terça-feira, 15 de julho de 2014

The Wolf of Wall Street (2013)

.
O Lobo de Wall Street de Martin Scorsese é a mais recente longa-metragem do realizador de Taxi Driver (1976), Raging Bull (1980), Goodfellas (1990), Casino (1995) ou Gangs of New York (2002).
Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é um tipo na casa dos vinte's com desejos de dinheiro rápido e fácil. A trabalhar numa financeira que funda, Belfort vive uma vida de excessos e exuberância onde o sexo e a droga são sinónimo de poder e ascenção. Mas quando a sua firma e as suas acções começam a ser investigadas, Belfort termina na prisão a cumprir pena pelos seus actos ilícitos que vão desde a corrupção a detenção de informação privilegiada e desfalque.
A assinatura de Scorsese neste filme é francamente notória e podemos acompanhá-lo não só na forma como dirige os excessos dos quais as suas personagens - aqui reais - são acusadas como principalmente por colocá-los ao longo de todo o filme como uma espécie de narração da consciência que reflete sobre os acontecimentos passados e as suas próprias acções. No fundo, como um prenúncio explicativo de todo o desfecho que suspeitamos - ou já conhecemos - estar por chegar.
Numa viagem que podemos seguramente afirmar como sendo alucinante, o argumento de Terence Winter com base no livro do próprio Belfort entrega ao espectador uma experiência que praticamente se poderá ter como participativa e na primeira pessoa onde acompanha os meandros de um mundo que promete - e cumpre - a concretização do sonho americano mas que, ao mesmo tempo, também se entende como de excessos e loucuras que apenas o consumo de substâncias podem fazer ignorar. A corrupção ou a troca de favores, a capacidade de ludibriar e a promessa de dinheiro fácil são uma constante e ninguém como Scorsese conseguiria filmá-los de forma coerentemente sóbria possibilitando que o espectador acompanhe todos os momentos através de uma câmara sempre presente.
Enquanto acompanhamos estes excessos e de certa forma "validamos" o comportamento de "Belfort" que apenas se pode justificar como uma vontade extrema de enriquecer e sair de uma pobreza e insignificância que claramente o terá afectado ao longo da sua juventude - não que seja velho pois que tenhamos em mente que durante todo este período ele encontra-se com menos de trinta anos de idade -, não é menos verdade afirmar que percebemos e sentimos a espiral de decadência que o acompanha bem como àqueles que o rodeiam, todos sedentos de dinheiro rápido tido à custa de quão facilmente conseguem enganar aqueles que são ludibriados pela sua forma pouco convencional de lhes revelar um mundo onde tudo está ao alcance daqueles que sonham o "sonho americano".
Aqui o dinheiro é, tal como qualquer outra droga ou dependência, um vício que se entranha no corpo e quanto mais existe mais se quer estar na sua companhia. Tal como uma droga - legal ou não - o dinheiro e também o sexo tornam-se numa dependência que mutuamente se "alimentam" das suas existências. O primeiro existe por se conseguir ludibriar os demais e tanto droga como sexo chegam pelo poder que a existência de dólares conferem àqueles que os "ganham". The money keeps rolling in seria a expressão ideal para The Wolf of Wall Street que rapidamente se torna numa espiral de decadência e destruição de todos estes indivíduos que sedentos de serem alguém na vida e preferencialmente à custa de muito pouco trabalho, ascendem socialmente a um patamar que muito poucos conseguem e esbanjam-no - ao dinheiro - com a mesma facilidade com que o alcançam. O dinheiro é fácil de conquistar - ainda mais fácil de gastar - e uma vez gasto há sempre a hipótese de conseguir um pouco mais... e mais... e ainda mais. Tal como uma droga gera a dependência e a excitação do momento e do conseguir arranjar como se de uma dose se tratasse, leva-os a ter pouco respeito - no sentido de valor - pelo ganho, e voluntariamente colocá-lo a circular no mais profundo sinal de um qualquer novo riquismo que se apodera não só deles como das suas almas.
DiCaprio que já tem na sua carreira um conjunto de obras assinaláveis em colaboração com Scorsese - Gangs of New York (2002), The Aviator (2004), The Departed (2006) e Shutter Island (2010) - encontra em "Jordan Belfort" mais uma interpretação memorável e a sua segunda nomeação a Oscar de Melhor Actor às mãos de Scorsese depois de The Aviator. Intenso pelo seu carisma jovial que insiste em não desvanecer, DiCaprio consegue encantar pela agilidade com que interpreta a sua personagem - baseada claro em factos reais - e conferir uma dose de ironia à mesma apenas conseguida pelo De Niro noutros tempos também às ordens do realizador italo-americano. Surpreendentemente eficaz pela forma como se transforma num homem entregue aos caprichos do desejo e da rápida ascenção, DiCaprio está definitivamente afastado das personagens "infantis" que caracterizaram o seu início de carreira e impõe-se uma vez mais como um actor capaz de encanar as personagens sérias e dramáticas que lhe são confiadas. O Oscar escapou-lhe uma vez mais, é um facto, mas todos nós sabemos que estará para muito breve pois o reconhecimento enquanto actor de primeira linha já ninguém lho consegue retirar.
Não sendo um admirador confesso de Jonah Hill tenho, no entanto, de confessar e afirmar o meu aplauso pela sua interpretação como o algo irritante e por vezes absurdo "Donnie Azoff", amigo de "Belfort" e que com ele deu os primeiros passos na sua nova empresa bem como a Margot Robbie como "Naomi Lapaglia" a sua segunda mulher.
Um filme de interpretações como o são normalmente as obras de Martin Scorsese, The Wolf of Wall Street destaca-se, uma vez mais, como uma intensa - muito intensa - viagem ao submundo da alma e das ambições humanas, uma espiral à decadência e ao mundo dos excessos onde se perde mais do que aquilo que se consegue ganhar mas que. no entanto, demonstra uma extraordinária capacidade de se encontrar o mais profundo do "eu" e sair vencedor da mesma... ainda que possivelmente sem os mesmos bens materiais que estiveram anteriormente na "nossa" - deles - posse. E na realidade... poderia mais alguém dirigir uma história destas que não Scorsese?!
.

.
"Jordan Belfort: Let me tell you something. There's no nobility in poverty. I've been a poor man, and I've been a rich man. And I choose rich every fucking time."
.
9 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário