdade encontrando, em cada um de nós, o reconhecimento e a compreensão de que aqueles que por ali "passaram" ou aqueles que depois dali nasceram têm elementos em comum ou histórias semelhantes que ali encontram retratadas. Não obstante, nenhum destes segmentos está fora do contexto encontrando uma harmonia entre si que, no seu limite, encontram um desfecho com a canção que fora escolhida para lhe dar o seu "fim". Encerram-se as histórias - e aquelas realidades - com a compreensão de que o que escutamos no final de cada uma delas foi o retrato musical, não sendo o filme um musical tradicional, daquela experiência particular. Cada uma das canções encerra um estado de espírito, uma transformação, uma realidade... um momento. O que está depois do mesmo podemos imaginar, saber pela história oral que nos foi sendo transmitida ao longo do tempo, pela realidade vivida por alguém que conhecemos, por uma qualquer notícias da qual tomámos conhecimento ou até de algo que lemos num livro de História sobre este tempo e momento particular. Há, aqui, um pacto perfeito entre a história que nos foi contada e a canção escolhida para aquele momento em específico.
Sem adiantar mais, para lá da óbvia excelência técnica que a recriação de momentos específicos da História que os filmes de Alves do Ó nos têm vindo a habituar e que vão desde o guarda-roupa à direcção de arte sem esquecer a caracterização aqui tão importante e claro o magnífico elenco escolhido que dá corpo e alma a todas estas histórias dentro da História, Portugueses brinda-nos com um ora trágico ora esperançoso retrato da realidade daquilo que somos, daquilo do qual parcialmente nos libertámos, daquilo que esperamos ser nesse "amanhã" que parece tardar em chegar mas sobretudo pelo espelho sombrio que não nos faz esquecer daquilo que "foi". A importância da compreensão do passado e da História são inegáveis e a expressão "para que nunca nos esqueçamos" faz todo o sentido (cada vez mais) durante e depois de ver e reflectir sobre esta história principalmente se a enquadrarmos nos dias que se fazem sentir dentro e fora fronteiras... "terra de fraternidade.."... esperamos.
No final de Portugueses, e quase como a minha própria reflexão para lá do filme, levantam-se duas questões. O que é ser Português? E o que é a Liberdade? As respostas podem ser tão simples (ou não) como estas; ser Português é saber distinguir e dizer que gosto de Vermelho e não de encarnado. Liberdade é quando sinto e compreendo que posso dizer NÃO.



"Vasconcelos: (...) já fui um Conquistador..."

8 / 10

terça-feira, 8 de abril de 2025

Pena de Morte (2024)


Pena de Morte de Tiago Zacarias (Portugal) é uma curta-metragem que nos apresenta dois homens à conversa. Sentado num banco de jardim aguardam pacientemente por um qualquer evento enquanto debatem sobre a vida e a morte e, no fundo, sobre a moral... ou falta dela.
Este filme curto, muito curto e ainda bem para o bem do espectador, revela desde os primeiros segundos todo um conjunto de momentos narrativos que resvalam no banal e sem interesse mantendo-se unicamente o elemento da iniciativa do realizador e demais colaboradores como positivo. É sempre bom perceber que a vontade de criar existe independentemente dos recursos que possam ter mas, em igual medida, para o espectador que quer ver um filme que o veja como um objecto finalizado com primor e qualidade que aqui... não tem.
Podendo esquecer o argumento ser algo já visto e revisto mil vezes batido em tantas outras obras cuja qualidade, pelo menos, se evidencia pela positiva, aqui o que observamos é um completo desinteresse pelo detalhe e pelo primor da produção que se pensou apenas escrever umas linhas e filmar esperando que isso fosse o suficiente para apresentar o "filme" como sendo, de facto, um filme. Não o é. Não poderei dizer que isto é um qualquer segmento de uma qualquer sitcom que passa as quatro da manhã num canal de televisão do nosso burgo mas, na realidade, também pouco se distancia disso. O discurso entre os dois protagonistas é tão vago e tão mal captado - um som sofrível do primeiro ao último instante - que o espectador mais tranquilo não tem paciência para perder tempo com algo que, no fundo, nem consegue escutar em condições. O momento chega em que por muito elaborado que seja aquilo que as personagens pretendam transmitir, o espectador já nem sequer está a dar atenção a algo que se revela profundamente amador e desleixado ao ponto de quando se compreende realmente o que planeiam aquilo que se deseja é que de facto seja o ponto final na intervenção destes dois indivíduos.
Resumindo o que vai longo... aplaudo a intenção de criar. No entanto, ao fazê-lo é preciso primor, cuidado, atenção aos detalhes e sobretudo profissionalismo mesmo quando os recursos falham. When you make it... make it count!

1 / 10

sábado, 1 de junho de 2024

Pedágio (2023)


Pedágio de Carolina Markowicz (Brasil/Portugal) presente na nova secção Rezoma do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que agora chega ao fim - e um dos candidatos que o Brasil apresentou enquanto potencial nomeado ao Oscar de Filme Internacional nesta última edição - relata a história de Suellen (Maeve Jinkings), uma mulher que trabalha numa portagem e é mãe solteira de Tiquinho (Kauan Alvarenga). Quando as dúvidas sobre a sexualidade do filho surgem, Suellen recorre ao apoio de Telma (Aline Marta Maia), uma amiga que lhe indica o caminho da religião para a ajudar com a doença do filho e às artimanhas de Arauto (Thomas Aquino), o namorado que a leva para o mundo do crime.
Markowicz, também autora do argumento, lança uma história ao espectador que abre diversas vertentes a explorar. A primeira, e eventualmente aquela que é mais explícita para o espectador desde os primeiros instantes, foca-se no meio visivelmente precário em que esta família vive. Com a ausência de uma figura paternal apenas substituído e de forma desinteressada pela figura de "Arauto", esta casa (que de lar tem pouco), apresenta uma mãe que se desdobra em múltiplas funções tentando, de forma quase inglória, manter a subsistência da família e uma qualquer ideia de "tecto sobre a cabeça" que, de outra forma, seria impossível. É nesta dinâmica que assistimos a uma ideia de família que se compreende ter poucas bases para se manter "à tona" e, na qual, a permeabilidade a influências externas se torna mais evidente. E essas influências, quase sempre pouco positivas, revelam-se sob diversas formas.
Para "Suellen" o problema maior com que se depara é a vox populi da comunidade que a rodeia falar dos comportamentos e das "insinuações" sexuais do seu filho que fogem à dita "norma" que a mesma considera como aceitáveis. O jovem "Tiquinho" centrado na ideia de que aquele ambiente que o rodeia não é o seu - ou pelo menos não aquele que idealmente desejaria - expõe-se online com um conjunto de vídeos onde interpreta pela mímica êxitos musicais que incomodam quem o conhece. Imediatamente esses mesmos vídeos alvo de falatório, causam um distúrbio emocional em "Suellen" que pretende "corrigir" os comportamentos do filho e torná-lo "normal" e seguindo os conselhos da única amiga que aparentemente tem, é "Telma" quem a indica o caminho da religião como salvação para o jovem "Tiquinho". Começando pelo princípio, temos uma "Telma" - brilhantemente interpretada por Aline Marta Maia - que apregoa um bom casamento, uma vida dedicada à religião e bons costumes para a salvação eterna mas que, por outro lado, tem várias escapadas extra-matrimoniais durante o horário de trabalho que lançam o espectador para a contemplação da hipocrisia máxima sobre a moral que "eu" não tenho espalhada para os "outros" a quem a apregoo. Mais, é eta dinâmica religiosa que lança para a salvação do jovem que, ao ser inserido nos perigosos meandros de uma religião que mais apregoa do que aquilo que faz, que o espectador se vê frente a um conjunto de princípios que são não só vagos como sobretudo exemplos práticos da hipocrisia religiosa que precisa ser validada (ou validar-se) face a algo tão incontrolável como os sentimentos humanos e a sexualidade. Mais hipócrita ainda se começarmos a questionar as viagens "ocultas" do "Pastor Isac" (Isac Graça) que se assume como um "recuperado" para a obra de "Deus" mas que, ao mesmo tempo, é deixado em aberto as relações que mantém nomeadamente na sua última viagem...
Finalmente, uma das últimas abordagens a esta história prende-se com o trágico desfecho que a maioria destas personagens acabam por ter. Do medo do falatório à incapacidade de providenciar uma vida "feliz" - segundo os seus próprios parâmetros - ao filho faz com que "Suellen" equacione que é preciso algo mais para se poder manter à tona. O crime que o seu namorado lhe propõe, ainda que lhe pareça inocente e praticado por amor ao filho e desespero à sua "condição", acaba por lançar na tragédia todo um conjunto de vidas que são, em última análise, da sua própria responsabilidade. Nada estava errado com o seu filho que, para lá de alguma exposição típica da descoberta e fruto da sua jovem idade, apenas se limitou a tentar uma expressão do seu ser que não incomodava ou prejudicava ninguém. "Tiquinho" limitava-se a existir na prática (e descoberta) dos seus desejos e sentimentos, no exibir dos seus gostos e paixões face a uma comunidade que o via como um erro e a sua presença como algo indesejado e impróprio. O crime inicialmente surge, aliás, pela tentativa de eliminar - pela ridicularização do seu ser - a juventude e a descoberta de alguém que na realidade tentava e se limitava a existir tal como é... algo perigoso nos dias que correm! Esse mesmo crime que depois passa a assumir-se como algo que se pratica pela violência para com o outro - infelizmente algo que acabamos por receber sob diversas formas como a realidade de um país que tem tanto mais para oferecer - ao registar-se através de assaltos, da perseguição e da própria morte apenas e só com o intuito do enriquecimento ilícito (por um lado) e também para pagar uma dízima por um serviço que não só é absurdo como é, principalmente, ofensivo para um jovem a quem todos apontam um erro mas que, na realidade, apenas é... o que é.
Finalmente, um dos elementos mais irónicos desta história, e que acaba por provocar um certo sorriso ao espectador, é o facto do jovem "Tiquinho" encontrar nestas perigosas reuniões de "igreja" (ou talvez culto?!) aquele que se viria a constituir (compreendemos mais tarde) como o seu eventual amor. Esta relação, ainda que não tenha recebido um destaque por maior nesta história - talvez propositadamente -, assume-se de forma espontânea e natural primeiro através dos pequenos e inadvertidos olhares, depois por uma certa "procura" e finalmente por uma partilha de vida que ambos assumem transformando, pela primeira vez, a casa do jovem interpretado por Kauan Alvarenga, naquilo que ela sempre deveria ter sido... um lar onde vive uma família. Ou, pelo menos, o seu projecto inicial.
Com um conjunto tão diversificado de caminhos que esta história aqui exibe e que poderiam ter recebido uma devida exploração por parte da realizadora e argumentista, não sendo nenhum deles frágil no seu potencial (o crime, a exposição da vida privada, a sexualidade, a descoberta, o amor, a hipocrisia da comunidade ou até mesmo a questão religiosa), Pedágio "treme" por instantes porque deixa a breve sensação ao espectador de que poderia ter sido muito mais em qualquer uma destas dinâmicas explorando-as e expondo-as como eventualmente poderíamos desejar mas que aqui apenas circulam como referencial para todo este conjunto de personagens revelando instantes breves da sua posição na sociedade e na comunidade que todos eles constroem. Não debilitando de forma alguma a narrativa de uma forma geral permanece apenas para o espectador que... poderia ter sido mais... ou ido mais longe.
Jinkings e Alvarenga são dois portentos neste filme e agarram todas as dinâmicas construindo tudo o que existe à sua volta como sendo seu e ambos têm desempenhos que estão irrepreensíveis. Mas, no entanto, são três das personagens ditas secundárias que acabam por se destacar. Caio Macedo como o jovem namorado de "Tiquinho", como aquele jovem que acaba por transformar o destino do protagonista e finalmente Aline Marta Maia e Isac Graça como os expoentes máximos de uma sociedade hipócrita que mede a mesma através de parâmetros morais elevados mas... para os outros. Ambos referenciais de uma religião moralista e de bons costumes mas que secretamente escondem a prática de tudo aquilo que condenam.. pelo prazer ou pelo dinheiro a sua moral é corrompida com a mesma facilidade - senão mais - com que abrem a boca para apregoar aquilo que não praticam.
Com uma brilhante direcção de fotografia de Luís Armando Arteaga que transforma o calor climatérico num ambiente que oscila entre o frio e o desolado onde não habita a esperança e uma direcção de arte exímia que dá corpo a um espaço desprovido desse calor (mas humano), Pedágio é uma obra consistente e competente na exploração de diversas dinâmicas sociais, comunitárias, religiosas e sobretudo familiares (ou no potencial de criação de "novas" formas de família) mas que, ao mesmo tempo, por se centrar num diverso conjunto de vertentes para as quais o "tempo" não é suficiente, se perde um pouco ao não potencializar uma maior e mais profunda exploração de todas as personagens que, na realidade, mereciam ainda mais destaque para se compreender até quão fundo estão ou são capazes de ir... mas que, ainda assim, consegue retirar do espectador alguns sorrisos aquando da breve exploração das teorias de "conversão" fazendo deste assunto tão mórbido e pesado algo que, não deixando de ser levado a sério, se transforma no elemento absurdo de toda esta história que, não sendo real, também não deixa de o ser.



7 / 10



quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Pátria (2023)

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Pátria de Bruno Gascon (Portugal) é a terceira longa-metragem do realizador depois de Carga (2018) e Sombra (2021) recuperando uma vez mais uma história que poderemos inserir no género de cinema social onde, depois do tráfico humano e de uma história baseada num dos raptos/desaparecimentos mais mediáticos da nossa História recente, nos faz entrar no domínio dos extremismos sociais e políticos que estão agora tão presentes no nosso dia-a-dia.
Estamos numa sociedade pós-moderna. O futuro, mais ou menos próximo, divide a sociedade totalitária em dois grupos bem distintos. De um lado temos os Escolhidos no qual encontramos Jonas (Rafael Morais), o seu potencial líder para os guiar numa nova sociedade livre dos elementos indesejados. Do outro temos os Expatriados onde se encontra Mário (Tomás Alves), desterrado da comunidade tal como a conhecera e sujeito a todo o tipo de perseguições daqueles que pretende uma sociedade "limpa". Mário sente a revolta e quer mudança. Poderá esta chegar sem o último e derradeiro sacrifício?
Dando um seguimento às já mencionadas temáticas de cariz social que tem marcado o cinema de Bruno Gascon, o realizador e argumentista entrega uma vez mais ao público uma história que não está assim tão adormecida quando se poderia imaginar. Dividido em três capítulos chave que encontram o equilibrio entre si, Pátria é a revelação da sociedade - de uma sociedade - (portuguesa) imaginada mas já vivida. Uma sociedade que procura a divisão entre escolhidos e indesejados. O "nós" e o "eles" que divide procurando nas mais ínfimas diferenças, muitas delas imaginadas e criadas, a validação para poder prevalecer uma "nova ordem" que regula e regulamenta pela força o ideal de sociedade e de comunidade que se deseja para o controle total e de todos.
Num primeiro capítulo intitulado O Som do Medo o espectador conhece a realidade destas personagens quando encontramos "Mário" (Tomás Alves) perseguido depois de um recolher obrigatório - que não o é para todos - dando dessa forma corpo àquele grupo de pessoas que o sistema considera como sendo os seus inimigos. Validado ou não esse argumento - algum alguma vez o é para uma ditadura?! -, o mais significativo deste segmento para lá da compreensão por parte do espectador do sistema em que estas personagens vivem, são os pequenos símbolos e elementos que caracterizam esta realidade e sociedade que agora se apresentam como as redentoras dessa dita "nova ordem". Das bandeiras bem reminiscentes da nossa memória colectiva (ainda que o seu grafismo possa divergir) às braçadeiras, dos slogans às palavras de ordem sem esquecer um certo sentimento colectivo (dos privilegiados) que se acham injustiçados entregando aos que realmente o são uma noção de privilégio que não existe mas que lhes confere uma culpa existencial para aguçar os apetites dos desordeiros da nova ordem, encontramos aqui todos os elementos que formam, de uma ou outra forma, o ideal de ditadura que mesmo não o tendo vivido se reconhece a uma distância confortável.
É também neste capítulo que ficamos a conhecer as personagens principais. De um lado o "Mário" de Tomás Alves como o homem atormentado por um passado que, na altura, lhe chegou de forma inadvertida e que tem de lidar com as consequências que o mesmo lhe trouxe. Tormento será com toda a certeza o sentimento que mais se conjuga com a sua personagem que vive num desassossego permanente... pelo seu passado e sobretudo pelo presente instável e inseguro que o coloca sempre num limbo face àqueles que agora o "governam". Por outro lado conhecemos também o "Jonas" de Rafael Morais como o insatisfeito que procura nos "parasitas" - como lhes chama - a culpabilização por toda a sua frustração enquanto membro de uma sociedade que deseja mas que, na realidade, apenas prova que o próprio acaba por ser igualmente incapaz nela como nos anteriores desígnios supostamente mais libertários mas nos quais também era invisível... exceptuando a sua propensão para o fácil uso da força em grupo contra aqueles que não só são mais fracos como se encontram sózinhos. Finalmente é também aqui que conhecemos "Ismael" (Matamba Joaquim) que, não tendo um desempenho protagonista acaba por ser o secundário que dá o mote para tornar real o sentimento de luta contra o descontentamento e injustiças de que todos os expatriados são vítimas. Se Alves é o rosto de um sentimento adormecido e Morais aquele de uma raiva completamente descontrolada, é a força que a personagem de Matamba Joaquim entrega que acaba por dar o mote ao dinamismo de uma história que o espectador compreende ter ainda muito por viver.
Se o segundo capítulo intitulado como Os Filhos de Ninguém serve como um interlúdio onde a conspiração se prepara é no terceiro e último A Balada de um Homem Morto que finalmente acabamos por perceber quais os destinos de todas estas personagens e da sociedade enquanto um todo. Se nos Expatriados existe um entendimento de que tudo tem de mudar faltando, no entanto, a coragem para dar esse passo decisivo que a todos possa garantir um futuro melhor - o mal de todos os lutadores pela liberdade -, é também visível para o espectador que nos idealistas da nova ordem não existe qualquer tipo de união para lá daquela que a força dos números lhes confere. Em grupo o ataque é forte e enquanto mais ninguém se organiza... o mal vence pela força dos números e não das convicções que apresenta. O descontentamento entre estes é geral e a dinâmica afirma-se apenas pelos ideais da força e da luta... da conquista e do próprio poder de "um" sobre o "outro" mesmo entre fileiras que discutem sobre quem tem mais poder e quem pode mais facilmente instaurar a "ordem"
Recordar, escutamos num diálogo de "Mário" com uma das outras Expatriadas, é a melhor forma de não voltar a cometer os mesmos erros... Infelizmente, e ainda que da educação e da formação se possa retirar este ensinamento, não é menos verdade que a História - não revista como agora muito se tenta - tem vindo a provar que tudo se repete. Todos os mesmos erros... todos as mesmas falácias... todas as mesmas questões ditas "identitárias" (quão perigosa esta palavra) que se colocam numa ou noutra vez da História. E agora com todos os veículos de comunicação que a dita evolução dos tempos nos trouxe, a disseminação desses novos paradigmas e contextos "históricos" (notem-se as aspas), tornaram-se (para alguns) presentes para difundir esses ideais de uma nova ordem que tantos parecem desejar. Já nada é real quando devidamente comprovado. Não. Tudo é agora real quando à distância de um "click" que as redes sociais permitem facilitando, dessa forma, a difusão de ideais ou conteúdos que nas mãos de um bem falante conquistam milhares... ou milhões. Esta "nova ordem" pode estar à porta - alerta-nos a longa-metragem de Gascon - e por vezes parece que poucos querem observar os perigos que a ela vêm adicionados.
A mensagem deste filme é, em todos os momentos ou frentes, por demais pertinente. Os tempos não são, infelizmente, mais actuais e, para tal, basta que qualquer um de nós ligue um qualquer noticiário e observar como a retórica do "nós" versus "eles" está presente em qualquer bloco noticioso. A linguagem pode até ser subtil e imperceptível se não se estiver a escutar com atenção mas a realidade - aquela que querem fazer agora como factual - espreita por detrás de diversas agendas que motivam muitos grupos (não é por motivo nenhum que Pátria nunca chega a revelar o rosto do ditador para lá de alguns cartazes que encontramos espalhados por algumas paredes), mas a mensagem é subtilmente difundida criando, na comunidade, a ideia de que existe uma diferença entre o "eu" e o "tu". A única coisa que me ficou a faltar nesta terceira longa-metragem de Gascon é a necessária maior exploração das personagens  e das suas dinâmicas ou passados que permitisse criar os opostos mais vincados para lá dos conhecimentos que a História nos pode livremente oferecer. Sabemos sempre que os extremismos existem e, talvez, na realidade não difiram muito hoje do ontem. No entanto, existe uma certa necessidade de compreender o que levou a esta divisão nesta que é (dizem) a geração e a sociedade mais informados de sempre. O que nos levou (leva ou levará?) a acreditar nos preconceitos já conhecidos e comprovados como falácias que os extremistas insistem em criar culpabilizando o "outro" pelas "minhas" lacunas e carências. E se Alves é o rosto dessa revolta interior sentida e durante tanto tempo reprimida pelo medo criado apenas despertada pela injustiça última criada a um inocente como o "Ismael" de Joaquim, é também no extremista de Morais que reconhecemos que o perigo espreita e está atento sempre na espera de poder tomar (pela força) o seu lugar reprimindo todos aqueles que à sua volta desejam sonhar com a liberdade, a dignidade e o respeito. Mensagem essa que, contrariamente a tantas obras com os quais um público mais jovem não se irá identificar, poderia ser abordada de forma temática e contextualizada despertando o interesse para a temática da ditadura, da liberdade, do perigo dos extremismos e das mensagens propagadas sem verificação histórica revelando, dessa forma, que essa mesma liberdade ainda que conquistada não é, para qualquer um de nós, um dado adquirido.
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7 / 10
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terça-feira, 30 de maio de 2023

Psicario (2022)

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Psicario de Daniel Padró (Espanha) é mais uma incursão do cinema espanhol em formato curto no universo do fantástico aqui com um interessante e diferente registo para o género.
Um criminoso (Alain Hernández) entra na casa de uma mulher (Ariadna Cabrol) com o intuito de manipular as suas recordações. Ele quer eliminar as memórias de um passado criminoso que ela testemunhou e que ele pretende ver desaparecer. Conseguirá ele eliminar o passado ou entregar-lhe um novo futuro?
O realizador e também argumentista Daniel Padró cria uma história inesperada na medida em que sem se desviar do universo dos criminosos e mafiosos que tentam eliminar as testemunhas dos crimes que cometeram, os transforma em algo que está para lá do crime banal de rua a que tantas vezes o espectador está habituado neste género de filme em questão. Não, aqui pelo contrário o "nosso" criminoso tem outros intuitos. Tem, digamos, a sua própria agenda criminosa - quase parece que se fala de uma empresa ou de um consórcio de crime -, transformando as memórias da vítima em algo que nunca existiu mas apoderando-se do seu pensamento para lhe atribuir uma nova memória partilhada. Ele já não é o (não tão) simples criminoso contra quem ela iria testemunhar passando a ser agora um amor do passado de quem ela não suspeita ou tem motivos para recear.
Os elementos tradicionais deste género encontram-se todos lá. Uma vítima/testemunha escondida para ir a tribunal depôr contra um perigoso criminoso. Este, incapaz de esperar calmamente por um desfecho que lhe seja favorável, opta não só por a perseguir mas sobretudo para lhe impôr medo. Medo esse que apenas resiste alguns segundos quando ela, ainda consciente do perigo que corre, percebe que nãos e encontra sózinha numa casa enorme e fora do apoio de qualquer autoridade e que, dessa forma, ele mais facilmente poderá controlar. Mas aqui, em vez de se eliminar pura e simplesmente a testemunha, porque não colocá-la no mesmo patamar que o "eu" deste criminoso e transformá-la em alguém que ele conhece, alguém que o ama e, dessa forma, incapaz de ver nas suas acções o perigoso criminoso de que todos os demais falam?!
Do universo de gato persegue rato dentro de uma casa enorme, o espectador passa assim a assistir a uma história entre dois potenciais amantes que, mesmo podendo estar separados, se encontram agora a partilhar alguns dos momentos já vividos no passado (para ela) mas que mais não são do que retratos de momentos breves de um passado próximo (para ele) que, na realidade, nunca chegaram a existir como a nossa vítima assim os percepciona. Estaremos afinal perante um novo tipo de crime que se apropria das nossas memórias ou, por sua vez, apenas diante de um pequeno alento que terá um final comum, banal e já conhecido? Fica a pergunta... o que seria do crime se quem o perpetua se pudesse apoderar das nossas memórias ou, ainda pior, transformá-las em algo que nunca existira?
Interessante na perspectiva da existência e elaboração de um novo tipo de crime tão ou mais perigoso do que a tradicional eliminação das testemunhas a que o habitual filme de gangsters nos habitual, Psicario será, tal como o título indica, um novo desfecho para a realidade de um crime porvir... não aquele que se cometeu e que agora se pretende que as suas provas sejam eliminadas. Esse já o conhecemos e já fora cometido. Agora o objectivo é transformar a testemunha num de "nós"... alguém incapaz de ver no criminoso aquilo que ele é mas sim um indivíduo que queremos "nos" reconheça como alguém que está do nosso lado, que nos quer bem e que jamais seria incapaz de nos prejudicar... o crime não estará tanto naquilo que fora cometido mas sim no que se pode ousar fazer naqueles que não estão do "nosso" lado.
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sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Pereira da Tia Miséria (2021)

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A Pereira da Tia Miséria de Marie Brand (Portugal) é o mais recente dos telefilmes do segmento Treze produzido para a RTP que revela a história de Miséria (Elsa Valentim), uma mulher cuja única alegria são as deliciosas pêras da sua pereira sucessivamente assaltada pelas crianças da aldeia. Depois de perder todos na sua vida, Miséria acolhe um misterioso mendigo (Paulo Calatré) em casa oferecendo-lhe a sua última pêra. Em retorno, o mendigo garante-lhe que ninguém mais irá pilhar a sua árvore correndo o risco de lá ficar preso até que ela o liberte... incluindo a Morte.
Num relato sobre o Portugal de outros tempos em que a má sorte surge de muito perto aliada ao preconceito para com aqueles cuja vida parece bafejada pela tragédia, aquilo que encontramos nesta A Pereira da Tia Miséria é o conto de uma mulher que se vê subitamente presa a um sem fim de perdas físicas e emocionais que a lançam para o imaginário da personagem indesejada e isolada sobre quem todos se habituaram a olhar como a "bruxa" da comunidade. Numa história que começa como o relato de uma história de amor que, na realidade o espectador nunca chega a conhecer, a "Tia Miséria" cedo se transforma na mulher que perde... que perde o amor, o marido, inicialmente o filho para uma mulher que a desdenha e finalmente este, de forma definitiva, num acidente cuja origem é a sua tão estimada pereira.
Conformada com a sua posição marginal numa aldeia que parece nada querer com ela, "Miséria" distancia-se cada vez mais de uma realidade à qual não quer pertencer e, numa sucessão de acontecimentos que não controla, todo o mal desta realidade parecer querer bater-lhe à porta. Da tentativa de violação a um neto que não conhece, dos boatos à própria miséria, a personagem interpretada por Elsa Valentim deixa-se lentamente consumir por um desgosto que parece não ter fim. Mas, o inesperado encontro com um mendigo com o qual partilha o seu único bem precioso, a última pêra, confere-lhe o conforto e a segurança emocional que tanto esperava. Uma luz ao fundo do túnel permite-lhe preservar a integridade da sua pereira intocável para aqueles que a querem vilanizar e roubar deixando-a numa situação cada vez mais precária. Quando tudo lhe parece condenado à perdição e mesmo quando a "Morte" lhe bate à porta, é o possibilidade do seu último desejo que lhe concede a salvação. Mas... o que sucede aos demais quando a própria "Morte" fica cativa?!
É este retrato de um Portugal de outros tempos, imerso na superstição, na desconfiança, no mal dizer, no boato sendo, todos eles, fruto de uma miséria que é transversal, que encontramos neste filme repleto de pequenos espelhos de uma comunidade rural onde a religião e os bons costumes nem sempre praticados ganham forma. De um padre (Heitor Lourenço) neutro mas que cedo cede aos caprichos da multidão aos boatos gerados por uma jovem mulher (Bárbara Branco) corrompida pelo ódio para com a relação do seu marido com a sua sogra passando pelo oportunismo de um padeiro (Elmano Sancho) que vê na solidão de uma mulher a (sua) forma de satisfazer os seus caprichos carnais, encontramos de tudo num conto que dá corpo, sobretudo, ao preconceito que apenas a carência e a imaginada superioridade de uns sobre os outros pode confirmar, neste Portugal rural, de velhso costumes, de tradições bem definidas e de invejas que o tempo veio consumar.
Assumidamente um dos melhores telefilmes deste segmento, A Pereira da Tia Miséria prima ainda para lá da sua interessante, ainda que pouco explorada, história, mas sobretudo pelo ressurgimento - felizmente - de uma gigante actriz como o é Elsa Valentim. Dona de uma subtileza notável que transforma a sua "Miséria" numa mulher marcada pelo tempo e pelas circunstâncias, vê-mo-la, no entanto, como uma sobrevivente de todas as adversidades que continuamente lhe foram colocadas no caminho. Da perda emocional àquela de filiação, do desdém alheio à tentativa de humilhação física e psicológica passando pela própria passagem da morte pela sua porta, Valentim transforma a sua personagem num marco das agruras... numa "biblioteca" da perda que se reflecte no seu olhar quase sempre passivo como que confirmando a aceitação da tragédia como uma (sua) inevitabilidade. Pecando apenas pela escassa (muito escassa) duração deste telefilme que poderia facilmente ter sido um pouco maior, Elsa Valentim agarra na sua personagem conferindo-lhe uma imensa alma que, caso existissem dúvidas, seriam confirmados nos instantes finais onde compreendemos que o martírio de "Miséria" está para lá daquele que o próprio tempo poderia alguma vez colmatar.
Como referi um pouco mais atrás, este A Pereira da Tia Miséria é um dos melhores telefilmes - à data - que este segmento Treze da RTP já emitiu sendo que, no entanto, exibe um conjunto de fragilidades que o limitam nomeadamente a já mencionada curta duração que não permite a exploração de algumas das personagens secundárias importante e fundamentais para a narrativa, ou mesmo os cenários (naturais) que poderiam ter engrandecido esta atmosfera de perda ou miséria que se faz esperar deste conto deixando-o naquele limbo no qual se compreende que temos aqui uma interessante e forte história sobre o preconceito e a passagem do tempo, sobre a redenção e a perda mas que, ao mesmo tempo, se limita pela ausência de uma exploração total das suas diferentes perspectivas das personagens, dos seus destinos e sobretudo das dinâmicas que poderiam ser criadas entre si. A única certeza que temos é que a "Miséria" - aquela que é literal, a humana e a personagem - se perpetuam no destino sendo tão ou mais ilimitadas que o próprio tempo que desafiam.
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terça-feira, 27 de outubro de 2020

Plastic (2020)

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Plastic de Albert Baro, David Mora e Benjamin Riquelme (Espanha) é uma micro-metragem com uma mensagem que tem importância mil vezes maior do que a sua escassa duração.
Um grupo de amigos nadam e brincam no mar. Mas um perigo espreita na profundidade das águas. Irá alguém escapar?
Se o cartaz e a presunção de perigo em alto mar encaminham o espectador para uma ameaça natural que espreita onde menos se espera e sobrevive graças à presença de uma presa frágil - o Homem -, a verdade é que rapidamente nos apercebemos que a ameaça é real sim... mas provocada pela própria acção do Homem e do seu rápido e selvagem consumismo. Aqui a ameaça é apenas uma... o plástico.
É este cancro do século XX do qual dificilmente, se é que alguma vez, irá desaparecer dos nossos hábitos e, sobretudo, do planeta que aqui ganha forma e importância pela sua presença que é nestes dias vincada em todos os lugares do planeta... mesmo nos mais recônditos. A presença do Homem que descontroladamente consome, desperdiça e não recicla os seus detritos lançando-os perdidos em qualquer lugar, provoca uma poluíção que se espalha e alastra por todos os cantos do planeta do ar à terra sem esquecer o mar. É este desperdício que prejudica não só a biodiversidade aquática como também a sobrevivência do Homem que retira deste ecossistema muita da sua sobrevivência. Sendo o "cancro da Terra" uma ameaça que é agora mais presente do que nunca... o que poderá fazer o Homem não só para a sua sobrevivência como sobretudo para a do planeta e das gerações seguintes sustentando a sua harmoniosa dependência dos recursos naturais?
Numa reflexão sobre como o mar é agora mortífero não pelas sua fauna mas sim pelos detritos que agora o poluem, esta curta-metragem transforma um "esperado" tubarão num monte de plástico que quando já não existe vida aquática para eliminar "dirigir-se-à" para o Homem que mais não é do que o seu mais provável "alimento" deixando, como é óbvio, uma clara reflexão sobre a forma como este meio e habitat natural tem sido tratado, ou melhor... degradado, nas últimas décadas fazendo dele não o "lar" de tantos animais e plantas mas sim um não natural depósito de lixo do consumismo humano.
Inteligente pela forma como dá corpo a toda uma realidade deste agora triste século XXI, Plastic apenas se fragiliza pela sua escassa duração que, de outra forma, poderia ter entregue uma obra não só mais social como ainda mais pertinente caso a exposição da ameaça fosse mais presente, mais assustadora e mais mordaz sob o ponto de vista da realidade que de facto assombra este meio natural. Ainda assim, não só actual como pertinente.
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sábado, 1 de agosto de 2020

La Puerta (2017)

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La Puerta de Adrià Guxens (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção #DeLorean desta edição online do Piélagos en Corto que, este ano devido à crise de emergência sanitária provocada pela COVID-19, se realiza apenas nesta curta edição online onde são recuperados alguns filmes curtos dos últimos anos.
Depois da morte do pai, Lucas muda-se com a mãe para casa dos avós. É nesta casa que encontra uma sala cheia de antiguidades e uma porta que não consegue abrir e que o deixa intrigado sobre o que poderá estar do outro lado.
A relação que é apresentada ao espectador entre a mãe e um filho que sofreram uma recente perda assume-se para lá de tensa, algo insistentemente desconfortável num misto de intransigência e indiferente. No fundo, aquilo que aqui observamos são duas pessoas que experimentam uma perda avassaladora e que estão, naquele específico momento, incapazes de lidar com uma nova realidade que "agora" se apresenta. Da forma de diálogo mais ríspida ao desconforto social entre ambos, é "Lucas" (Marcel Navarro) que o espectador mais acompanha e que o revela como uma criança incapaz de ler a realidade tal como ela é mas que encontra sim um refúgio na sua imaginação e é através de esta que tenta, de forma solitária e incompreendido, encontrar o conforto que o poderá fazer apaziguar o seu espírito atormentado com a falta física de um pai que jamais voltará.
No fundo, aquilo que La Puerta essencialmente nos revela é a forma transformadora como uma criança aprende e lida com a dor provocada pela perda fazendo desta "porta" o expiar da mesma que muito lentamente o vai consumindo e que o próprio não sabe explicar mas que, ao mesmo tempo, poderá ser ela (a porta) que "aceite" todos os seus lamentos e desabafos de criança - incapaz de os ter com qualquer um dos que o rodeiam que são essencialmente adultos - e que sirva como o seu próprio escape para com essa dor que reconhece mas não compreende.
Assim, é esta incompreensão da "dor" como um sentimento novo que La Puerta exibe sob a perspectiva de uma criança que descobre a realidade da amargura de um mundo que, até então, desconhecia e com o qual agora se vê confrontado sem que os adultos - neste caso a mãe - o confortem e expliquem que aquilo que conhecera até àquele momento será agora vivido de forma diferente. Com uma ausência. Com um olhar de consciência etérea que apenas o próprio pode pensar que o acompanha como um guia. A dor, essa dor inexplicável, terá de a compreender como uma nova parte do seu "eu" e viver com ela da forma que melhor lhe conseguir sobreviver. Pela imaginação, pelo próprio poder de conseguir imaginar o que está "mais além" e que só o próprio reconhece como a sua própria nova realidade avassaladora e que não lhe permite ter conforto mas que o ajudará a crescer... ainda que muito antes do seu tempo.
Forte pela sua componente de realidade social e familiar, pela perspectiva de uma criança para com a perda e para com a dor, La Puerta pedia um pouco mais de exploração do seu conteúdo infantil, um realce mais detalhado da realidade desta criança e dos espaços e momentos que o mesmo, através do poder do seu pensamento, encontra para resistir, sobreviver e até mesmo ultrapassar a dita realidade sem que esta (o) colha para um "outro lado" ainda mais complicado. Num ambiente aparentemente hóstil, apenas a tal "porta" para uma outra realidade o irá fazer viver.

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6 / 10

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sábado, 11 de julho de 2020

Purpleboy (2019)

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Purpleboy de Alexandre Siqueira (Portugal/França/Bélgica) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial de Animação da sétima edição do Leiria Film Fest que, este ano, decorre nas plataformas digitais do festival devido à actual situação de emergência sanitária.
Oscar nasce no jardim da casa dos pais. Ninguém sabe o seu sexo mas ele afirma ser rapaz. Num momento autoritário e opressivo poderá Oscar ter o reconhecimento que deseja?
O argumento desta curta-metragem - num positivo e distinto elogio à obra de Siqueira -, repleto de representatividade e simbologia, afirma-se essencialmente como uma ode à individualidade e ao poder da auto-representação tão, e cada vez mais, difícil num mundo onde a transformação e a aceitação do "outro" são, a cada dia que passa, tarefas árduas para aqueles que pretendem uma normalização do "eu" como a referência social predominantemente aceite e estilizada. Normalização essa que colide com toda uma diversidade que por vezes não se compreende, outras não se observa e, tantas outras, não se conseguem identificar mas, fundamentalmente, não se pretendem aceitar como parte de um todo colectivo.
Nesta perspectiva, Purpleboy é um filme inovador cujo recurso à animação pretende, conscientemente ou não, alcançar um público diversificado - a nível etário - e, dessa forma, facultar uma abordagem a essa diversidade que pareça não só fruto de uma obra que se pretende de entretenimento mas, sobretudo, uma que tenta de forma construtiva deixar uma mensagem educacional sobre essa já mencionada diversidade e a sua validação pela sua compreensão. Purpleboy desmistifica a cada fragmento o esperado papel social homem versus mulher. Porque não poderá alguém nascido no corpo de uma mulher ser, no fundo, um homem... porque terá um homem de gostar de futebol e não de jardinagem... Porque terá de existir uma cor ou um comportamento que determine o papel social de cada indivíduo e não os seus gostos, as suas acções ou os seus sentimentos... indo mais longe, porque terá alguém de ser definido ou "determinado" seja pelo que fôr e não ser simplesmente... ser?!
Inteligente pela mutação da história que evolui à medida que cada fragmento é exposto, e expõe, um determinado momento na história de "Oscar" e da sua (auto-)transformação consciente que nos é revelada através de pequenas imagens e simbologia (do sangue ao avião em forma de quinta como representação dessa transformação e de uma "viagem"), Purpleboy exibe uma energia muito própria também graças a uma intensa música original de Christophe Petchanatz que lhe confere um espírito tão ou mais irreverente que o protagonista mas, ao mesmo tempo, a necessária e esperada sensibilidade para que o seu público consiga encontrar pontos de referência e empatia se não com ele... pelo menos com a sua história, e francamente imaginativo pela forma como aborda certos lugares comuns do papel social (esperado) de cada um, quebrando inesperados tabus, dissolvendo ideias pré-concebidas sobre os mesmos e onde todos os momentos têm um próprio e necessário sentido que vinga pela sua pertinência e sentido.
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8 / 10
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O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto (2019)

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O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto de Bruno Caetano (Portugal) é uma das curtas-metragens de animação presentes na competição oficial da sétima edição do Leiria Film Fest.
Uma cidade. Tempos futuros. A Natureza foi proibida e a vida como a conhecemos já não existe. Um homem comete um crime. As consequências, ainda que inesperadas, revelam os tempos em que vive.
Encontramo-nos numa cidade sem um único sinal de vida. A já mencionada Natureza não existe e mesmo a vida humana parece limitada a um conjunto de comportamentos que se transformaram em hábitos de sobrevivência desprovidos de qualquer sentido racional que os aproxime daquilo que são... humanos. Com gestos e comportamentos controlados quer pelas autoridades quer por aqueles que agora vivem dentro de uma "nova ordem" social, como resistir quando o diferente, o belo ou aquilo que é (agora) inatingível surge inesperadamente ao virar da esquina? Diz-se que o maior acto de rebeldia é a forma como se desafia a ordem... mas, na realidade,  não será este mais do que a admiração pelo belo e desconhecido que se assume à frente dos (nossos) olhos e garante o vislumbre daquilo que já não existe mas que encontra uma forma de sobreviver no mais inóspito dos ambientes?
Esta curta-metragem não poderia chegar numa altura mais pertinente. Habituados que estamos em observar o nosso meio ambiente ser destruído pelos inequívocos "sinais da evolução" que transformam espaços verdes em cemitérios de cimento e onde tudo se limita a uma vida de rápido, desorientado e desorganizado consumismo, perguntamos (quando já não o temos), o que é feito dos espaços verdes que, em tempos, embelezavam as nossas ruas, os nossos bairros e as nossas cidades?! Em O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto o realizador Bruno Caetano desafia esta nova "normalidade" dando cor (ou a sua falta) a uma intransigente realidade que o espectador consegue identificar em tantos bairros e em tantas cidades - eventualmente a sua - e questiona rapidamente... para onde nos dirigimos?
Como toda uma consequência dessa realidade o que encontramos na realidade... de uma cidade cinzenta e poluída a um policiamento que surge de todas as esquinas. De pessoas desinteressadas com a realidade que, eventualmente, nem chegaram a conhecer a um ritmo frenético e mecanizado a grande questão surge quando o maior acto (ou pelo menos o inicial) de rebeldia é manifestado por uma força maior que poderemos identificar com essa Natureza "desaparecida". Esta é agora considerada como algo subversivo, tal como a água que agora só pode ser obtida gota a gota mediante um pagamento quase insuportável e a sobrevivência clandestina da mesma deve-se apenas àquele que, em sigilo e na clandestinidade, mantêm a autêntica necessidade de mudar (para) algo que eventualmente nunca havia conhecido. Identifica e reconhece mas o espanto denotam a compreensão de que aquilo que se observa é algo desconhecido como que observando um fruto proibido.
Assim, e neste contexto de uma "nova realidade" - ou o "novo normal" que este ano tanto se utiliza -, esta curta-metragem aborda temáticas tão importantes como a massificação da industrialização desordenada, da construção selvagem, da substituição do meio natural pelo cimento e pelo betão mas também de uma nova ditadura que, tão antiga como aquela que os livros de História relatam, primeiro começa com a implantação de um novo conjunto de regras que poderão assumir-se como "inofensivas" mas que cedo se manifestam como ordens obrigatórias a cumprir, que se verificam pelos olhares indiscretos de alguém sempre pronto a identificar-se com esse regime e sobretudo pela penalização que o mesmo aplica para aqueles que o "desafiam"... mesmo nas acções mais básicas que são, para este, subversivas.
Intenso e actual serão os melhores adjectivos a aplicar a este O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto que não só é uma das curtas-metragens mais apropriadas e actuais do presente momento - nacional e mundial - como também dos mais bem executados e pertinentes filmes cuja animação, nem sempre inocente, alerta para esta "mudança" não anunciada mas sempre assumida como a realidade que vivemos abrilhantada por uma música original de Filipe Raposo que capta um certo espírito "moderno" apenas amenizado por uma direcção de arte que nos transporta para um mundo distópico que por vezes não identificamos num passado ou num futuro... francamente anunciado.

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8 / 10

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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Primeiro Cais (2019)

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Primeiro Cais de Chiara Missaggia (Portugal) é um dos documentários presentes na respectiva selecção oficial da sétima edição do Leiria Film Fest actualmente a decorrer na cidade beirã.
Cacilhas. Um grupo de homens reúne-se e fala sobre pesca e o percurso que os levou até esta actividade para uns lúdica para outros como forma de subsistência.
Este documentário de Chiara Missaggia reflecte, e tem como premissa principal, a formação involuntária de um grupo - ou de uma tribo - que, qual família, se reúne regularmente e ali partilham experiências, conhecimentos e vivências encontrando, naquelas pessoas e naquele lugar, uma zona de conforto onde agem e reagem com a confiança de que ali, independentemente de tudo o que se passe ao seu redor, encontram uma compreensão e cumplicidade pela partilha de actividades em comum.
Assim, é a presença da realizadora que se assume como o elemento "infiltrado" neste grupo primeiro por ser alguém recente no mesmo e depois por captar os seus rituais e comportamentos de forma tão intensa transformando-se, ela própria, uma sua parte ou até mesmo, capaz de influenciar em certa medida alguns dos actos e conversas que ali se formam não deixando nunca, no entanto, de se marcarem pela sua espontaneidade.
Dinâmico sob uma perspectiva de familiaridade que ali se consegue criar falta-lhe, no entanto, a exploração de quem são estes homens e dos seus quotidianos, os motivos pelos quais encontram a sua tranquilidade naquele espaço e por entre aqueles outros que são, de certa forma, os seus pares e com quem para lá da amizade acabam por partilhar todo um modo de vida alternativo - no que a hobbies diz respeito -, possibilitando o espectador conhecer um pouco mais sobre realidades que poderão ser, à partida, distintas daquelas que muitos de nós conhecem.
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6 / 10
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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Paisagem Submersa (2019)

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Paisagem Submersa de Miguel Almeida (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial de Documentário da sétima edição do Leiria Film Fest.
Este breve documentário é uma intensa reflexão sobre a vida daqueles que têm o Vouga como parte integrante de todas as suas memórias... da juventude a uma idade mais avançada nada do que possam recordar está distante da imagem do mesmo.
Dos cantares populares de outros tempos que ecoam pelas ruas da aldeia a pequenas histórias sobre as vivências da população na mesma que remontam aos tempos da sua juventude, Paisagem Submersa vive desse imaginário que se perpetua ao longo dos anos eternizando a identidade popular, da aldeia, do povo e sobretudo do Vouga que faz parte da maioria dos relatos que a "sua" população recorda do passado e de um presente que ainda persiste.
O mesmo Vouga que, segundo os populares "vai sempre buscar os direitos que tem"... os direitos sobre a terra, sobre o seu espaço tantas vezes roubado em nome de um progresso nem sempre planeado e que, tal como a memória, encontra sempre o momento para reclamar a sua própria "memória" recuperando a terra que sempre lhe pertenceu.
As memórias da terra, do espaço, do rio, das pessoas e também das suas vivências são assim o foco central deste documentário curto que flui como o rio mas que deixa todo um espaço para construir e melhor documentar as histórias do povo e da terra numa concepção de memória histórica cada vez mais importante para a construção da identidade local e nacional. Paisagem Submersa é assim uma obra carismática inserida num conjunto de obras de documentação local que permite não só o conhecimento das gentes como também de algumas tradições orais que tendem a desaparecer... tal como a própria terra.
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7 / 10
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sábado, 6 de junho de 2020

Le Printemps de Mélie (2009)

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Le Printemps de Mélie de Pierre-Luc Granjon (França/Canadá) é a segunda de um conjunto de quatro curtas-metragens sob a temática de As Quatro Estações presente no We Are One: A Global Film Festival e que aqui revela a história de Molly, coroada raínha no Festival das Flores durante as celebrações da aldeia despertando dessa forma a inveja de Bonifácio que envenena a água da aldeia. Numa luta contra o tempo, Molly tem de encontrar o antídoto para salvar todos.
Este segundo conto d'As Quatro Estações é, sobretudo, o registo de um conto sobre o início da vida. O início de uma época e come ela o de uma estação onde o recomeço da vida delimita todos os comportamentos das diversas personagens que povoam esta pequena mas animada história. Aqui nada é deixado ao acaso, principalmente se considerarmos que esta curta-metragem se insere no âmbito de uma animação pueril onde até o próprio mal não é tão mau quanto o que poderíamos pensar, e são os pequenos detalhes que enriquecem a história, e com ela o ecrã, que deixam o espectador cúmplice de um conto que seduz pela riqueza e beleza dos seus cenários. Vários são os instantes onde nos deparamos a olhar para o ecrã como se nos recordássemos das pequenas histórias e fábulas que líamos em criança e onde vemos nestas personagens tantas que enriqueceram o nosso imaginário há algumas décadas atrás. Senão vejamos... temos um Rei... uma Princesa... Um Feiticeiro que quer capturar o trono e casar com a anterior... Inúmeros pequenos grandes heróis anónimos que vão lutar em nome do bem e, como não poderia deixar de ser, o masi (in)esperado dos heróis que faz jus a esses pequenos contos de outros tempos.
No essencial temos o típico conto medieval onde reinam os nobres acompanhamos por todas as demais personagens dotadas de consciência - qual fábula - que vivem as mais inusitadas tramas de luta pelo poder mas que, na realidade, o propósito final será a celebração da época que vê nascer todas a vida na Terra... a Primavera. Esta Primavera, não só tráz consigo a vida através das flores que florescem, das abelhas que extraem pólen, so Sol que volta a nascer com o vigor desejado ou do mel que alimenta todos no Reino, mas também um nascer social com uma nova Princesa (ou Raínha) que luta pelo seu Reino e pela dignidade de todos aqueles que nele vivem independentemente dos seus passados mais ou menos nobres. Mesmo daqueles que lutam para que o Reino não fique nas suas mãos.
Le Printemps de Mélie é sobretudo uma curta-metragem e um conto para animar aqueles a que se propõe enquanto uma experiência. Um filme que explora a imaginação mais infantil de cada um de nós onde a luta entre o bem e o mal não assumiam os contornos a que hoje assistimos onde tudo tem de ser alvo de uma destruição iminente mesmo que, lá no fundo, esta se encontre presente nas acções dos ditos vilões que tudo fazem e esperam para alcançar esse poder. Mas, no entanto, tal como a Primavera que esta curta-metragem pretende celebrar, também as boas acções ganham finalmente destaque e sobrepõem-se às ameaças que espreitam... pois tudo o que a vida tráz... também faz renascer mais vida para aqueles que a esperam.
Dotada de uma mensagem ligeira e súbtil, esta curta-metragem celebra o espírito da aventura, a conquista das amizades que se formam com o tempo, a vida e o renascer de uma nova esperança bem como a conquista dos bem aventurados face às provações que lhes são colocadas. Porque apenas a unidade faz conquistar o bem restituindo aos nobres o seu verdadeiro trono.
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7 / 10
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sexta-feira, 22 de maio de 2020

La Partida (2020)

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La Partida de David Mora (Espanha) é uma das curtas-metragens que facilmente se poderá assumir como um reflexo dos tempos. Ele (Mora) partilha um jogo com a avó. Mas o jogo é agora jogado de uma forma inesperadamente diferente.
Inicialmente esta curta-metragem apresenta breves planos que são, para o espectador, um enigma. Observamos os parcos monólogos do protagonista para uma avó que, compreendemos pelos momentos vividos e pelo telemóvel presente, não estar no mesmo espaço nem conseguir comunicar como o faria noutras circunstâncias. Poucos serão, muito poucos, aqueles que alguma vez pensaram numa situação como a que agora se vive devido a esta crise de emergência sanitária e, como tal, existe toda uma nova forma de estar, agir e actuar perante o mundo e perante cada um de nós. As famílias vivem agora distantes e apenas ligadas pelo uso das novas tecnologias que, no entanto, também não estão disponíveis para todos - a nível geracional, social ou económico -, e a grande questão que esta curta-metragem levanta prende-se com um único e transformador momento... o que acontece quando não nos podemos despedir pessoalmente daqueles que mais amamos? Até que ponto estão, neste momento, alteradas as nossas realidades? Num mundo incerto e onde essas realidades não estão garantidas, como se poderá agir ou enfrentar os factos que se sucedem quando não conseguimos - ou nos é impedido - fazer um luto presencial?
Simples mas emocionalmente desgastante numa perspectiva em que esta ficção é, agora, uma realidade presente, La Partida é mais do que um jogo que se joga e do qual se tenta retirar uma vitória e um ponto, aqui sim encontramos e observamos o último momento desse grande "jogo" que se chama vida... Uma vida que lentamente se extingue partilhando um último prazer que resume todos os momentos que, nesse passado agora observado com alguma distância, simbolizam a união que se sentia nesta relação entre avó e neto. Um momento que é compreendido na (in)consciência de cada um como a tal despedida sem retorno. A despedida que se pretende marcar como algo que nunca poderá ser especial.
Intensa sobretudo pela forma como retrata na perfeição o já mencionado desgaste emocional desde já saturado ano 2020, La Partida resume para lá da perda e de forma sentida e perfeita, a impossibilidade do toque e do dizer adeus àqueles que mais amamos.
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7 / 10
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

The Party (2018)

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The Party de Christopher C. Wyatt (EUA) é uma das curtas-metragens em exibição durante a edição deste ano do Trapped Film Festival naquela que é uma história de terror "simpático".
Dois vizinhos queixam-se do barulho na festa no apartamento ao lado. É quando decidem bater à porta do mesmo que as suas vidas se irão transformar para sempre.
O imaginário colectivo sobre este género cinematográfico está por demais explorado. Qualquer um de nós, espectadores mais atentos deste tipo de cinema de terror, (re)conhece inúmeras obras onde poderemos encontrar os mais diversos elementos aqui explorados. Desde "o terror na casa do lado" ao "reunião sobrenatural", ou qualquer outro lugar comum no qual poderemos enquadrar este The Party está visto e revisto e não acrescenta nada ao género ou ao espectador per si. Se inicialmente observamos esta história com alguma curiosidade face às tentativas do casal protagonista em encontrar a sua paz e sossego e com expectativa para ver que tipo de "terror" os espera, é quando descobrimos o que realmente escondem as paredes daquele apartamento que, na realidade, conhecemos de imediato tudo o que vai acontecer, como, quando e a quem deixando claro que o final não só é previsível como não nos irá despertar qualquer tipo de reacção inesperada.
Com uma execução interessante a nível de direcção de fotografia - Rakesh Malik e Chad Petrie estão de parabéns pela atmosfera que conseguem criar ao recorrerem ao lado mais sombrio das luzes -, esta "festa" está longe de ser credível enquanto obra cinematográfica inovadora limitando-se sim a ser mais um remake de uma história que todos conhecemos e que apenas diverte enquanto não chega ao momento em que tudo desvenda.

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4 / 10

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sábado, 16 de novembro de 2019

Playtime's Over (2019)

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Playtime's Over de Tony Reames (EUA) é uma das curtas-metragens seleccionadas para a décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta.
Dee (Evan Reames) é uma jovem menina apaixonada pelo cinema de terror. Mas com uma paixão ainda maior pelos sustos que poderá provocar às suas babysitters.
Todd Jacobs e Haley Leary assinam o argumento desta curta-metragem de suspense que mistura um pouco de filme juvenil com a esperada incerteza de um filme de terror que surpreende pela sua imprevisibilidade. Em Playtime's Over encontramos aquele elemento de cinema dentro de um filme de cinema que junto pequenas referências de inúmeras obras do género - assim prestando a sua homenagem e dando luz às diversas referências que "educaram" o seu realizador - permitindo construir uma obra que brilha não só pelo susto que se espera a cada segmento como, ao mesmo tempo, brinda com aquele humor incerto pela incerteza do que esperar ao virar de cada cena.
Desde alguém que toca à campaínha no mais inesperado dos momentos às máscaras assustadoras, das referências a Psicho (1960), de Alfred Hitchcock ou a Carrie (1976), de Brian de Palma, do quarto 237 de The Shining (1980) de Kubrik ao mais recente franchise Saw sem esquecer um dos êxitos do final do século através de The Blar Witch Project (1999), Playtime's Over brinca um pouco com o cinema permitinfo ao seu realizador criar uma obra que se insere no terror não só pelo ambiente de insegurança que recria ao colocar uma inocente babysitter num ambiente hóstil como também pela sua capacidade de brincar com as diversas referências que homenageia ao mesmo tempo em que constrói a sua própria história.
Mais uma comédia mordaz do que propriamente um filme de terror, este assume-se portanto através das referência aos hoje considerados clássicos do género. Aquelas obras que qualquer cinéfilo mais atento irá reconhecer sem, no entanto, esquecer de criar a sua protagonista de terror que aqui se assume mais como uma personagem "em crescimento", capaz de transformar a vida da mais inocente pessoa num caos (talvez seja esse o seu terror verdadeiro), enquanto que se diverte em fazer sofrer, em assustador e em criar a próxima vítima do género - e no final percebe o espectador que ela não estava sózinha - mas que, ao mesmo tempo, consegue passar incólume aos olhos dos seus progenitores mais preocupados com a sua própria vida e acontecimentos sociais do que propriamente em dar atenção ao seu rebento que encontra, dessa forma, não só a sua desculpa para passar ao lado dos que a olham com olhos de verdade como também em construir o seu próprio universo cheio de imaginação e criatividade.
Típico do género teen horror movie, Playtime's Over é acima de um filme de terror, um que celebra o género pela referida homenagem assim como tantos dos elementos que os compõem... o terror dentro de uma casa isolada... a eterna criança tantas vezes vítima de um agressor desconhecido e claro... a sempre presente babysitter que é, normalmente, a primeira e vítima maior do terror que espreita na escuridão... divertido, bem pensado e executado, Playtime's Over... ou será apenas o início?!
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7 / 10
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domingo, 13 de janeiro de 2019

Planet of the Sharks (2016)

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O Planeta dos Tubarões de Mark Atkins (EUA) é uma longa-metragem que tenta o género fantástico e o suspense ao apresentar um mundo num futuro não tão distante onde devido ao aquecimento global o planeta ficou coberto de água deixando a pouca população existente a nível mundial a viver em pequenas plataformas aquáticas. À sua volta, todo um conjunto de vida submarina na qual se desenvolvem grandes comunidades de tubarões agora a espécie dominante no planeta e liderados por uma fêmea alfa que deseja o domínio absoluto.
No meio de um mundo devastado e onde a sobrevivência é ameaçada pelo ambiente, agora normalizado, de uma Natureza impiedosa - o elemento ecológico que se tenta numa obra assumidamente menor e que ninguém será capaz de levar a sério -, este Planet of the Sharks apresenta um conjunto de personagens que são, no mínimo, estereótipos do absurdo encarnado em actores com uma clara deficiência de compreensão daquilo que se espera ou que devem fazer.
O espectador começa por assistir a um desesperado salvamento do membro de uma comunidade que foi arrasada pela acção destruidora do "gang dos tubarões". A partir daqui, não só é - o espectador - surpreendido por um deambular  desta personagem como um elemento decorativo que todos temos na nossa sala mas que ninguém, na realidade,realmente quer ou aprecia como nos deparamos com todo um elenco que circula por um filme através de um conjunto de noções pré-concebidas sobre o que será esse futuro "apocalíptico" e ao nível baixo a que a dita civilização realmente chegou.
Como herói deste novo mundo temos "Dillon" (Brandon Auret) que circula entre as várias comunidades e estabelece a desejada relação entre as mesmas através das trocas comerciais que estabelece nas suas viagens em alto mar mas que é subitamente ultrapassado por uma audaz "Shayne" (Stephanie Beran) que, por entre tentativas de salvar o planeta com as suas experiências climatéricas, também é ás de desportos radicais agora... uma própria forma de sobrevivência. Assim, entre personagens decorativas e salvadores da Humanidade que parecem retirados de uma qualquer embalagem de alimentos relativamente "pré-cozinhados", Planet of the Sharks consegue ainda exibir todo um conjunto de figurantes especiais - chamar-lhes de actores ou intérpretes de personagens credíveis seria arriscado demais para o bom nome de quem quer que seja - que facilmente caem no ridículo deixando o espectador com mais ou menos leves gargalhadas ao pensar que... será que isto está mesmo a acontecer?! Todos, com a clara excepção da personagem que fora inicialmente salva, são peritos em questões ambientais, na mais actual (valha isso o que valer ...) tecnologia - mesmo que aquela exibida no filme remonte a 1990 - ou até mesmo na caça ao tubarão (agora evoluídos e mais inteligentes) feita através de rituais aborígenes e uma auto-confiança que não lembra a ninguém... todos deambulam por um espaço frágil mas com a certeza de que são (ainda) senhores poderosos de uma Terra que, literalmente, já não existe, e quando pensamos que a civilização desapareceu... não foi apenas por ficar coberta de água mas sim porque se fôr a isto que tudo se resume... encontramos uma muito pobre noção do que realmente nos "espera".
Assim, da falta de credibilidade ao exagero, do absurdo à ausência de noção como poder fazer um filme que aborde todos os temas aqui desejados - ambiente, feminismo, sobrevivência, tecnologia versus Homem... - de forma coerente e possível, Planet of the Sharks nem tão pouco se preocupa em exibir os tão mal fadados tubarões para lá do fácil e ridículo (pobre) efeito especial que parece desenhado por alguém com cinco anos de idade mas com muito mais experiência informática do que quem trabalha obrigatoriamente há mais tempo no ramo. Esquecendo voluntariamente que o argumento é necessário para dar alguma coerência à "coisa" (chamar-lhe filme seria complicado...) remetendo-"a" para aquela lista de longas-metragens que todos adoramos ver num qualquer dia a altas horas da madrugada mas que na realidade não nos deixará qualquer tipo de saudades ou vontade de ver uma segunda vez... conseguir perder com Planet of the Sharks mais do que estas já longas linhas... que asseguro terem demorado mais tempo a escrever do que a própria duração do filme... é por si um feito. Depois disto, quem quiser seguir por esta via... está por sua conta e risco.
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1 / 10
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domingo, 25 de novembro de 2018

Pele de Luz (2018)

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Pele de Luz de André Guiomar (Portugal/Moçambique) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial deste segundo dia do Caminhos do Cinema Português.
Neste documentário curto o espectador conhece Anifa e Isa, duas irmãs albinas que sobrevivem em Moçambique onde a crença de que a cor da sua pele é um factor de diferença da demais população.
Numa altura em que tanto discutimos sobre as diferenças visíveis que a dita "cor de pele" exibe, o documentário de André Guiomar reflecte, por sua vez, sobre algo mais vasto e relevante como o é a eterna busca pela identidade e como esta define a personalidade do indivíduo quando ambos são uma consequência directa de um passado vivido. No entanto, é aqui que surge a grande questão das duas protagonistas desta história na medida em que as irmãs sentem-se, elas próprias, diferentes da realidade da comunidade em que estão inseridas. Comunidade essa que, por sua vez, é também ela adversa e resistência à diferença que ambas exibem devido ao albinismo. Assim, e numa questão de identidade, em que realidade se inserem quando parecem não correspondem ao grupo onde residem?
Assim, nesta comunidade que ainda se rege pelas tradições sociais e religiosas tribais onde o "diferente" pode ser considerado como "bruxo" ou "feiticeiro" e, como tal perigoso, existirá possibilidade de sobrevivência e crescimento quando as próprias protagonistas são (foram) alvo de rapto e de uma certa ostracização social que as coloca nas margens da própria sociedade?
Das visitas à Igreja que tão fervorosamente defendem como um factor de inserção na referida sociedade e que a ajuda a aceitar que a sua diferença não a irá tornar diferente aos breves momentos que a câmara partilha da sua estada na escola na qual se discutem as questões centrais desta história... passado... identidade... personalidade e a directa consequência de umas nas outras ou como todas definem o indivíduo neste presente que vivem fazem deste documentário uma aliciante e instrutiva obra sobre as diferenças entre sociedade e comunidade e como cada um de nós se poderá nelas inserir como "um dos seus".
Pele de Luz, com o seu ligeiro mas seguro passo lança portanto pertinentes questões sobre o indivíduo, tantas vezes difíceis de se responder, mas com base nessa premissa da diferença tão silenciosamente presente lança a questão fundamental deste e de tantos outros documentários ou questões identitárias... Poderá a imagem definir a identidade e, como consequência, a própria personalidade ou sentimento de pertença a um grupo? Com a solução bem presente mas capaz de ser interpretada por cada espectador de forma individual e diferente, Pele de Luz responde com clareza a esta questão quando a protagonista esclarece que "a sua diferença não a irá tornar diferente" deixando para trás todos os preconceitos que a sociedade ou os seus membros possam sentir para a exclusão... do "outro".
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7 / 10
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quarta-feira, 4 de julho de 2018

The Purge: Blood Ties (2016)

The Purge: Blood Ties de Daniel Peña (EUA) é mais uma curta-metragem inspirada na saga The Purge iniciada em 2013 por James DeMonaco aqui inteiramente direccionada para a dinâmica de uma família durante A Purga de doze horas que se iniciara.
Num bairro residencial, os pais de duas jovens encontram-se numa festa que celebra o evento anual enquanto elas permanecem em casa fechadas à espera que o mesmo passe rapidamente. Jade conversa com um amigo enquanto a irmã Madie dorme... mas estarão elas sózinhas numa casa aparentemente isolada?
Esta curta-metragem, ainda que embebida do espírito de The Purge, cedo se revela como uma obra apaixonada mas francamente deficitária comparativamente àquilo que a mesma poderia ter oferecido ao espectador. De uma câmara sempre em movimento que obriga o espectador a perder diversos pequenos grandes detalhes que poderiam contribuir para a sua dinâmica a uma captação de som ainda mais frágil que dificulta a compreensão não só do ambiente em que se encontram como principalmente de muitos dos diálogos tidos pelas duas jovens protagonistas, The Purge: Blood Ties permanece como aquele trabalho cinematográfico que um grupo de amigos resolveu criar num fim-de-semana eventualmente mais monótono.
Com uma escolha musical relativamente interessante e adequada para o género - iniciamos esta dinâmica ao som de My Way de Frank Sinatra -, The Purge: Blood Ties permanece o exemplo confirmado de um argumento relativamente juvenil que denuncia o realizador como um fã da saga mas ainda com pouco à vontade para construir uma história que se afirmasse mais elaborada ou consistente... afinal, se o espectador considerar que a dinâmica máxima desta história se prende com um caso sentimental não tão bem resolvido... compreende de imediato como tudo se explica por e através da já mencionada fragilidade ainda que de louvar a paixão como qualquer criador entrega a sua obra para um mundo sempre sedento da mais recente história de terror.
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1 / 10
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