segunda-feira, 11 de julho de 2016

Balada de um Batráquio (2016)

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Balada de um Batráquio de Leonor Teles é um documentário em formato de curta-metragem português e a mais recente vencedora do Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim na respectiva categoria.
Tudo começa com uma lenda de um mundo distante em que Homens, Animais e Plantas conviviam numa perfeita harmonia... mas com a ausência do sapo... um animal feio e indesejado. Sapo esse que, no mundo real e em que hoje vivemos, é usado nas montras ou entrada de certos estabelecimentos como forma de neles impedir pessoas de etnia cigana.
Através de um registo pessoal no qual recorre a gravações em Super 8 que o espectador deduz - e confirma perto do final - pertencerem ao seu historial, Leonor Teles cria com Balada de um Batráquio uma interessante e mordaz alegoria sobre uma sociedade em que alguns seres humanos se aproveitam de uma superstição e de uma crença antiga (ou talvez não tão antiga quanto isso) como forma de excluir outros seres humanos do seu espaço.
Dividido em dois segmentos distintos, Balada de um Batráquio apresenta num primeiro momento - com o recurso sempre presente de imagens familiares e pessoais da realizadora - a reflexão sob a imagem de uma lenda. Uma lenda de um mundo pseudo idílico onde todos viviam numa aparente harmonia desde que no mesmo não estivesse presente aquele que todos consideravam um animal "medonho"... o sapo.
Como que um passado da presente actualidade e, no fundo, a queda da Torre de Babel onde flores, animais e homens deixaram de comunicar e viver numa intensa harmonia (que não o era pela ostracização do sapo), Balada de um Batráquio apresenta o seu segundo momento recorrendo a imagens desta actualidade onde a realizadora - activa personagem da sua própria história - surge como uma justiceira que elimina os objectos de uma ostracização que perdura (in)conscientemente na sociedade e que impede pela tal superstição a livre movimentação de todos.
Por (in)consciente refiro que para a maioria das pessoas é distante a ideia de que existe esta descriminação para com uma parte da população graças à exibição de um "sapo de loiça". Objecto este que veda a entrada de pessoas de etnia cigana nos mais diversos estabelecimentos mas que, todos nós, já vimos expostos na entrada dos mesmos sem questionar o seu porquê. Assim, num gesto de rebeldia que pretende não só quebrar barreiras como também afirmar a existência de um acto discriminatório - inconsciente ou não - por parte de quem expõe estes objectos, Leonor Teles cria um pequeno mas mordaz documentário que acerta no ponto certo expondo uma discriminação silenciosa, bem como a passividade com que todos observamos algo sem questionar os seus propósitos e principalmente afirma-se pela e com a extrema vontade não só de quebrar esta exclusão como também de alertar aqueles que a desconhecem.
Tal como o sapo que se faz explodir na lenda contada no primeiro segmento e que cria, dessa forma, toda a diversidade existente no mundo que "hoje" conhecemos, Leonor Teles quebra todos aqueles de loiça que "propagam" uma silenciosa discriminação numa sociedade que se quer plural, diversa e multicultural.
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8 / 10
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