quinta-feira, 31 de julho de 2014

The Monuments Men (2014)

.
The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros de George Clooney é a mais recente longa-metragem do actor/realizador já premiado com dois Oscars e que aqui recupera uma parte da História recente da Europa e ainda muito pouco explorada ou conhecida.
Quando na Europa ocupada pela Alemanha Nazi se descobre que agentes hitlerianos se encontram a roubar todas as mais significativas obras de arte dos diversos museus e colecções privadas da Europa, Stokes (Clooney) reune um conjunto de profissionais das mais diversas áreas para lhe seguir o rumo e tentar resgatá-las.
Numa corrida contra o tempo que tem em vista não só a destruição destas obras às mãos dos nazis ou a sua apropriação por parte das tropas soviéticas, Stokes, Granger (Matt Damon), Campbell (Bill Murray), Garfield (John Goodman), Jean Claude (Jean Dujardin), Savitz (Bob Balaban) e Jeffries (Hugh Bonneville) rumam a uma Europa ainda ocupada e tentam encontrar os esconderijos alemães que albergam estas obras, tendo ainda a ajuda de Claire (Cate Blanchett) da Resistência Francesa que trabalhava sob a supervisão das forças alemãs em Paris.
Clooney e o seu habitual colaborador Grant Heslov adaptam a obra de Robert M. Edsel e Bret Witter sobre esta época negra e ainda pouco conhecida que nos remete para um extermínio cultural por parte da Alemanha nazi. Época esta que levanta inúmeras questões que passam desde o próprio roubo massivo de obras de arte dos mais diversos museus e igrejas pela Europa, assim como o despojamento forçado de bens daqueles que detinham colecções de arte e que viram os seus últimos dias nos mais diversos campos de concentração onde tudo, especialmente a sua dignidade, lhes fora retirado.
No entanto, este argumento com um potencial dramático imenso não só devido aos próprios acontecimentos como principalmente pela forma como eles se desenrolaram à custa das inúmeras vidas humanas que se perderam tem, no entanto, uma certa ligeireza que não permite que este filme seja a obra fundamental que poderia ter sido. Comecemos logo pelo princípio... a formação desta equipa de especialistas é aqui retratada de forma ligeira e pouco explorada quase como se de um grupo de amigos que vão tomar um copo se tratasse. Sabemos que todos eles partilham amizade com a personagem principal mas para além disso pouco sabemos dos seus passados que, aparentemente, não são brilhantes remetendo-os para uma qualquer "prateleira" social. Sentimos, com esta rápida apresentação, que estamos a assistir a uma continuação do Ocean's Eleven mas em menor escala.
Pouco sabemos das obras de arte... e com a excepção de dois exemplos também pouco sabemos dos locais de onde foram roubados. Mais grave é o facto de todas estas obras estarem documentadas graças ao esforço de "Claire" mas que, na prática, nada sabemos das vidas que estão por detrás das mesmas... dos seus proprietários e dos locais onde permaneceram provavelmente durante décadas antes dos nazis as cobiçarem violentamente. Desta forma, e ainda que o filme mantenha um ritmo interessante que cative a atenção do espectador, não é menos verdade que todos esperávamos algo mais "real" deste filme e das diferentes histórias que o poderiam ter composto. No fundo, limitamo-nos a assistir a um conjunto de factos reais pois estamos perante uma história verídica mas, no entanto, não encontramos a componente humana da mesma tornando-se na sua generalidade um filme impessoal.
Mas nem tudo é desprovido do tal "sentimento". Existe alguma tensão e componente épica em The Monuments Men (como não poderia existir?), principalmente se nos lembrarmos de como chega este grupo de amigos à Europa... é nas praias da Normandia que em Julho de 1944 começam o seu percurso pelo desconhecido à procura das obras de arte desaparecidas e apesar de não irmos encontrar nenhuma batalha não deixamos de sentir toda a sua carga naquele local onde milhares de homens encontraram a morte um mês antes do momento que agora presenciamos.
Existe também alguma componente dramática, menos tensa, em momentos como a fuga dos alemães de Paris e no confronto verbal entre "Claire" e o seu superior alemão, e principalmente alguma tragédia quando este tenta escapar a dois dos elementos do grupo afirmamdo-se como um simples conhecedor de arte com obras milionárias expostas na sua sala. No entanto, se nos concentramos na generalidade deste filme, a tensão dramática começa e termina com estes exemplos práticos limitando-se tudo o demais a parecer uma corrida contra o tempo onde ou se perdem as obras às mãos dos nazis ou às mãos dos soviéticos que procuram a sua justa compensação pelas perdas humanas que tiveram no seu território.
Da mesma falta de desenvolvimento vivem as personagens deste filme. Nenhuma delas tem o justo e merecido desenvolvimento sobre o seu passado, o que os move ou sobre as condições em que cada um se encontrou até decidir agir conforme aquilo que aparentemente a sua consciência ditou. Perguntamo-nos... todos estão lá mas... porquê?! E se esta questão em alguns deles seria quase como indiferente ou teria os seus pontos em comum à resposta dada por tantos outros, não é menos verdade que nos questionamos sobre as motivações de "Granger", de "Claire" ou de "Stokes". É certo que poderemos encontrar uma resposta parcial na observação que "Stokes" dá a certa altura sobre a defesa do património cultural de toda uma geração que assims e vê preservada mas, ao mesmo tempo, o indivíduo não defende só a ideia do passado. Sim, essa ideia está presente e é deveras importante mas, não o será também a ideia da auto-preservação e dos elementos que lhe conferiram personalidade, individualidade e conhecimento um factor determinante para esta busca? É que se são realmente elementos importantes, não é menos verdade que muito parcamente os conseguimos encontrar por lá.
No fundo aquilo sobre o qual nos questionamos ao longo de The Monuments Men é simples... a certa altura o que fez com que estes homens e mulher decidissem correr contra a maré e lutar por todo um património histórico e cultural? O que os fez levantar e dizer não? Quais as suas motivações? Os seus desejos? As suas ambições sobre os seus actos? Onde estão todos aqueles pequenos grandes detalhes que humanizam a personagem e a fazem criar uma identificação com o espectador?
Estas que são, para mim, algumas pequenas falhas na narrativa e na história de The Monuments Men não são, no entanto, factores eliminatórias da sua importância. Enquanto uma nova abordagem de filme documental onde pouco se centra a atenção sobre o "Homem" mas sim sobre os factos, temos um funcionamento quase perfeito que nos leva por uma viagem ao interior de uma Europa sem alma e devastada que é brilhantemente enriquecida pela música original de Alexandre Desplat (também ele com uma pequena participação enquanto actor) e pela fotografia de Phedon Papamichael que remete a noite para uma escuridão fora do comum, fruto dos dias negros que o continente existia, enquanto enaltece a luz de dias perdidos onde todos pretendem encontrar um rumo certo para os seus dias agora inenarráveis.
Aquilo que falta a este filme e que aqui tentei expôr seria facilmente compensado com mais uma hora de duração onde todos estes elementos conseguissem ter espaço próprio e um maior desenvolvimento. Alguma maior cor e brilho próprio que não se conseguem conquistar individualmente e mesmo em pares (tal como se desenrola a maior parte da narrativa) fica muito àquem do potencial que História e personagens têm para dar.
Assim, The Monuments Men consegue funcionar como um dos poucos (muito poucos) filmes que exploram a temática do património roubado pelos nazis durante os anos do domínio sobre a Europa mas, no fundo, todos sabemos que história a história... peça a peça... todos os sub-momentos que aqui não são contados poderiam dar o seu próprio filme e enredo rico em trágicos acontecimentos. Afinal não nos podemos esquecer que por detrás de cada peça de arte ou de cada barra de ouro se encontra uma história pessoal repleta de sofrimento e dor aqui não contada.
.
.
"Frank Stokes: You can wipe out an entire generation, you can burn their homes to the ground and somehow they'll still find their way back. But if you destroy their history, you destroy their achievements and it's as if they never existed."
.
7 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário