quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Ras del Cielo (2013)

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Rasgar o Céu de Horacio Alcalá é um documentário em formato de longa-metragem luso-espanhol que encontra finalmente a sua estreia comercial este mês em Portugal.
Neste documentário acompanhamos alunos de algumas das mais importantes escolas de circo mundiais - Cirque du Soleil incluída - que revelam ao espectador a sua paixão pela arte circense bem como a coragem, dedicação, determinação e muita disciplina que exige a fim de alcançar o máximo de perfeição para a sua execução.
Num relato que ultrapassa fronteiras e nacionalidades, o espectador observa todo o resultados de anos de treino intensivo destes artistas que graças às suas acrobacias e números preparados rasgam o ar e por momentos parece que tocam no céu.
Várias são as histórias pessoas e relatos que A Ras del Cielo nos apresentam mas todas elas suportam uma ideia que é desde o primeiro minuto apresentada... estas pessoas vindas dos mais diversos lugares do planeta poderiam ter uma qualquer profissão de segunda a sexta-feira que lhes garantiria todas as mordomias que esperam da vida mas conseguiriam essa outra pessoa que seriam dizer que realmente gostam do que fazem?
Num ambiente que era fechado a qualquer forasteiro e que apenas passava de geração em geração como o é o circense, A Ras del Cielo acompanha as histórias de Jonathan, de Bruxelas, que coreografa a sua dança e ginástica com arco metálico, Fadi proveniente da Palestina que em Itália exerce a sua coreografia ao escalar postes em zonas públicas e cujo sonho é voltar à sua terra onde poderá através da arte e da dança ensinar as crianças de meios mais desfavorecidos vítimas de abusos ou com dificuldades físicas, de Marie e Philippe do Canadá com malabarismo e equilibrismo nas ruas das cidades, de Saar que vinda da Holanda acaba por fazer um espectáculo de dança em suspensão em Lisboa, ainda de Antonio que depois de ter caído do trapézio durante um ensaio geral enfrentou uma longa terapia de recuperação podendo - na altura - ter ficado paralisado e obrigando-o assim a toda uma nova perspectiva da sua vida onde apenas havia estado num circo, de Damian Istria de São Paulo que aos 31 anos de idade encara o final da sua carreira circense tendo agora já casado e com filhos de encarar uma nova profissão - talvez de fato e gravata - ou ainda de Bahoz and the Wolfpack, um grupo de ginastas com as mais elaboradas coreografias nos quais Bahoz se destaca ainda pela musicalidade de alguns dos temas escritos e compostos pelo pai.
As histórias e as origens são as mais variadas, e para lá das diferentes experiências e percursos de cada um, aquilo que poderia separar todos estes artistas seriam à partida as suas diferenças culturais. No entanto, A Ras del Cielo propõe ao espectador um olhar diferente sobre as mesmas compondo uma ilustrada palete de conhecimentos e uma variedade cultural que nos faz olhar o "outro" como mais um de entre o "nós". A liberdade com que todos estes artistas se expõe e à sua arte, a forma como viajam pelo mundo e a quantidade de pessoas das mais diferentes proveniências que conseguem conhecer - sem, no entanto, estabelecerem grandes laços afectivos como algures é referido - permitem-nos (a eles e a nós) verificar que por mais diferentes que todos sejamos existem sempre um igualmente forte conjunto de elementos que nos ligam... sejam as paragens que nos são familiares, alguns costumes com os quais nos identificamos ou até mesmo a universalidade da língua que transmite toda uma mensagem de comunhão que nos aproximam destas histórias - as suas mas também nossas - e que fazem pairar ao longo de todo o documentário uma sensação de liberdade sem esquecer que todos pretendem pertencer a algum lugar. Esta liberdade não é eterna - no sentido de desligada de raízes - mas sim uma sentida pela capacidade de poder e querer fazer aquilo de que se gosta e não simplesmente algo que confere a mais imediata contrapartida financeira mas que (n)os prende a uma qualquer escravidão psicológica. Essa liberdade que os permite exporem uma arte mas, ao mesmo tempo, dela retirar um prazer absoluto de entrega e dedicação.
A Ras del Cielo é também um sentido hino à liberdade no medida em que está inerente ao seu próprio princípio, o fim das fronteiras culturais pois aqui assistimos a um verdadeiro intercâmbio de nacionalidades, culturas, hábitos e costumes que são obrigatoriamente partilhados por todos. Num circo não existem apenas artistas oriundos de um local ou país mas sim de todo o mundo sendo "obrigados" a conviver no mesmo espaço durante largos meses e, como tal, partilhar e dividir experiências que acabam por se tornar comuns a todos.
Como uma direcção de fotografia de David Palacios que capta todo um brilho de palco e dos locais por onde passam que confere a A Ras del Cielo momentos verdadeiramente melancólicos, e ainda uma brilhante banda sonora na qual figuram temas como "Two Men in Love" de Jamie McDermott dos The Irrepressibles ou temas cantadas por Bahoz Temaout como "Wicked Game", este é um documentário sobre a liberdade mas que consegue emanar uma sentida melancolia e admiração por aqueles que cedo perceberam que o seu lugar estava muito para lá dos sítios onde nasceram... Aqueles que descobriram que o mundo era o seu lugar, que nele criaram raízes mentais que os ligam a vários portos e a nenhum em especifico transformando-se em cidadãos não de um país mas sim de um mundo que tem muito mais a uni-lo do que a dividi-lo.
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8 / 10
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