sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Umberto D. (1952)

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Umberto D. de Vittorio De Sica era para mim um filme completamente desconhecido até o ter visto perdido numa qualquer prateleira dessas superfícies comerciais. Duas coisas despertaram imediatamente o meu interesse... A primeira ter no cartaz o nome De Sica, um dos grandes mestres do cinema mundial. O outro, e o mais óbvio para quem já sabe dos meus interesses cinematográficos, foi o facto de ser um exemplar do cinema italiano, aquele que eu prefiro entre todos, não só pelo seu realismo como também pela sua imensa expressão dramática capaz de emocionar o mais insensível dos seres.
Este filme abre com uma manifestação de pensionistas numa Roma pós-guerra, onde as dificuldades económicas eram o dia-a-dia de toda a população. No meio desta manifestação encontramos Umberto Domenico Ferrari, Umberto D. que, como tantos outros reclama por um aumento na sua pensão como forma de poder (sobre)viver no meio de tantas dificuldades e dívidas.
Umberto, que vive num quarto alugado por uma senhoria tirana e que só quer ver a cor do dinheiro, tem a companhia do seu melhor amigo... o seu cão. Tem ainda a simpatia da empregada da casa que é a única pessoa que aparentemente se preocupa com ele.
Quer esteja bem, com ou sem dificuldades, com tristezas e alegrias, Umberto encontra-se essencialmente só. Só no mundo, e só para poder partilhar seja qual fôr o seu estado. Ele é essencialmente o retrato de uma população que viveu uma guerra e que agora tenta viver, e especialmente sobreviver, a todas as adversidades que então se apresentavam.
Umberto D. personifica a imagem da própria Itália. Doente, velha, pobre, endividada e explorada. A Itália saída derrotada de uma guerra que a consumiu e dividiu.
Carlo Battisti que aqui dá vida a Umberto D.,  tem uma francamente forte e poderosa interpretação, especialmente se considerarmos que este foi o único filme que fez como actor. O seu retrato como um homem de idade abandonado num mundo em transformação mas que não dá qualquer atenção àqueles que mais carência têm é, de longe, credível e muito bem interpretada, mesmo que ao longo do filme notemos algumas pequenas falhas que até nos passam ao lado.
Emocionante, se nos lembrarmos das sequências em que o seu cão ganha vida própria no filme e juntamente com Umberto D., interpreta alguns dos segmentos mais comoventes da história, e ao mesmo tempo deixamos uma réstia de esperança através do seu desconhecido final que nos consegue remeter para uma dimensão em que sonhamos, e esperamos, que afinal tudo lhe poderá ir correr bem... mesmo que pensemos que naquele momento ele está, como tantos outros, sem-abrigo.
Mais uma vez se confirma e prova que o cinema transalpino, através dos seus mestres e dos seus magníficos actores, nos entrega dos maiores testemunhos de sobrevivência... da realidade... de emoção e especialmente de esperança. Simplesmente imperdível.
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8 / 10
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