quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pena Fria (2014)

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Pena Fria de Luís Costa é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o mais recente filme deste jovem realizador que nos deu o brilhante documentário Fontelonga, premiado aqui no CinEuphoria como um dos melhores filmes nacionais do passado ano.
Um homem (Valdemar Santos) regressa a uma aldeia do interior de Portugal para uma visita à sua família. À saída do comboio espera-o apenas o seu tio (Eloy Monteiro) que o levará para junto da sua restante família. Os motivos desta sua visita são desconhecidos mas, no entanto, percebemos que não se trata de nenhum festejo e que os silêncios o acompanham de forma devastadora. Procurará este homem uma pacificação com o seu próprio passado?
O argumento da autoria de Luís Costa e de Francisco Gomes leva o espectador e concentrar-se não só na viagem deste homem mas, ao mesmo tempo, também nos silêncios que o rodeiam. Silêncios estes que para além de conferirem algum mistério à própria personagem encarnada por um sempre magnífico Valdemar Santos conseguem estabelecer uma ligação indissociável ao espaço no qual somos inseridos enquanto espectadores. Tudo à volta da narrativa principal está embebido na mais profunda solidão e isolamento.
Enquanto a sua viagem é feita nessa solidão, levando a que o espectador deduza que aquele homem se encontra sózinho no mundo sem aparentes ligações com aqueles com quem possa ter de conviver involuntariamente, não é menos verdade que acompanhamos cenários que percebemos estarem já abandonados há muito tempo e que agora apenas poderão ser habitados por fantasmas e memórias de um passado que se perdeu.
Existe, aliás, uma inegável comparação entre Homem e espaço. A desertificação do espaço, e de certa forma do próprio Homem que o habitou, é uma constante não só em Pena Fria como também no já referido Fontelonga. São, arrisco dizer, um constante sinónimo; enquanto o espaço físico desertificou deixando ao abandono todas as estruturas que o compunham, este homem (Santos) vive a mesma solidão mas no campo social: não lhe conhecemos família para além daquele tio que o espera, não sabemos se constituiu a sua própria família para além daquela que lhe é primária e a sua viagem àquele espaço que fora seu é agonizante por despertar nele (e de certa forma em nós próprios) uma nostalgia sem comparação sobre os locais onde crescemos e onde nos "formámos" enquanto indivíduos.
Todos estes momentos de solidão acompanhados de um silêncio cortante. Um silêncio que "fala" para além das imagens e que nos revelam que tanto o espaço como o próprio homem aos poucos desaparecem sendo apenas uma memória escondida naqueles que os conheceram e que, a seu tempo, serão também eles esquecidos com o desaparecimento das poucas "testemunhas" que poderiam comprovar a sua existência. Questionamo-nos então sobre aquilo que realmente resta para além da memória e qual o seu real valor enquanto parte integrante de um património... o histórico, relativamente aos locais e à existência comunitária e o genético/familiar no que diz respeito à perpetuação de uma família que parece ter estagnado.
É neste regresso à sua aldeia que este homem revela todo o seu distanciamento, que não sabemos a que se deve ou se foi provocado ou auto-imposto, e percebemos o quão perturbador conseguem ser aqueles espaços onde cresceu, que habitou e que ele próprio também abandonou. Este espaço já não parece o seu... Não só pelo seu afastamento que percebemos ter sido de vários anos como por aquilo que encontra quando regressa... As ruínas e os sinais de abandono da casa dos seus pais, o esvaziamento de bens que outrora enchiam a casa e a própria inexistência de pessoas que dessem o calor àquele que havia sido o seu lar são agora sinais de que algo passou por aquele local mas que dele se esqueceu mais rapidamente do que o tempo que levou a construí-lo.
"Diz-se que uma casa vazia não se sente natural... sente-se a enlouquecer"... foi dito em tempos e este pensamento não poderia corresponder a uma maior verdade. Não leva o abandono à própria loucura?! Não está uma casa, um lar, povoado de recordações, memórias, momentos, situações e lembranças de pessoas e acontecimentos que lhe deram o tal "estatuto" de sede de uma família... o lar? O porto de abrigo a quem todos recorrem quando se sentem em dificuldades ou com problemas? O que acontece quando tudo desaparece com o passar o tempo? Para onde migram todas essas recordações e momentos?
Os silêncios não terminam e tornam-se quase agonizantes dentro do palheiro aonde aquele homem se dirige e onde recorda algo que o faz transformar-se e talvez pela primeira vez reagir perante semelhante cenário. Todo aquele ambiente desolador e abandonado acabam por revelar ter um impacto e provocarem-lhe revolta que dão origem a comportamentos e impulsos de cariz mais violento como uma consequência das exaltação das memórias que lhe são então presentes mas, ao mesmo tempo, percebemos pela sua atitude que alguma réstia de vida poderá ter voltado àquele local onde o lume será, uma vez mais, ateado.
O espectador que deveria então concentrar-se nessa mesma solidão e nos seus efeitos depara-se com a sua presença que, ironicamente, se transforma numa inesperada "companheira" durante toda a narrativa como se de uma personagem se tratasse.
Luís Costa, que como referi é o realizador do brilhante Fontelonga, retoma a questão da desertificação e da solidão nesta fantástica curta-metragem que é Pena Fria numa transição muito bem delineada do documentário para a ficção e que claramente o colocam como um dos nomes de uma nova e muito forte geração de brilhantes realizadores que deveremos ter em atenção para o futuro e que, espero, seja sempre próximo na entrega de novas obras com o forte calibre que estas duas referências já o são. Se no caso do referido Fontelonga ainda nos é permitido encarar a memória de forma tragicómica, em Pena Fria somos levados a encarar a rudeza de um passado que não foi encerrado despertando desta forma todos os velhos fantasmas que se pensavam encerrados.
Ainda um destaque pela positiva para uma melancólica e muito bem enquadrada música original da autoria de Danny Norbury que nos remete para uma cada vez mais intensa sensação de solidão completando todos os pequenos grandes momentos que as imagens nos transmitem, assim como para a extraordinária interpretação de Valdemar Santos que ocupa normalmente o lugar de "secundário determinante" (note-se que de secundária nada têm as suas composições artísticas) nos filmes em que participa mas que em Pena Fria tem o seu merecido protagonismo com uma interpretação que nada tem de contida e é sim doseada de uma intensidade desarmante que mostram todo o seu potencial interpretativo (sim, é até ao momento uma das melhores interpretações do ano).
De Pena Fria apenas resta dizer, se já não o é óbvio, que é sem qualquer reserva, um dos filmes maiores deste ano.
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9 / 10
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