domingo, 2 de agosto de 2015

Animal (2014)

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Animal de Carlos Aceituno - também o argumentista - é uma curta-metragem de ficção espanhola na qual o espectador assiste à viagem de dois delinquentes que viajam para o local do próximo "trabalho".
É durante esta viagem que atropelam um cão e enquanto discutem o seu extermínio que o mais velho (Tato Amador) mata o mais novo (Javier Hernández). Mas, será tudo assim tão simples quanto parece?
A genialidade da curta-metragem de Carlos Aceituno reside para lá de um conjunto de elementos técnicos que a compõem. Animal consegue em breves minutos expôr um argumento que desencadeia um conjunto de reviravoltas que o espectador não espera, desviando a atenção de tudo o que é importante até ao último instante.
Se inicialmente o espectador se concentra nos dilemas de dois vigaristas que, julgamos nós, se preparam para o golpe seguinte, não é menos verdade que após o atropelamento do inocente cão, os dilemas que encontram residem na sua humanidade e capacidade - ou falta dela - de porem termo a uma vida em sofrimento. Aos poucos, e sem pensarmos no que realmente estará a decorrer, o espectador apenas simpatiza - ou não - com os argumentos apresentados por cada um deles levando-nos a equacionar os poucos ou inesperados escrúpulos que aqueles dois homens apresentam. Até que ponto será mais importante o lucro ilícito ou a vida do melhor amigo do Homem que está a extinguir-se aos poucos diante dos seus olhos? E quem será de facto o mais poderoso? Aquele que apresenta valores morais ou o que tem a arma na mão?
Quando um deles é morto pelo outro - não revelarei qual - e o verdadeiro propósito da sua viagem é finalmente exposto, o espectador percebe então todo o esquema que está por detrás desta viagem bem como os propósitos de uma viagem que apresenta agora ser bem mais humana do que aquilo que tínhamos percebido até então. Como não existem inocentes mas também - pelo menos aqui - culpados absolutos, o espectador percebe finalmente que afinal aqueles dois homens poderiam não ser vilões a preparar o próximo golpe mas sim vítimas inesperadas de uma sociedade que os engoliu algures no tempo não lhes disponibilizando qualquer tipo de saída ou soluções para os seus problemas que não pareçam à vista desarmada como práticas de dois impiedosos criminosos.
Percebemos então que enquanto espectadores, e tal como a maioria, agimos de impulso e sem todas as informações olhando para "o outro" como um criminoso em potência e alguém que vive na margem da sociedade sem perceber que esta pode tê-los levado àquele beco sem saída. Nem tudo é o que parece e em Animal esta máxima aplica-se na perfeição.
Nem tudo é tão linear como aparenta e as interpretações de Tato Amador e Javier Hernández comprovam-me com mestria ao encarnarem a pele de dois vigaristas que rapidamente se revelam bem mais humanos e com propósitos nobres dos quais nenhum de nós suspeitaria e é apenas quando o misterioso cão e o conteúdo da bagageira se revelam que finalmente percebemos o quão enganados estávamos.
Paco Cuenca e a sua direcção de fotografia em Animal são, também eles, personagens silenciosos pois contribuem de forma exímia para o escalar de tensão e de um calor incomodativo que culmina com uma morte não anunciada e que comprovam que existe algo mais para lá daquilo que o espectador observa mostrando que nem tudo é como inicialmente nos é dado a conhecer...
No final de tudo perguntamo-nos... Qual será realmente o crime perfeito?!
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8 / 10
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