sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sintoma de Ausência (2015)

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Sintoma de Ausência de Carlos Melim é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos conta um momento na vida de Isabel (Mia Tomé) que após uma indisposição resolve comprar um teste de gravidez.
Num momento em que a relação com o seu namorado parece ter terminado e onde depende apenas da amizade de Rita (Filipa Areosa), Isabel parece encontrar-se completamente sózinha no mundo.
É graças ao argumento de Nelson P. Ferreira e Vítor Bruno Pereira que, uma vez mais, temos uma interessante abordagem ao "eu" na obra de Carlos Melim. Depois de De Mim... (2013) e de Remissão Completa (2014), Sintoma de Ausência é mais uma reflexão sobre o lugar do "eu" num mundo que parece andar mais depressa do que aquilo que qualquer um de nós consegue acompanhar.
No entanto esta não é uma simples reflexão sobre esse lugar do "eu" mas sim a sua posição após uma percepção de que para lá de todos aqueles que nos rodeiam estamos, essencialmente, solitários. É esta solidão que então define a essência de cada um e se em De Mim... esta era definida pela chegada a um espaço novo longe de tudo aquilo que contribuiu para a formação de cada um enquanto indivíduo - neste caso a experiência do próprio realizador - e se em Remissão Completa essa mesma essência era definida aquando da confrontação com a própria morte em Sintoma de Ausência esta é definida pelo potencial surgimento de uma vida nova e de todas as responsabilidades que lhe estão inerentes.
Como abraçar então uma nova vida quando todo o mundo parece fugir-lhe entre os dedos? O que fazer quando essa mesma vida pode ser acompanhada na solidão, sem apoio, sem o conforto de um pai que é assumidamente ausente e desinteressado - na eventual futura mãe - e cuja vida depende apenas, e essencialmente, da mãe que mais não é do que uma jovem. É esta ausência - de uma relação, de um pai, de uma família, de amigos, de elos, de intimidade, e eventualmente até de uma criança - com que "Isabel" tem de aprender e saber lidar.
"Isabel" é no fundo uma jovem perdida. Não existem grandes amizades - só lhe conhecemos uma - e ao longo desta curta-metragem o espectador entende que a sua existência em Lisboa dependia única e exclusivamente de uma relação afectiva que agora termina e da qual não sabe se "ficou" algo. A sua repentina indisposição levanta a suspeita de uma gravidez que nem ela sabe se deseja e quer mas que pode ser o veículo para a manutenção da relação que parece ter terminado. Será este o motivo correcto para que esta potencial gravidez funcione? O verdadeiro medo chega quando "Isabel" não sabe se a sua vida tem mais significado para lá daquele que teve com o seu namorado e por tal procura-o de todas as maneiras... segue-o na rua - ou o que julga ser ele - remetendo toda a demais existência para aquele pequeno apartamento em que habita e onde se anula na escuridão de uma casa que de lar pouco tem.
Mas no final mantém-se a questão... Quem somos nós realmente? Sabemos que nascemos e morremos sózinhos mas, em todo o período em que por "cá" andamos, seremos apenas uma dependência de alguém ou um indivíduo que tem de se conhecer antes de saber quem é o "outro"? Estará "Isabel" capaz de perpetuar a sua vida - com uma outra vida - não sabendo quem ela própria é?
Para todas as vidas existe uma encruzilhada, ou seja, aquele exacto momento em que nada parece fazer sentido mesmo que aparentem existir algumas boas ou interessantes soluções. Esta encruzilhada é, para "Isabel", aquele exacto momento em que a sua gravidez é incerta, em que um potencial stress emocional parece tê-la privado do seu ciclo biológico natural mas que, ao mesmo tempo, pode também ser um sinal que confirme o seu período de gestação. Este é o momento da sua escolha... das escolhas... O momento em que parada à porta do hospital percebe que tem de conhecer a sua condição e saber que rumo lhe dar.
Mia Tomé entrega um especial e interessante espaço psicológico à sua "Isabel" fazendo-a oscilar entre a rapariga pós-adolescente que vê toda a sua vida a avançar rápido demais considerando a sua própria preparação e a jovem mulher decidida a cumprir os seus desejos junto de alguém que aparentemente pouca importância lhe confere. No entanto, é no meio deste dilema que melhor consegue evidenciar aquilo que de certa forma melhor a caracteriza... a sua solidão - sempre realçada por uma direcção de fotografia preocupada em captar os espaços "negros" que se acentuam ao longo da curta-metragem conferindo-lhe assim a constante presença do "nada". Numa cidade rodeada de gente a sua personagem é solitária, desamparada e entregue apenas aos ocasionais momentos em que partilha desabafos com aquela que é a sua única amiga. Não lhe conhecemos nem família, nem qualquer tipo de trabalho, nem relação... nada. "Isabel" é uma jovem mulher que se desaparecesse do mapa ninguém conseguiria alguma vez perceber que ela tinha sequer existido. Perdida na limitação da sua personagem, Mia Tomé transforma a sua "Isabel" num ser igual a tantos de nós que por vezes se questionam se alguém se irá lembrar do "eu".
Sintoma de Ausência fica, para o espectador, como o filme sem o - um - desfecho conclusivo... Existirá uma criança? Existirá uma interrupção de gravidez? Existirá uma "Isabel" depois deste momento aparentemente decisivo? Esta existirá, mas certamente será alguém muito diferente depois de saber o que realmente espera.
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8 / 10
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