segunda-feira, 17 de setembro de 2012

American Mary (2012)

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American Mary de Jen Soska e Sylvia Soska foi o filme da sessão de encerramento da edição deste ano do MOTELx e uma grande e refrescante surpresa.
Este filme conta-nos a história de Mary (Katharine Isabelle), uma brilhante estudante de medicina que tem o sonho de poder ser uma das maiores cirurgiãs do mundo. Aplicada mas distante, Mary executa os seus estudos nos frangos lá de casa, à medida que tenta ultrapassar e sobreviver às suas constantes e cada vez mais crescentes dificuldades económicas.
A única solução que parece ser viável no imediato para Mary é o striptease... Dinheiro fácil por um curto espaço de tempo durante algumas noites... pode ser que o futuro seja mais positivo. É durante uma "audição" com Billy (Antonio Cupo), o dono de um bar, que Mary se vê confrontada com uma oportunidade milagrosa, e supostamente ocasional que a irá tirar dos problemas que não param de surgir, através das operações ilegais aos quais muitos recorrem para transformar o seu corpo naquilo que consideram ser a "perfeição".
Mas nem tudo lhe iria correr bem quando alguns dos seus professores têm os seus próprios planos para a vida de Mary que iria sair bem mais marcada do que os seus "pacientes"...
Para a sessão de encerramento de um festival como o MOTELx não se poderia esperar um melhor filme. Sem ser absolutamente grotesco, pelo menos não à custa das operações que sabemos serem efectuadas neste filme sem que, no entanto, nenhuma delas seja totalmente explícita, este filme consegue ser macabro ao ponto de se retirar a inocência a alguém simplesmente porque existe o poder para o fazer. É esta essencialmente a linha de "evolução" pela qual a "Mary" de Katharine Isabelle atravessa.
E esta interpretação é fenomenal. A actriz mostra, inicialmente, um ar quase angelical. De uma simples estudante que tenta fazer a sua vida e sobreviver sem preocupar aqueles que a rodeiam, lançando-se num caminho que não sendo o mais aconselhável não deixa de ser digno mas que, de repente e devido a um acto maldoso se transforma numa mulher pronta para eliminar aqueles que se põem no seu caminho... e de forma grotesca. Se começa como anjo... termina como uma exterminadora e vingadora femme fatale que não se inibe de punir todos aqueles que lhe retiraram a sua dignidade. Se há filmes com alma, pelo menos os realmente bons têm sempre uma, Isabelle é sem qualquer margem para dúvidas, a deste filme. A sua interpretação não irá a nenhum Oscar visto que este não é tradicionalmente o tipo de filme que chega a esse patamar mas, no entanto, não deixa de ser uma com um potencial extremo que nos faz desejar que este filme possa ser muito mais longo do que aquilo que é.
Mas nem tudo é "mau". Se por um lado Mary ganha a sua vida a transformar a dos outros (literalmente falando), e se ela própria é alvo de uma radical mudança no seu comportamento, não deixa de ser verdade que esta história também vence por abordar a mais improvável história de amor que nunca se chega a cumprir entre Mary e Billy. Ele deseja-a e está disposto a tudo para a ter... Ela ama-o mas confirmar este amor seria abdicar da sua vida e do seu sustento que não trazem garantias de segurança para ninguém... nem mesmo para os seus abusadores que agora são as suas vítimas. Isabelle e Cupo formam o mais improvável par amoroso mas ao mesmo tempo um daqueles que nós queremos e esperamos que resulte pois percebemos que seria explosivo.
O argumento de Jen e Sylvia Soska só falha, se assim se poderá dizer, num aspecto. Para um filme de terror que tem todo o potencial para ser um pouco mais gore e bastante mais explícito, as imagens que temos a respeito das operações só são, na sua maioria, fruto da nossa própria imaginação. Temos pouco feedback sobre aquilo que é feito, até já ser uma confirmação, e a pouco assistimos no momento. Falha (?) ou será apenas uma forma de perceber quão distorcida pode ser a mente do próprio espectador ao imaginar o que "Mary" faz não só aos seus clientes como principalmente às suas vítimas?
Igualmente bem positivo está todo o trabalho que diz respeito à sua elaborada caracterização que não só dá a alguns dos seus actores impressionantes transformações físicas permitindo-nos questioná-las sobre até que ponto são ou não "simples" efeitos ou realmente condições físicas já adquiridas.
Este talvez não seja o filme mais forte de todo o festival, nem tão pouco um dos mais dotados de "terror" propriamente dito mas, no entanto, não deixa de ser um dos mais impressionantes filmes do festival e um dos que consegue não só impressionar pela sua condição real (relação dominação-dominado) que em tantas circunstâncias acontece de facto, como consegue fazer da sua actriz uma nova "vingadora" no cinema que não deixando a sua componente sensual consegue ser bem mortífera e impiedosa e também por um excelente e impressionante trabalho na transformação da mais aparentemente "normal" pessoa num frequentador de um qualquer submundo que muitos desconhecem. E tudo isto ao "som" de uma improvável história de amor que sem se cumprir na realidade não deixa de emanar uma química muito ardente do início até ao final.
E a todos os que tiverem oportunidade... Não o ignorem.
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8 / 10
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