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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

9 1/2 (2022)

9 1/2 de Marta Llorente (Espanha) recupere a ideia da memória e do legado para uma história curta que se assume com um fundo de contornos familiares que reflectem sobre a perda e, em boa medida, sobre uma "passagem de testemunho" sentida mas não anunciada de geração em geração.
Tendo por base o ideal da construção cinematográfica é a dimensão que o cinema assume enquanto legado que aqui se tenta filmar. Sobretudo um legado que é principalmente uma forma de viver que se assume (ou assumiu) na vida de uma família como o inesperado elo de ligação entre três distintas gerações. A criação, a memória e a arte fundem-se no registo destas três gerações que, no entanto, se deixam perder entregando ao ideal (de cinema) e ao registo de luzes e sombras o papel de personagens principais esquecendo, quase no seu todo, o peso impactante que essa mesma arte teve na formação dos indivíduos ou até no registo da passagem do tempo enquanto acção "construtora" de avô, mãe e neto ou nas potenciais relações que criariam entre si.
O cinema, a família, a memória e o legado estão, de facto, lá. Presentes na intenção... na declaração de interesses não verbalizada pretendida aquando da estruturação deste filme curto que, no entanto, se deixou levar pelas intenções e não pela concretização das mesmas. Ficou não o sonho mas o "plano" abstracto que para a sua forma se construiu não deixando que ele tivesse de facto liberdade de imaginação.
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3 / 10
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5:15 (2022)

5:15 de Miguel Alcalde de la Fuente (Espanha) é uma curta-metragem que recupera elementos tradicionais do género do terror urbano colocando uma mulher numa situação problemática e ambígua sem que, no entanto, identifique o que está para lá daquilo que não consegue observar.
Laura regressa a casa. Numa noite escura onde enfrenta o caminho de forma solitária, são os pequenos recantos que a assustam. É quando já se encontra no seu prédio que, no entanto, chega o seu verdadeiro susto... Ao avariar o elevador em que ela segue, uma misteriosa figura masculina que não identifica com clareza oferece-lhe ajuda. Encontra-se Laura perante um inesperado salvador ou enfrenta a maior provação da sua vida ao recusar uma ajuda que poderá ser indesejada?
Aquilo que a curta-metragem de de la Fuente melhor não é necessariamente a originalidade do seu argumento pos qualquer um de nós mais atento poderá recordar uma ou duas obras em que esta temática específica já havia sido abordada mas, por sua vez, a forma como este género é recuperado e filmado com a classe de uma digna obra do género que recuperando todos os seus elementos tradicionais não esbarra no vulgar dando a cada uma destas personagens a esperada dimensão que permita ao espectador compreender que está perante um vilão e uma vítima da "velha guarda" não sem antes deixar presente a dúvida que... tudo poderá estar equivocado.
Encontramos de facto o vilão por detrás da porta? Será este realmente um vilão ou alguém certo no momento certo? Estará a vítima dentro daquela cabine? Existirá na verdade alguma vítima? Todas estas questões povoam a mente do espectador que, de forma inadvertida, altera o seu estado de mente perante as personagens - pelo menos perante uma delas -, lançando a suspeita sobre o "predador" - será? - que tão convenientemente se encontrava no local em que era necessário e que, rapidamente, poderá também ser visto como um bom samaritano - será? - prestes a ajudar a vizinha indefesa. Num mundo em que os perigos da urbe surgem mascarados com diversos disfarces, em que se pode realmente acreditar - ou a quem se pode realmente recorrer - quando a necessidade de auxílio surge num momento em que se está totalmente exposto, indefeso e vulnerável? Poderá existir auxílio depois daquela "porta" ser aberta?
E depois do espectador pensar sobre o que poderá estar a ser desenvolvido numa conversa sem aparente solução entre duas pessoas que, na realidade, não se conhecem e entre as quais não existe qualquer tipo de confiança ou de vontade em prestar e receber auxílio, surge ainda uma questão que se prende com a percepção de que o perigo - seja ele qual for - pode não terminar com o término daquele demorado  e inconveniente instante.
Tenso e perspicaz... actual e envolvente... 5:15 reflecte sobre todos aqueles instantes que podem ser decisivos na vida de qualquer um de nós... Esse "nós" que nem sempre dá ouvidos à chamada "voz da consciência" que tão subtilmente nos avisa daquilo que poderá estar para lá do que é perceptível.
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7 / 10
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

2º Dto. (2020)

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2º Dto. de Hernâni Duarte Maria e Pedro Noel da Luz (Portugal) é a única curta-metragem portuguesa presente nesta edição do Trapped Film Festival e que revela a história de Vera e o seu regresso à sua antiga casa onde para lá dos seus pesadelos também alguém a espera.
De imediato é compreendido pelo espectador que esta casa, aparentemente abandonada, é o refúgio de algo desconhecido. Observamos objectos dispersos e uma desarrumação que apenas uma casa com uma "alma" própria poderia revelar ou será que não estamos perante uma "casa" qualquer. À medida que conhecemos o espaço em que se encontram as nossas personagens, reparamos também em pequenos detalhes que a casa esconde. De sombras que ocultam parte do cenário a uma aparente ausência de reentrâncias que permitam a luz exterior e que, em boa medida, condicionam a compreensão do espaço num todo.
Lentamente encontramos brinquedos e breves espaços que parecem fazer despertar a memória de um passado mais ou menos presente. As sombras desvanecem e confirmam-se enquanto a viagem pela casa prossegue. Proferem-se nomes que o espectador apenas pode confirmar com as suas próprias suspeitas sobre quem serão não tendo, para além das mesmas, qualquer outro indício significativo que o possa esclarecer sobre estas identidades... quando ali terão estado ou, por outro lado, que papel terão desempenhado nas memórias daquelas que, agora, os chamam e recordam. Assim, e numa casa que parece enclausurar todas as memórias de um passado que aquelas almas insistem ou não podem reconhecer, persistem os ecos da memória e de um passado vivido e deixado numa distância que apenas faculta uma miragem e não uma confirmação. Os anos passam - passaram - e disso temos uma confirmação pelos parcos diálogos que nos chegam das intervenções das duas personagens e, com eles, todo um latente esquecimento que se compreendem por um comportamento que as leva a vaguear por aquele espaço que não só parece diminuto como, ao mesmo tempo, um próprio resquício de uma memória pouco clara que o tempo ainda não apagou.
Visualmente cativante através de uma direcção de fotografia de Pedro Noel da Luz que recupera o melhor de um terror retro que coloca os espectador nos meandros de corredores que dificilmente se compreendem como aqueles de uma casa ou de uma mente. Este 2º Dto. permite assim diversas leituras sobre os meandros deste "apartamento" que esconde mais do que revela e que oferece, dessa forma, a possibilidade do espectador olhar para o mesmo como uma história dita "real" onde acontece de facto esta realidade a estas personagens ainda existentes no universo dos vivos como, ao mesmo tempo, permite a leitura de estes mesmos já não pertencerem a "este reino", e que mais não são agora do que meros fantasmas em busca de um significado para o local em que se encontram e no mesmo reter um sentido para uma existência que está basicamente num limbo entre dois espaços.
Não conseguindo necessariamente criar terror através das interpretações - que não deixam de ser de qualidade -, mas sim pelos actos que o argumento assim lhe permite, 2º Dto., poderia abrir a porta - ironia à parte - para uma obra mais alongada e onde se explorem estas dúvidas existenciais - nossas face às personagens - transformando-se dessa forma num interessante conto que oscilaria entre o terror psicológico ou, talvez, aquele tido num mundo "mais além" e, possivelmente, criando mais questões do que aquelas que já agora nos deixou.

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7 / 10

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quarta-feira, 3 de julho de 2019

2 Lava 2 Lantula! (2016)

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Lavalantula 2 de Nick Simon (EUA) é a sequela de Lavalantula (2015), de Mike Mendez e onde o actor Seteve Guttenberg recupera, pela terceira vez, o seu infame Colton West depois de também ter participado na saga Sharknado (o quarto), na perpetuação de uma personagem que apenas se pode inserir na galeria daquelas... "a não fazer".
Depois de Lavalantula, Colton West (Guttenberg) é um actor com um ego grande demais para assumir uma carreira que bateu no fundo. Em gravações na soalheira Florida, o seu passado volta a encontrá-lo e um conjunto de tremores de terra fazem ressurgir as temidas lavalantulas ressugir e dizimar uma população desatenta. Numa esperança de salvar a enteada e toda a população da Florida e dos Estados Unidos, Colton prepara-se para uma viagem pelas agora inóspitas terras do Estado e conseguir assim eliminar os temidos predadores que espreitam em todas as esquinas... Até que encontra a fonte de todos os problemas.
O que dizer desta sequela para lá daquilo que se torna óbvio quando se lê a sinopse da mesma?! Neil Elman e Ashley O'Neil escrevem este argumento que não só se assume um disparate destes os instantes iniciais como é, sobretudo, uma paródia a todo um conjunto de actores que o espectador compreende ter estado - está! - adormecido no temo e no espaço há algumas décadas. Aqui os cameos são assustadoramente presentes na medida em que se recuperam todo um conjunto de actores outrora conhecidos e que na já ida década de '80 fizeram parte de alguns dos maiores sucessos cinematográficos junto do público... do já referido protagonista Guttenberg a Michael Winslow e Marion Ramsey eternos rostos da saga Police Academy (1984), de Hugh Wilson passando por Martin Kove, de Karate Kid (1984) ou Tahnee Welch e Tyrone Power Jr., de Cocoon (1985), factor que podia aliciar um público dessas mesmas obras a lembrar esses momentos mágicos e aproximar-se desta obra televisiva mas que, por sua vez, se distancia da mesma por um conjunto de momentos que se tentam cómicos mas que ao repudiar essa essência em nome de algo em que tradicionalmente "cai" a comédia em questão... a vergonha alheia... se caracteriza não pelo humor mas sim por um completo desastre do qual ninguém se quer recordar.
2 Lava 2 Lantula! é assim um daqueles filmes que o espectador ama odiar. Esqueçamos o argumento. É absurdo pensar que iremos retirar daqui qualquer tipo de realidade que nos faça sentir bem connosco próprios ou mesmo ter a noção de que acabámos de ver uma obra à qual queiramos regressar num futuro... nem próximo nem distante. Não... Aquilo que esta longa-metragem consegue fazer chegar ao espectador - e isso sim poderá conseguir ser positivo - é uma paixão sentida por uma equipa de produção que quis deixar um qualquer legado do seu trabalho. Esqueçamos se isso será, no final, positivo ou negativo mas sim que a vontade e o trabalho os levou a criar "isto"... Talvez com muito ou poucos fundos... talvez com muito ou pouco tempo... ou quem sabe com mais ou menos empenho mas este foi o resultado de alguém que quis fazer um filme (não necessariamente uma obra cinematográfica) e, nessa perspectiva, talvez seja esse o legado (na falta de melhor palavra) que aqui é deixado.
Na prática, e já no final onde se pode fazer uma avaliação com conhecimento de causa, que o espectador pensa e compreende que aqui ninguém se levou realmente a sério... nem a equipa de produção, nem actores... nem tão pouco os vários convidados especiais que desfilam por esta obra com uma qualquer pretensão de voltar a aparecer no grande (ou pequeno) ecrã com algo que contar. Aqui todos estão com uma real e vincada compreensão de que estão "por estar". Ninguém será recordado pelo seu trabalho (qual empenho!!!) nesta obra, pelos seus dotes artísticos - nem mesmo a equipa de efeitos especiais que não se esmerou na criação das referidas "lavalantulas" - e eventualmente terá existido alguém que não quis o seu nome associado aos créditos finais da mesma... No fundo, 2 Lava 2 Lantula! fez-me recordar Bowfinger (1999), de Frank Oz onde um produtor desesperado, interpretado por Steve Martin, acompanhado de uma equipa de rodagem (também ela no seu limite), tentava criar todo um conjunto de situações impensáveis filmando assim o seu actor de eleição que, apanhado de surpresa julgava estar a ser atacado por seres do espaço. É esta despreocupação que se sente em 2 Lava 2 Lantula!... mas com muito menos elaboração ou cuidado para com os resultados finais, dando a toda esta sequela - esperada mas completamente desnecessária - a dimensão que ela realmente tem... nenhuma!!!
2 Lava 2 Lantula! ficará eternamente - se conseguir resistir todo o tempo que esta palavra comporta -, naquela galeria de filmes que estão para lá da série Z... tão distantes, mal elaborados e desprovidos de um qualquer conteúdo que apenas os fãs de um actor... de um realizador que possa vir alcançar o seu estatuto de culto - dificilmente - ou de uma história de apocalipse em potência irão recordar.
No reino do absurdo tudo impera e triunfa... e quando a este se unem todo um conjunto de actores e profissionais que esperam ver o seu rosto uma vez mais no grande ecrã tentando, dessa forma, recuperar alguma da graça e do esplendor que alcançaram noutros tempos... existe sempre uma "lavalantula" que renasce do chão (ou das cinzas) pronta a consumir aqueles que de nós resistem até ao final de uma "obra" como esta sequela de algo que inicialmente nunca deveria ter visto a luz do dia. Diz o ditado popular que "entre mortos e feridos... alguém há-de escapar"... aqui... nem os vivos conseguem ter um final feliz... pelo menos não um que seja digno de tal caracterização.
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sábado, 24 de novembro de 2018

20-02-80 (2017)

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20-02-80 de Jerónimo Ribeiro Rocha (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial da XXIVª edição do Caminhos do Cinema Português que hoje se inicia no Teatro Académico Gil Vicente e que se prolonga até ao próximi dia 1 de Dezembro.
Uma filmagem em Super 8... excertos de um filme snuff. O que poderá estar escondido com a revelação de imagens que se julgavam perdidas?
Depois das atmosferas de terror proporcionadas com as curtas-metragens Breu (2009), Dédalo (2013), Arcana (2015) e Macabre (2015), Ribeiro Rocha chega com o inesperado trazendo para o cinema em formato curto um inteligente - mas infelizmente incompleto - filme snuff que cativa não só pelo inesperado mas sobretudo pela inovação em fazer do género uma obra cinematográfica que nova e facilmente o coloca como uma referência do cinema de género.
O ambiente recriado também não poderia ser mais fiel ao género em questão. Numa floresta com elementos medievais e primitivos que remetem o espectador para um certo paganismo religioso - temática aliás recorrente na obra recente do realizador -, uma mulher é perseguida por quatro homens vestidos a rigor (um como elemento morte e líder do grupo, os três restantes como seus servos) que a transformam não só pela violência física que exercem sobre ela mas sobretudo pelo elemento psicológico que parece dominar os seus sentidos. Ritual místico que mescla religioso e pagão à parte, existe sim um sexto elemento - agressores e vítima à parte - que tenta, com o requinte possível para o género, filmar e captar todo um conjunto de elaboradas encenações para validar o filme snuff em que todos participam e do qual se compreende o fim último.
Com uma vívida imaginação para o género de terror e suspense recuperando aqui os tenebrosos filmes snuff, Jerónimo Ribeiro Rocha consegue um dos mais inteligentes dos últimos tempos pela sua capacidade de tudo fazer crer tendo, no entanto, muito pouco revelado sobre aquelas temidas e perigosas imagens... Já bem perto do final - e tal como revelou há mais de vinte anos o fortíssimo Tese, de Alejandro Amenábar -, é a curiosidade do espectador que, tão ou mais mortal do que as imagens filmadas, assume a maior revelação... afinal, não queremos todos nós ver mais daquilo que tão perigosamente tememos?
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terça-feira, 5 de junho de 2018

2024 (2016)

2024 de Elena Z. e Mattia T. (Itália) também autores do argumento desta curta-metragem centrada num universo pós-apocalipse onde um inesperado sobrevivente tenta encontrar o seu próprio espaço e escapar às investidas de um grupo de estranhos mercenários que percorrem as mesmas matas em que se encontra.
Com breves momentos em flashback que, de certa forma, indiciam o resultado final desta trama, 2024 denota a sua clara inspiração num universo The Walking Dead (2010) sem que, no entanto, o espectador aqui vá encontrar uma história onde os mortos-vivos controlam a Terra. As referências ao género são óbvias... do inesperado assobio à la Negan às milícias armadas das quais o nosso protagonista tenta escapar são os pequenos detalhes que fragilizam toda esta curta-metragem. Esqueça o espectador - por momentos - as referências à série televisiva com milhões de fãs e concentre-se sim nos lugares comuns que aqui são filmados ou mesmo os pequenos erros que nenhum sobrevivente cometeria começando, logo de imediato, por caminhar num espaço semi-deserto onde pretende escapar de um agressor mas, ao mesmo tempo, ter em sua posse objectos metálicos que indicam a sua presença a qualquer agressor que o procure... Sobrevivência?! Ou talvez não...
Ainda com sérios problemas no que diz respeito à captação de som que oscila entre o mediano e o fraco, 2024 compreende-se como uma curta-metragem amadora ou como objecto experimental de ensaio da sua dupla de realizadores com claras referências sobre aquilo que pretende construir, com assumida paixão pelo género e que criou uma pequena obra com os meios ao seu dispôr. Obra cinematográfica de excelência? Longe disso... um trabalho de paixão e de amor por uma arte e por um género? Certamente que sim!
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

30 Minutos con Laura (2017)

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30 Minutos con Laura de Juanjo Haro é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Cantábria da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción a decorrer até ao próximo dia 13 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Laura (Laura Heredero) tem uma vida complicada... e agora um novo homem (Javier Uriarte) entrou na sua vida. Irá Laura sair desta sua aparente existência?
Juanjo Haro cria com este genial argumento aquilo que todo e qualquer espectador anseia numa história, ou seja, a capacidade de não ter nenhuma margem de desatenção que lhe permita sequer olhar para o lado. Sim... estamos perante uma daquelas histórias que pedem - e até exigem - que durante os seus mais ou menos breves instantes detenham o espectador como seu refém.
Inicialmente o espectador pensa que está perante uma qualquer banal história mais ou menos romântica que o vá distrair durante uns quantos minutos. No entanto, aquilo que 30 Minutos con Laura lhe confere é algo que vai bem mais longe do que os referidos trinta minutos que se supõe ir durar a acção deste conto moderno. Aqui, acompanhamos um conto sobre a memória... A memória de uma mulher sobre os seus espaços do passado, sobre as suas histórias e sobre as recordações que guarda de uma vida mais ou menos feliz... mais ou menos atribulada mas que, percebemos, mais não é do que um pequeno lugar da sua já extensa memória. Mas, no entanto, e se essa memória escondesse por detrás da sua componente idílica algo mais do que a positividade de uma relação tida até então? O que aconteceria se, por detrás de todos os acontecimentos de uma vida, se escondesse algo mais negro e terminal que agora já não lhe pertencem. No fundo, e se agora depois de toda uma vida com um significado inabalável se escondesse toda uma história de traição, ciúme, paixão e loucura que têm - como tudo na vida - as suas consequências mais ou menos imediatas e que estão prestes a ser cobradas?
Desta forma "Laura" (Heredero) e "Ele" (Uriarte) encontram-se num restaurante. Não são aquilo que inicialmente poderíamos imaginar nem tão pouco um casual encontro que se proporcionou através dessa casualidade ou tão pouco fruto de uma qualquer rede social onde tantos encontram o seu escape para uma nova "vida social". Não... em 30 Minutos con Laura aquilo que o realizador e argumentista Juanjo Haro nos revelam é uma surpreendente história onde não só todos os pequenos detalhes têm uma importância inquestionável para a resolução de um conto impossível como também os desempenhos dos seus actores conferem - depois de descoberta toda a verdade por detrás das suas acções - toda uma nova dinâmica que destroem a tal "zona de conforto" do espectador mais preparado para resistir à surpresa.
No final, onde tudo é entretanto percebido pelo espectador, aquilo que lhe resta compreender e acompanhar é, não o percurso de uma "Laura" entretanto encaminhada para a sua nova realidade mas sim o trajecto já passado, mas recente, d'"Ele" enquanto aquele que mais directamente privou com esta mulher e a compreendeu nas suas limitações imediatas... Acompanhamos os seus instantes... os seus pensamentos que, como desabafos, nos empurram para um destino final relativamente inesperado mas igualmente surpreendente e, m pouco menos de dez minutos, compreendemos toda uma vida de "Laura"... as suas aspirações, as suas paixões mas sobretudo a sua compreensão daquele preciso momento em que reage à ideia desse tudo agora perdido.
Raras são as ocasiões em que um filme consegue de forma engenhosa e brilhante surpreender com os seus twists finais e conferir todo um novo significado a um filme que o espectador já tinha assumido como "garantido". No entanto, 30 Minutos con Laura consegue não só prender o espectador ao banco da sala de cinema como especialmente dinamizar toda uma história com a irreverência de alguém que sabe fazer bom cinema, cativar o seu público e sobretudo não se deixar inibir pelas ideias assumidas do espectador sobre uma história que surpreende até ao último instante. Aqui não estamos simplesmente a ver um filme... pelo contrário... aqui estamos a assistir a uma obra de arte em formato curto e a um dos mais brilhantes, enigmáticos e assumidamente surpreendentes filmes dos últimos tempos que consegue ainda ter duas intensas e bem estruturadas interpretações que se complementam na descoberta do um aparente impossível.
Bravo! Two thumbs up!
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8 / 10
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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

21 Nuits avec Pattie (2015)

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21 Nuits avec Pattie de Arnaud Larrieu e Jean-Marie Larrieu é uma longa-metragem francesa de ficção presente na décima-sétima edição da Festa do Cinema Francês a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 16 de Outubro no Cinema São Jorge que nos relata a viagem de Caroline (Isabelle Carré) à casa de campo da sua falecida mãe, onde num misto de auto-descoberta, prepara o funeral da mesma e conhece Pattie (Karin Viard), uma mulher libertina que lhe irá mostrar toda uma nova perspectiva sobre o que é viver.
O argumento, que é também da autoria da dupla de realizadores, gira essencialmente em torno da personagem interpretada por Isabelle Carré e da sua evolução psicológica e sentimental enquanto vive um momento de reflexão pela morte de uma mãe com quem - percebemos - não existia uma próxima relação ou afinidade. "Caroline" é uma mulher que chega relativamente indiferente à casa de uma mãe agora desaparecida da qual, na prática pouco parecia conhecer. A forma como conhece aqueles que com ela privavam ou até mesmo a casa habitada pela mãe revela ao espectador o sentido distanciamento físico que as afectava. No entanto, e sem uma explicação aparente, este distanciamento regista-se também ao nível de um desconhecimento na forma de estar e encarar o mundo e principalmente algo emocional que as separa. Não conhecendo o que levou a este distanciamento - para lá de uma aparente forma de estar no mundo -, daquilo que percebemos de "Caroline" é que esta é uma mulher reservada, fechada nos seus sentimentos e na sua sexualidade deixando-se levar por uma auto-repressão que a condiciona no trato com os outros - família incluída - e que esta auto-descoberta agora iniciada é o princípio de toda uma transformação que lhe chega através dos breves encontros que tem com "Pattie" (Viard), uma mulher que privou de perto com a sua mãe.
A casa de "Isabelle" - a falecida - é algures durante o filme citada como um espaço que "acolhe todos os ventos"... um local onde todos se dirigem e onde passam momentos de completa e total libertação - sentimental, sexual, emotiva e até mesmo social - comprometendo-se apenas com os seus próprios pensamentos e, no fundo, liberdade. É por estas palavras que acabam por ser caracterizadas estas duas mulheres... Uma mãe libertina e um espírito livre que criava elos sentimentais e emocionais com todas as pessoas que decidiam realmente viver a sua vida e uma filha que eventualmente dela se tenha distanciado - desconhecendo por completo todas as facetas da sua vida - e que desenvolve todo um comportamento social apático mesmo com um marido que a ama que mais os separa que aproxima.
Com um subtexto muito explícito no que diz respeito a uma liberdade sexual que aquele grande casarão faz florescer, 21 Nuits avec Pattie tenta a comédia ligeira e o drama sentimental fácil que, no entanto, não convence o espectador a criar uma acentuada empatia com nenhuma das personagens. Personagens essas que, na sua maioria, são meramente figurativas e complementares a uma história onde apenas brilha aquela interpretada por Isabelle Carré que dinamiza todo o filme - para o bem e para o mal - podendo apenas ela dar cor a este filme que nunca desenvolve para além do momento em que reflecte - a todos os instantes - sobre a repressão versus liberdade sexual da protagonista.
Com uma interpretação exaustivamente vulgar de Isabelle Carré - com cuja personagem dificilmente se consegue criar qualquer tipo de empatia - tendo alguns momentos com potencial para transformar esta história numa divertida comédia dramática, 21 Nuits avec Pattie é, no entanto, excessivamente longo para o conjunto de banalidades que entrega ao espectador caindo num conto monótono e aborrecido sobre uma descoberta - fora de tempo - daquilo que é, no fundo, o tema principal desta história, ou seja, sem sexo... livre e descomprometido... a vida é um aborrecimento.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

2 Minutos (2016)

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2 Minutos de Afonso Pimentel - também o argumentista - é uma curta-metragem portuguesa de ficção com a interpretação de duas grandes actrizes portuguesas: Alexandra Lencastre e Beatriz Batarda.
Duas mulheres... um instante de uma noite. Uma declaração. Uma separação que parece inevitável. Pelo meio a confirmação de um desejo.
Criada pelo actor e realizador português Afonso Pimentel sob a premissa de "La Nuit" lançada pela Academia Francesa de Cinema, 2 Minutos é o registo de um encontro e de uma separação entre duas mulheres anónimas e amantes que, naquele instante de uma qualquer noite, confirmam o mútuo desejo e efectivam um distanciamento face a algo que aparentemente nunca poderá acontecer.
Uma dessas mulheres - Batarda - afasta-se da outra - Lencastre - que a persegue por desejar aquilo que parece estar a perder. A primeira quer algo mais... quer a presença de alguém que nunca está, que nunca dá notícias e que se afasta deixando um sempre presente desconforto. A que persegue - uma sempre fabulosa Alexandra Lencastre - deseja, seduz, insinua-se, toca, sente e confere à personagem interpretada por Beatriz Batarda aquilo que persegue ser desta uma vontade... o sentimento.
A noite - a tal personagem omnipresente nesta história - tudo esconde e tudo revela. Esconde a proveniência destas duas mulheres, esconde o momento que as trouxe ali, as origens de um problema que, por sua vez, se revela no anonimato de um movimentado Príncipe Real criando uma troca de palavras que tem tanto de sedutor e poético como de despedida e de revolta pela não confirmação de um sentimento - ou desejo - que parece expirar a cada momento que passa. As promessas são vãs... diz a certa altura uma Beatriz Batarda desesperada com a percepção de que o seu sentimento não foi retribuído criando na personagem de Alexandra Lencastre a compreensão de que tudo foi fugaz... sentido enquanto o deteve.. mas irreal numa concretização de facto do sentido e cobiçado. O proibido, o segredo, a sombra que a noite conferiu estão agora revelados debaixo de uma luz artificial que tem a durabilidade de umas poucas e breves horas. O desejo, tal como o momento, passa... deixando o nada.
Em pouco menos de três minutos duas das mais intensas actrizes portuguesas entregam ao espectador um breve mas marcante momento sobre o desejo. Um desejo mútuo mas que não sendo confirmado as obriga a um distanciamento inadiável. A noite revela nos seus rostos as marcas de um sentimento sofrido, constante e dilacerante. O talento destas duas actrizes revela, também ele, que as deveríamos ter mais presentes no nosso cinema... E se Batarda confirma a marca a sua presença de forma regular, a personagem criada por Afonso Pimentel confirma uma ideia que paira no pensamento de muito de nós - no meu, pelo menos, assumo-o sem qualquer reserva - ou seja, porque motivo não temos mais presente uma actriz como Alexandra Lencastre que consegue, de forma "fácil" e - na falta de palavra melhor - marcante, entregar corpo, alma e uma intensidade dramática desarmante às personagens a que dá vida?
Com "corpo" suficientemente interessante para poder dar vida a uma longa-metragem, Afonso Pimentel criou duas intensas personagens - através de duas intensas actrizes - que teriam muito para explorar sobre os seus passados, origens e (des)encontros revelando algo que já havia por estes lados afirmado graças ao seu Noiva Precisa-se (2012), que enquanto realizador teria ainda muito por explorar com qualidade filmica e narrativa dando corpo mas ainda mais alma a personagens que sendo comuns... nada têm de vulgares.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016

4242 (2016)

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4242 de Sara Eustáquio é uma curta-metragem experimental portuguesa que, inspirada em acontecimentos verídicos, relata a história de Cristi (Cristina Caldararu), uma jovem imigrante que tenta redefinir o seu "eu" quando se vê noutro país que não o seu.
A curta-metragem da jovem Sara Eustáquio, que também assina o seu argumento em conjunto com a protagonista Cristina Caldararu e Mae Margriet, é não só um interessante trabalho se considerarmos a mensagem social que lança vinda das mãos de uma jovem realizadora, como também é um atento e por vezes crítico olhar a uma sociedade de um século XXI cada vez mais desumanizado.
Longe da família e dos amigos, "Cristi" é uma jovem que chega a um novo país. Conhecendo-o lentamente, os seus primeiros instantes naquela que é uma nova cultura são felizes e eventualmente repletos de uma esperança normal para quem chega a um local onde tudo é novo e transparente. No entanto - e tal como ela relata - os primeiros e inocentes instantes neste novo espaço deixam-se contornar por todo um sentimento de insegurança, receio e ansiedade de uma rejeição (esperada) naquele que começa a sentir não ser o seu ambiente. Longe da sua casa, da sua família e dos seus amigos, esta jovem sente que tudo o que alguma vez conhecera pertence agora ao campo das memórias e das recordações que se vão apoderando do seu ser criando uma cada vez maior sensação de dependência face ao que teve e alheamento em relação a onde está. A sua língua é agora um património que de pouco lhe serve e, sem rumo, perde-se entre dois mundos que na prática nunca chega a ter.
A distância que a separa do que teve - 4242 KM's - deixa de ser apenas um número para dar mote a todo um sentimento de perda, de alguma amargura, de uma memória distante e de um vazio que cresce a cada dia que passa. O desespero que as memórias recorrentes lhe provocam não a permitem encontrar um local ao qual possa chamar de casa e, aos poucos, tudo aquilo que recorda mais não é do que uma distante lembrança de algo que parece já não poder ter especialmente quando sente que precisa realmente da sua presença.
De uma aparente felicidade inicial a um estado de apatia social que a distancia não só daqueles que deixou no seu país como também daqueles que, como diz, parecem ser almas que vão e vêm sem nunca deixar uma marca presencial, a jovem "Cristi" é, portanto, o retrato de todo um conjunto de pessoas que deslocados do seu país natal - livremente ou não - sentem não ter um acolhimento ou recepção próxima no seu novo destino. Longe de atribuir qualquer sentimento de culpa sobre quem está ou quem chega, 4242 tenta, no entanto, transformar-se num sentido alerta social sobre aqueles que distantes do seu espaço ou ambiente natural, vão lentamente definhando para a já referida apatia que os transforma em fantasmas nos novos países e cidades que ocupam.
Assim, e com um sentido de oportunidade mordaz face aos estranhos dias em que vivemos em que temos toda uma nova vaga migratória e de refugiados que procura um novo local onde assentar raízes, 4242 transforma-se para lá de uma curta-metragem, num número simbólico que encorpora todas essas distâncias, todas essas vidas, todas essas memórias e todas essas vidas que percorreram caminhos sem fim tentando não só libertar-se de um qualquer regime despótico como também encontrar no seu destino um novo local ao qual poder chamar "lar". O espectador, normalmente distante (ou distanciado) de qualquer temática social que não seja ou esteja sistematicamente a ser colocada à sua frente, poderá momentaneamente recordar essas mesmas vagas migratórios e de refugiados que chegam à Europa pelo Mediterrâneo. No entanto, sem um rosto definido que os represente, pode facilmente em 4242 encontrar uma parte - mais ou menos ligeira - de todos esses que deslocados do seu espaço não só se sentem perdidos por o terem abandonado como o voltam a sentir outras duas vezes... no seu percurso antes de chegar a um destino consumado e finalmente quando a ele chegam se perdem por todo um novo conjunto de locais que diferem - e muito - das suas próprias culturas sujeitando-se portanto, a toda uma nova etapa de socialização ao mesmo.
Com algum pudor lírico - certamente naïf devido à jovem idade da realizadora - e que pessoalmente espero que nunca o perca, 4242 transforma-se facilmente no novo hit cinematográfico português tendo já percorrido alguns festivais internacionais dos quais saiu premiada e que sem artifícios ou inuendos consegue transmitir a tal mensagem social de alerta sobre e para com os deslocados - migrantes, de guerra, ambientais (...) - que tantas vezes se esquece e que (tantas vezes) não se consegue ou quer revelar.
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sexta-feira, 1 de julho de 2016

30 Days with My Brother (2016)

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30 Days with My Brother de Michael May é uma longa-metragem norte-americana que relata a história de Jonathan (Adrián Núñez), um jovem que nos dias após a morte do seu pai é confrontado com o aparecimento de Alexis (Omar Mora), o seu irmão desaparecido quando ele tinha dez anos de idade.
Aquele que é um encontro inicialmente tenso onde todos os laços são postos em causa relembrando as tragédias familiares, traduz-se numa inesperada redenção que confirma que nem as distâncias opõem os destinos de uma família.
Jorge de los Rios e Omar Mora - que aqui além de uma das interpretações principais e produtor de 30 Days with My Brother é também o seu argumentista - assinam uma história que se afirma em todos os momentos como uma pesada elegia aos caminhos que distanciam um dos mais fortes elos como o é o da família. Quando inicialmente se conhecem os dois irmãos, o espectador está longe de compreender toda a dimensão da separação destes dois irmãos que não são mais do que dois estranhos que partilham um património genético. Ambos com passados conflituosos que lentamente se vão revelando, tanto "Jonathan" como "Alexis" são o fruto de um acto de extrema violência testemunhado por um e ignorado pelo outro que os separou não só em adolescentes como também nesta idade adulta que agora os confina a uma desconfiança difícil de colmatar.
Num registo temporal que revisita o passado através do olhar de alguém que o espectador não conhece logo desde o primeiro instante, e tendo a morte ou a sua eventualidade como um potencial destino final, 30 Days with My Brother é, no entanto, uma história que celebra o reatar de um laço fraternal interrompido pela tragédia desse mesmo passado incompleto e que os revisita para encontrar um potencial desfecho. O mesmo passado que levou um a viver sempre no medo de uma violência extrema que o condicionou a uma vida no limite de uma ilegalidade constante - "Jonathan" - enquanto que o outro, não vivendo nesse limbo, sempre se encontrou sózinho num mundo que não lhe deixou com o retrato de uma família dita normal - "Alexis". Nestes mundos opostos onde nem sempre as oportunidades se encontram ao virar da esquina levam-nos, no entanto, a encontrar aquilo que sempre lhes fez mais falta... uma família. Uma família que chega no completar de uma metade em falta e que reserva algumas surpresas na secreta, e por vezes silenciosa, personagem de "Alexis", que reencontra o seu irmão com o intuito de se completar mas também de lhe deixar um preciso legado.
Com a necessidade de fecharem o passado, conhecerem-se mutuamente e recomeçar toda uma vida nova, estes dois irmãos de 30 Days with My Brother são assim a prova de que existe um porto de abrigo no mais inesperado dos momentos. Momento esse que espreita silenciosamente, como que numa espera pelas acções tomadas delimitando as suas consequências e formatando assim um caminho para um futuro desconhecido.
30 Days with My Brother é um filme que funciona essencialmente pela simpatia provocada pelos dois actores protagonistas que se complementam como dois pólos opostos... da insegurança e incerteza de um à segura confiança do outro, os dois protagonistas complementam-se entregando uma simpática dupla de interpretações que convence o espectador através do seu crescendo - enquanto intérpretes e pelas suas personagens - sem nunca esquecer que é o mesmo que despoleta a vontade de que a vida (lhes) resulte bem. Como nem sempre existem finais felizes - nem mesmo nas histórias de reunião familiar - aquilo que 30 Days with My Brother tenta deixar é um certo legado que pressupõe uma continuidade, não necessariamente com os personagens que esperamos, conferindo uma segunda oportunidade àqueles que (sobre)vivem para lá das expectativas.
Se Omar Mora é a força motora por detrás de 30 Days with My Brother assumindo-se como intérprete (essencial para a narrativa e para o evoluir de "Jonathan"), produtor e argumentista, é Adrián Núñez que, no entanto, se confirma como o actor revelação deste filme entregando aquela personagem que contra todas as expectativas evolui de um jovem feliz mas desconhecedor do seu passado, para o fruto de um lar abusivo e uma vida marginal à lei mas que consegue resistir contra todas as adversidades (mesmo aquelas auto-impostas) demarcando-se do seu meio e assumindo um conjunto de responsabilidades que não esperava serem possíveis. Não sendo uma interpretação determinante para o seu futuro, o seu "Jonathan" consegue, no entanto, marcar um interessante ponto de situação no seu potencial e uma personagem que irá certamente ser recordada no seu curriculum.
Não sendo uma longa-metragem excelsa mas sim uma feita livre de preconceitos e que coloca duas personagens latino-americanas no centro de uma narrativa de uma suposta redenção, 30 Days with My Brother confirma aquela máxima de que muitos filmes conseguem agarrar o espectador - e valer todo o seu argumento - graças aos seus últimos quinze minutos onde todos os fantasmas são finalmente desfeitos e nos quais o espectador ganha uma especial empatia pelas suas personagens... Aqui, se o espectador se vai deixando levar pela simpatia que "Jonathan" e "Alexis" provocam, é também verdade que o mesmo se deixa render pelos seus destinos ora trágicos ora redentores conferindo no final uma invulgar mas tranquilizante sensação de "missão cumprida".
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terça-feira, 12 de abril de 2016

8 Mile (2002)

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8 Mile de Curtis Hanson - o mesmo realizador de Bad Influence (1990), The Hand that Rocks the Cradle (1992), The River Wild (1994), L. A. Confidential (1997) pelo qual venceu o Oscar de Melhor Argumento Adaptado, Wonder Boys (2000) e In Her Shoes (2005) - é uma longa-metragem norte-americana vencedora do Oscar de Melhor Canção Original.
B-Rabbit (Eminem) é um jovem rapper numa constante luta pessoal em todos os aspectos da sua vida. Não só vive no limiar da pobreza com uma mãe alcoólica (Kim Basinger) que encontra conforto num qualquer homem que surge no seu caminho (Michael Shannon), como também é o principal guardião da sua irmã ainda criança, não tem um emprego estável, nem namorada e o único alento da sua vida são o restrito grupo de amigos que fielmente o acompanha e um sonho... poder viver da sua música.
As comparações entre a história de "B-Rabbit" com a do próprio Eminem são óbvias e evidentes. Para o espectador é impossível visionar este filme e não conseguir estabelecer e encontrar um sem fim de semelhanças entre ambos e ver um reflectido no outro. As vidas problemáticas em subúrbios desolados onde a miséria se apodera e consome o dia-a-dia de um sem número de pessoas que em tempos tentou lutar contra a sua própria extinção mas que eventualmente se renderam ao fracasso dos seus sonhos, sem esquecer que este mesmo sonho é, por vezes, não só difícil de concretizar como principalmente até de o ter, são as dinâmicas principais de uma história que, em última análise, vive mais do mediatismo do seu actor/cantor principal do que propriamente da história em si que, em boa medida, não só já foi muito filmada como com contornos com os quais uma larga maioria dos seus espectadores se pode identificar para lá de um certo nicho com os mesmos sonhos e aspirações.
Na prática o que temos de 8 Mile não é nada de novo para lá do que já esperamos... Um tipo a quem a vida nunca sorriu, que viveu uma adolescência com sonhos grandes demais para lá daquilo que lhe estava "reservado" enquanto uma possibilidade e um grupo de amigos que, ainda que fiéis, não podem ajudá-lo a concretizar os objectivos com os quais toda a vida sonhou. O sonho é uma constante... Aquele de uma vida melhor, de uma casa melhor, de algum respeito que os seus pares lhe têm negado por ser de origens que o envergonham e, no fundo, a garantia de uma vida onde a escassez e os problemas de um qualquer despejo sejam apenas fruto de uma imaginação passada.
Se tivermos este conjunto de ideias em mente... todo o filme acaba não só por confirmá-las como estar visto... sem ser necessário grande esforço intelectual. 8 Mile é, para mim, um filme simpático de sábado à tarde... Um daqueles que sabemos ir momentaneamente distrair-nos e perceber/esperar que o sol pode sorrir a todos - mesmo àqueles cujas origens e meios roçam o limiar de uma miséria social e económica absoluta - mas apenas nos Estados Unidos onde todos os sonhos parecem ainda ser possíveis.
E por "filme simpático" reforço que não passa disso. Longe de uma longa-metragem desinteressante, 8 Mile não consegue ter o fogo de outras obras de Curtis Hanson como a tensão filmada daquelas dos anos 90 ou o "coming of age" sentido em Wonder Boys ou In Her Shoes. Aliás, Curtis Hanson pode dar graças pelos últimos instantes de 8 Mile onde um "B-Rabbit" agora vitorioso e que consegue finalmente ver o seu sonho concretizado mas que, no entanto, não espera que naquele momento todo o céu seja "agarrado" limitando-se a perceber que tudo é possível mas que as suas responsabilidades falam mais alto e o obrigam a descer à terra e lutar por uma vida diferente daquela que em tempos imaginara. São estes instantes finais que na minha opinião conseguem criar uma empatia entre espectador e personagem para lá da fanfarronice e lugares comuns que o género "poor kid gets is chance" normalmente entregam, mostrando que a tranquilidade é alcançada quando se pacifica o Homem com o espaço aceitando as suas limitações e compreendendo as suas oportunidades.
Eminem, de e para quem 8 Mile está totalmente direccionado, agarra o filme e este é, de facto, seu... mas se o espectador pensar realmente naquilo que viu e no resultado final, então percebe que o mesmo mais não é para a História do que aquele filme que lhe garantiu o Oscar. Afinal "Academy Award Winner Eminem", não é uma expressão que qualquer um de nós inicialmente considerasse como real.
Tem os seus momentos como obra que filma a concretização de sonhos... outros tantos sobre o poder e a importância da amizade e alguns sobre a aceitação do fracasso mas, para além disso... 8 Mile é um filme banal que a seu tempo - se é que esse já não chegou - não será recordado para lá de "aquele filme de Eminem".
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"B. Rabbit: Don't ever try to judge me dude (...)"
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sábado, 9 de abril de 2016

4th Man Out (2015)

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4th Man Out de Andrew Nackman é uma longa-metragem norte-americana que conta a história de Adam (Evan Todd) que no dia em que completa o seu vigésimo-quarto aniversário resolve contar aos seus amigos de infância que é homossexual.
Incerto sobre as suas reacções bem como com a da sua família, a coragem de Adam vai sendo sucessivamente abalada até que espontaneamente revela tudo a Chris (Parker Young), Nick (Chord Overstreet) e Ortu (Jon Gabrus) alterando drasticamente as suas vidas.
A longa-metragem de Nackman com base num argumento de Aaron Dancik assume-se como uma simpática e divertida história onde para lá de qualquer noção ou ideal de romantismo se centra nos importantes laços de amizade que são estabelecidos ao longo de uma vida entre um grupo de amigos. É apenas com a chegada de uma inesperada notícia que a dinâmica de grupo é perturbada e se sentem abaladas as estruturas de uma amizade de largos anos. No entanto, considerando que esta mesma notícia acaba por transformar radicalmente as vidas de todos os envolvidos, o espectador percebe que finalmente todos eles abandonaram a juventude e alguma (ir)responsabilidade que lhes era inerente para finalmente poderem abraçar a tão (in)desejada "idade adulta".
A revelação da homossexualidade de "Adam" mais não poderia ser do que uma assumida surpresa por parte dos outros elementos do grupo. Se inicialmente todos a tomam como algo de novo e improvável dado um passado pseudo-mulherengo do mesmo, não deixa de ser verdade que aos poucos é esta mesma notícia que os leva a ter um pouco mais de curiosidade para com a vida do amigo que, percebem, ter sido constituída de alguns segredos e muitos silêncios no seu passado. Segredos e silêncios estes que, longe de prejudiciais para o grupo, não deixam de revelar que existe toda uma "nova pessoa" que precisa ser conhecida e descoberta. Afinal... quem é "Adam" quando fora do grupo? Se "Chris" toma esta revelação como toda uma nova oportunidade para descobrir "Adam" - com quem mantém uma amizade mais próxima dentro do próprio grupo - "Nick" encontra nesta revelação uma oportunidade para descobrir mais sobre toda uma sexualidade enquanto "Ortu" se transforma naquele que amadurece e descobre que existe muito mais sobre si próprio do que a imagem pode inicialmente transmitir.
No fundo, aquilo que 4th Man Out acaba por revelar ao espectador é que para lá das noções pré-concebidas que todos acabam por ter sobre o "outro" - sejam elas sociais, sexuais, culturais, económicas ou psicológicas - não deixa de ser interessante como dentro de um grupo que se conhece há largos anos existem sempre pequenos elementos que escapam do nosso domínio... da nossa curiosidade e claro, do nosso conhecimento. Pequenas coisas que definem um todo, que formam os vários elementos desse mesmo grupo, que os caracterizam e lhes conferem a real dimensão da sua personalidade mas que por receio - ou até mesmo medo - por insegurança, incerteza ou alguma timidez, acabam por ser escondidos, abafados, adulterados e até mesmo negados. Mas no final existe o triunfo de algo maior... a celebração de vidas partilhadas, de amores sofridos, de aventuras nunca reveladas, de momentos que todos irão recordar um dia mais tarde e que serão as suas memórias e também aquelas situações que todos eles percebem constituírem a parte mais importante da sua amizade.
Com os ocasionais lugares comuns que acabam por estar sempre presentes no género nomeadamente o "online dating" que reafirma que nem sempre se deve confiar naquilo que se conhece nas redes sociais ou mesmo os comportamentos "tipo" que se esperam de algumas das personagens, 4th Man Out acaba por ser mais importante pela crítica social que estabelece não só ao americano típico como principalmente alerta para aquilo que se espera de uma sociedade moderna, evoluída e onde - dare to dream - o preconceito ficou do lado de fora da porta, afinal... "today we are all americans".
Com quatro interpretações que se complementam pelas suas diferenças - afinal, não são assim todos os grupos de amigos?! - alguns momentos bem delirantes e que celebram o verdadeiro significado de amizade - o convívio no bar gay ou mesmo o mise en scène de alguns pré-conceitos - bem como inocente quanto baste em alguns dos seus sonhos - irrealista talvez? - 4th Man Out é bem disposto e humorado o suficiente para ser uma experiência cinematográfica ligeira e interessante assumindo-se, no final, como um filme que pretende celebrar a amizade e todas aquelas pequenas diferenças que todos os amigos - aqui bem como os nossos - têm, e que constituem aquilo que nos faz essencialmente gostar e confiar neles.
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quinta-feira, 24 de março de 2016

10 Cloverfield Lane (2016)

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10 Cloverfield Lane de Dan Trachtenberg é uma longa-metragem norte-americana que passaria despercebida do grande público não fosse o seu elegantemente editado trailer que nada revela suscitando, no entanto, uma enorme curiosidade e o seu título que remete o mais atento dos espectadores para a obra Cloverfield (2008), de Matt Reeves.
Aqui encontramos Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que se encontra numa encruzilhada... Partir ou ficar para uma eventual relação e casamento com os quais parece não se identificar?
Depois de partir sem olhar para trás, Michelle vê-se envolvida num acidente de automóvel apenas para acordar algum tempo depois dentro de uma cave isolada e sem saber o que lhe aconteceu. Com ele estão Howard (John Goodman) e Emmett (John Gallagher Jr.) que afirmam que naquelas instalações estão seguros de um mundo "lá fora" que sofre as consequências de um ataque químico.
Num ambiente que se vai deteriorando lentamente, Michelle tem de fazer uma escolha... ficar ou tentar partir!
10 Cloverfield Lane e o dúbio argumento da autoria de Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle - este último realizador e argumentista de Whiplash - remetem o espectador para um cenário diferente daquele que se espera se cruzarmos o seu título com o já referido de 2008. No fundo, se inicialmente se espera uma sequela ou prequela dos acontecimentos de devastaram a cidade de Nova York, a realidade é que aqui o que nos é apresentado enquanto espectadores é sim uma história de cativeiro, demência e sugestão que conquistam pela incerteza e por um aparente estado de loucura e alucinação que aos poucos vai tomando conta das suas personagens.
Quase sempre fiel a um comportamento de liberdade - ou libertação - a "Michelle" de Winstead afirma-se como uma mulher livre e de ideias fixas que, no entant, vive num permanente  conflito emocional. Se nos primeiros instantes a temos como uma mulher decidida a seguir um rumo mas que não esquece que está a deixar para trás todo um passado em comum com um "Ben" (voz de Bradley Cooper) que na prática nunca conhecemos, é também real que este comportamento a persegue aquando do seu cativeiro naquele misterioso e claustrofóbico bunker no qual se vê detida contra sua vontade. Numa constante incerteza, "Michelle" parece habituar-se àquele espaço tal como se habituou a uma relação da qual - aparentemente - não tinha tanta certeza se iria resultar, deixando passar a ideia de que apenas por "ali" se mantém por constituir uma segurança máxima de algo que pode estar "lá fora". Incerta sobre o que realmente deseja, as suas fugas ocasionais denotam alguma verve que pretende manter acesa e uma desconfiança latente no espaço que a rodeia.
No entanto são os seus dois companheiros de bunker que mais denotam um comportamento sintomático do clima em que vivem. "Emmett" é um tipo do campo, sem grandes experiências de vida ou confiança em si próprio, deixa-se levar - pelo que nos é revelado pelo próprio - por histórias de uma ameaça química que destruir o ar e a possibilidade de sobrevivência no exterior. No entanto, é o seu convívio com "Michelle" e o efeito de novidade que esta transporta que o fazem despertar lentamente para uma eventual "outra realidade" que desconhece. Mas é em "Howard" que reside o maior conflito não só entre as personagens como também por parte do espectador que nutre por ele sentimentos ambíguos e incertos nos quais residem, eventualmente, um dos pontos fortes deste argumento. Se inicialmente o espectador desconfia de imediato deste homem, pois afinal ele levou "Michelle" para aquele espaço de uma forma arbitrária e sem pedir o seu consentimento, provocando assim uma imediata repulsa por um potencial raptor, é também certo que aos poucos - e por entre alguns espasmos de violência - que "Howard" se revela como um tipo potencialmente pacato mas... desde que as suas regras sejam respeitadas. Domínio forçado graças a um mundo caótico ou simplesmente um potencial paranóico que detém duas pessoas contra sua vontade?
É nesta constante dualidade e incerteza que o espectador "vive" tentando perceber quem e quando irá despoletar o primeiro grito de liberdade mesmo num suposto mundo desfeito por um qualquer extermínio colectivo, no seio de um conjunto de personagens que percebem não só ter de conviver entre si como aprender a sobreviver a si próprios... Afinal, qualquer passo em falso pode determinar o final daquilo que conhecem como o que resta da Humanidade. E com esse medo - já denotado em "Michelle" -, os comportamentos de todos parecem aos poucos cair numa aparente rotina e numa repetição de hábitos que, por conformidade, aceitam sem questionar... Executam pequenas tarefas de manutenção de um pequeno espaço partilhado, comem, jogam, vêem televisão e conversam sem pensar no mundo que deixaram para trás.
Num misto de raptor e raptado - "Howard" e "Michelle" - com a presença (in)voluntária de uma visita - "Emmett" - 10 Cloverfield Lane instala uma constante dúvida sobre o que se passa "lá fora" e que só nos é revelado já bem perto do final da sua narrativa. Existirá ainda um mundo? Existirão as pessoas que anteriormente conhecemos? De que forma passa o tempo que - ao espectador - nunca é revelado? E principalmente... existirá uma escapatória de um espaço que parece tornar-se cada vez mais pequeno?
Sem qualquer relação temporal ou geográfica com Cloverfield, a longa-metragem de Dan Trachtenberg não será uma prequela ou sequela mas sim uma potencial linha temporal idêntica com acontecimentos que se desencadeiam - percebemos - um pouco por todo o mundo (ou pelo menos pelos Estados Unidos), e que dão a conhecer ao espectador que o planeta vive um conjunto de sérias alterações populacionais sem, no entanto, serem explicadas as questões base... como e porquê!
Ainda que competente no que diz respeito à sua capacidade de criar suspense, 10 Cloverfield Lane consegue ser interessante durante praticamente todo o segmento em que se estabelece e afirma como um potencial relato de cativeiro onde vítima(s) e raptor convivem mais ou menos alegremente desconfiando, no entanto, sempre das intenções dos seus companheiros. Pelo final, e dando uma continuidade de incerteza ao desfecho da sua personagem principal, assume-se como uma eventual porta aberta para aquilo que este género de filmes de melhor tem... a capacidade de se propagar sem final à vista mantendo o espectador num fio suspenso sem saber quando e como irá surgir a próxima "entrega" Cloverfield que poderá - ou não - trazer consigo algumas respostas.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

The 5th Wave (2016)

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A 5ª Vaga de J Blakeson é uma longa-metragem norte-americana recentemente estreada e que faz renascer a temática da invasão alienígena e a luta pela sobrevivência de um grupo de humanos que resiste às mais diversas provas.
Cassie (Chloë Grace Moretz) é a típica adolescente norte-americana com uma vida aparentemente normal que num único dia vê toda a sua vida alterada com a chegada de uma nave extra-terrestre cujos tripulantes têm os seus próprios planos para o planeta Terra.
Numa viagem de destruição e sobrevivência Cassie tem não só de conseguir sobreviver junto da família como também às cinco vagas de extermínio a que os extra-terrestres sujeitam a Humanidade.
Não fugindo ao típico filme de invasão alienígena ao planeta Terra que tem tantos recursos menosprezados - pelo Homem - e tão cobiçados por entidades que não sabemos se existem e "andam por aí", The 5th Wave mantém um ritmo interessante para o género brindando ainda o espectador - que se tem maioritariamente adolescente graças ao elenco de actores mais jovens - com alguns apontamentos interessantes sobre a forma como se processa essa "invasão". Longe de existir uma derrocada militar que controla todos pela força e pela subjugação, a longa-metragem de J Blakeson transforma os próprios recursos da Terra nas potenciais forças destruidoras da sua maior praga, ou seja, os próprios Humanos.
Se uma primeira vaga elimina através de impulsos electromagnéticos as fontes de energia no planeta fazendo estremecer todo e qualquer tipo de meio de comunicação - telemóveis, computadores e sistemas de navegação - bem como as vias de transporte per si - automóveis, aviões, comboios - isolando e limitando as populações (que melhor forma de fazer o bicho Homem perder-se num mundo onde tudo é devida e electronicamente programado) é a segunda vaga que tenta eliminar uma boa parte da população ao fazer tremer o planeta lançando sobre ele ondas gigantes capazes de destruir as mais preparadas cidades. Maior parte da população eliminada a custo zero - para as forças extra-terrestres - há que preservar o planeta tentando mais uma qualquer epidemia - terceira vaga - que dizime os cada vez menos sobreviventes que existem.
Com perdas máximas do lado da Terra - da sua população - e mínimas por parte do invasor, eis que chega a quarta vaga, ou seja, a presença extra-terrestre no planeta para, de forma disfarçada, tentarem eliminar os poucos e isolados sobreviventes que ainda resistem. Quando tudo parece perdido e as redes de apoio são escassas ou inexistentes, quem conseguirá lançar uma ofensiva se se desconhece que mais alguém "exista"?!
Se estes elementos até se constituem como uma novidade e, como tal, interessantes para o dinamismo deste filme, é também verdade que são explorados a um rimo alucinante deixando apenas uma grande sugestão sobre o destino de um planeta que aparenta estar destruído. E se esta destruição chega essencialmente através da erradicação da praga - nós - é também justo dizer que se é para ver, perceber e sentir "algo", então estes elementos deveriam ser mais explorados em detrimento de pequenos detalhes que "enchem mas não adiantam". O medo - neste caso - instala-se por aquilo que se vê e não pelo que fica por contar.
As ditas quatro vagas iniciais mais não são do que mais ou menos "simpáticos" alertas ecológicos que The 5th Wave tenta abordar na medida em que se torna claro que nada ou ninguém precisa vir destruir o planeta com uma qualquer invasão quando, aparentemente, o bicho Homem é tão eficaz a fazê-lo por si só com o desrespeito que geração após geração afecta a Terra. Para quê destruir algo pela força militar - que a existir seria pelos vistos bem mais poderosa do que a terrestre - quando aqueles que reclamam o espaço por serem seus habitantes são os mesmos que tão vincadamente o "gostam" de destruir com o seu saque e esgotamento de recursos que todos os anos se excede?!
E é nesta exacta medida que entra em campo a tão esperada quinta vaga; como livrar o planeta dos humanos? Retirando-lhes a própria Humanidade - no sentido lato -, ou seja, primeiro através da capacidade de sentir as inúmeras perdas (afinal há um número limitado de provações que cada um consegue aguentar)  finalmente lançando Homem contra Homem num clima de suspeita e incerteza que espalham primeiro o medo, depois o pânico e finalmente a paranóia. E no seguimento desta premissa... que humanos? Se considerarmos que a maioria da população do planeta morreu durante as quatro vagas iniciais, aqueles que sobram são as crianças que no "amanhã" poderia povoar a terra mas, no entanto, se estas forem controladas e endoutrinadas, que melhor "armamento" do que as suas mentes capazes de eliminar como sendo um sentido de justiça "divina" que lhes chegou às mãos podendo desta forma vingar a morte daqueles que perderam?!
É esta militarização da população - e muito concretamente da juventude - que acaba por lançar a mensagem mais irónica visto serem os Estados Unidos - país onde a suposta invasão ganha mais expressão - aquele que maior número de armamento em mãos civis possui e cujo acesso à mesma não só é facilitado como incentivado pelas autoridades?! Num mundo em que a violência se torna tão banal ao ponto de fazer parte do dia-a-dia e comum por se repetir sucessivas e cada mais mais expressivas vezes, não será esta invasão alienígena mais do que uma irónica crítica à própria actuação do Homem e dos seus excessos para com o planeta em que vive?
Sem esquecer a toque juvenil - não esqueçamos o público alvo - e o romance entre espécies - multiculturalismo no seu melhor - cujo amor mais não é do que um "truque para proteger o património genético", The 5th Wave falha naqueles detalhes que não o são, nomeadamente ao deixar em aberto a sequela pois existem questões essenciais que não encontram resposta... Terão os extra-terrestres sucumbido à vontade Humana (de crianças)? Para onde levaram aquelas que capturaram? Voltaremos a vê-los? O que será feito aos poucos que escaparam às garras invasoras? E finalmente, irá o interesse amoroso de "Cassie" - o mestiço "Evan" - aparecer ou ficaremos sem saber qual o seu mais ou menos trágico destino quando é ele que impulsiona a rebelião contra os invasores - nada melhor do que uma conspiração palaciana por dentro das suas próprias muralhas -?
Todo um conjunto de questões interessantes que dinamizarão esta histórias se existir futuramente uma resposta para lhes dar pois, caso contrário, teremos mais um daqueles filmes que não adiantou ter existido pois apenas se justifica como uma forma de levar um público mais jovem às salas de cinema para um pouco de entretenimento-pipoca que nunca poderá ser justificado de outra forma... Motivo pelo qual, aliás, lhe dei esta pontuação tão fragilizada pois enquanto espectador só me sentirei satisfeito se a sequela estiver para breve.
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sábado, 9 de janeiro de 2016

3½ Minutes, Ten Bullets (2015)

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3½ Minutes, Ten Bullets de Marc Silver é um documentário norte-americano que leva o espectador numa viagem até à fatídica Sexta-Feira Negra após o Dia de Acção de Graças de 2012 onde Jordan Davis encontrou a sua morte numa bomba de gasolina onde ele e três amigos haviam parado em Jacksonville, na Florida.
Este documentário explora não só os factos e a consequente acção judicial que culpabilizou Michael Dunn pelo brutal homicídio como principalmente o posterior sentimento de perda por parte dos pais e dos amigos que o relembram enquanto decorre o processo em tribunal.
Numa abordagem factual e judicial que é felizmente interrompida pelos testemunhos daqueles que eram mais próximos de Jordan Davis, o espectador testemunha uma realidade que, deduzo, seja distante da maioria - analisando comparativamente ambas as realidades: Norte-Americana e Europeia - centrando-se quase exclusivamente nos factos que são apresentados deste acontecimento e que o título deste documentário nos faz perceber logo desde o primeiro instante. Dez balas (disparos) em três minutos e meio que colheram uma vida de um jovem que estava no lugar errado à hora errada.
De uma discussão que se iniciou pelo som do rádio estar muito alto e que rapidamente foi conduzida para um brutal e irracional - pela sua desumanização - acto de violência, o espectador assiste a uma tentativa de manobra judicial que transformasse a vítima em potencial culpado - pela distorção do seu carácter - e um confesso homicida numa vítima que apelava à sua defesa às mãos daquilo que seria - para ele - o seu direito a um sossego "violado".
Distanciando-nos enquanto Europeus de uma realidade que é - felizmente - distante da nossa no que diz respeito ao porte de arma, 3½ Minutes, Ten Bullets tece uma interessante e curiosa reflexão sobre o facilitismo com que a sociedade norte-americana tem acesso ao mais variado armamento tornando o seu uso tão banal como por cá temos uma caneta ou um lenço de papel dentro dos bolsos, bem como deixa passar uma ideia e algumas considerações sobre a forma como a violência e o seu fomento são os motores socialmente aceites para a afirmação de uma certa masculinidade como que estando a dizer que "para seres alguém (homem) tens de te afirmar pela (dita) violência e pela forma como conseguiste ter uma arma".
A partir deste momento desenvolve-se também toda uma outra realidade que se prende com uma crescente tensão racial (ainda) muito presente nos Estados Unidos que se agrava com a já referida cultura de e da violência que se unem numa escalada "perfeita" rumo a acontecimentos como estes aqui retratados em 3½ Minutes, Ten Bullets.
Este documentário consegue assim retratar não só o lado factual dos acontecimentos rodeando-se de argumentos que demonstram e explicam tudo o que se passou naquela noite, como principalmente o seu lado humano ao retratar a vida que se perdeu e todas aquelas que se alteraram radicalmente com o seu desaparecimento... como sobreviveram, como resistiram e também como conseguiram agarrar-se a este trágico momento e tentar consciencializar os demais sobre os perigos das tão facilitadoras leis de porte de arma - assustadoras quando sobre elas tomamos algum conhecimento - em vigor nos Estados Unidos.
Não sendo um daqueles documentários tidos como "de primeira linha", 3½ Minutes, Ten Bullets consegue, no entanto, firmar a sua importância pela forma como expõe a perda, a resiliência e principalmente o choque cultural e por vezes algo desumano que os lugares comuns e os preconceitos teimam em firmar na sociedade norte-americana.
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"To the living we owe respect, to the dead we owe the truth."
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sexta-feira, 17 de julho de 2015

'71 (2014)

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'71 de Yann Demange é uma longa-metragem britânica de ficção nomeada para dois BAFTA - Filme Britânica e Revelação do Ano - cuja acção se centra em acontecimentos ficcionados de uma Belfast no início dos anos 70 dominada pelos confrontos entre a Coroa Britânica e os apoiantes do IRA.
Gary Hook (Jack O'Connell) é um jovem soldado britânico transferido para a conflituosa Belfast em 1971. Depois de chamados para uma patrulha na cidade, Gary fica afastado dos seus companheiros de armas quando estala um confronto entre os soldados e a população de uma zona dominada por católicos.
Perdido nas labirínticas ruas de Belfast, Gary é obrigado a esconder-se e esperar pelo dia seguinte enquanto militantes do IRA lhe lançam uma caça ao homem.
Distanciado de um caminho fácil que explora o lado bom e mau de cada lado de um conflito, o argumento de Gregory Burke centra-se sim em dois outros importantes elementos. O primeiro que explora o lado da sobrevivência quer física quer psicológica tão difíceis de manter quando se vive um conflito. Tanto para "Gary" que acaba de chegar a um local que sendo dentro do seu país é tão distante como uma terra num qualquer outro canto do mundo como para aqueles que vivem diariamente com a pressão de se encontrarem divididos e de certa forma impedidos de confraternizar pacificamente com os seus vizinhos tendo como único motivo para tal a religião que professa, a pressão sentida é avassaladora. Como identificar o dito "inimigo" com quem se cruza todos os dias na rua tendo apenas o motivo da religião a suportar esse argumento? Como perceber quem pode ser um potencial terrorista no seio de um grupo de civis?
Os dilemas do conflito - e no fundo de uma guerra não declarada - estão presentes na mente de todos. Para os militares que como "Gary" têm de equacionar um potencial perigo a cada canto que espreita assim como para os civis que receosos não podem circular livremente sem que possam ser alvos de uma revista militar dentro da sua própria casa. É neste contexto que se pretende - espera - encontrar algo de bom... uma réstia de Humanidade naqueles que ainda compreendem que existe um lado surreal e absurdo num conflito que os opõe. É aí que se encontra "Gary".
Desprovido de qualquer identificação pessoal com este conflito, "Gary" encontra-se perdido não só no serviço que tem de efectuar como principalmente nas ruas daquela Belfast onde tem de sobreviver sózinho. E neste caso sobreviver pode implicar ter de matar. Matar ou ser morto... É aqui que o seu dilema moral se inicia. Preparado para defender e patrulhar as ruas de qualquer conflito, longe estaria de pensar que ele próprio seria alvo do mesmo, de agressões físicas e verbais que o levariam a ter de proteger a sua integridade e os princípios - agora desconhecidos - daquilo que para aquela cidade fora fazer. No entanto é nesta mesma fuga nocturna que encontra alguns sinais de que ainda existe esperança no "outro lado" - seja ele qual fôr.
Numa Belfast onde tudo parece abandonado e degradado, o que esperar de uma população que dentro da sua cidade e do seu país se sente marginalizada e sem direitos enquanto cidadãos? Não será fácil despoletar o ódio por um suposto invasor e agressor que os impede de viver de forma livre e digna? Se para "Gary" não deixa de ser verdade que se encontra num local onde não só não entende o conflito como para ele tudo parece estranho e "estrangeiro", não é menos real que para toda aquela população ele é o rosto de um inimigo desconhecido. Aquele "alguém" que os impede de ser livres e de expressarem a sua cultura - ou religião - e que agora está ali só e indefeso. A questão única que então se impõe é se existirá alguma Humanidade naquelas ruas - e naquela noite - que consigam preservar a sua integridade? No momento em que uma multidão enraivecida se aproxima, será mais fácil defender quem está sózinho e sem defesa ou aqueles que se chegam preparados para um linchamento?
Mas é neste exacto momento, aliás em todos aqueles que se apresentam como mais complicados, que se encontra a réstia de Humanidade num conflito que serve apenas os interesses de extremistas - encontrem-se eles de que lado se encontrarem pois ninguém o fermenta sózinho - e é então que o espectador percebe que sim... existe o bem e a esperança em todos os lados... é preciso é saber ver quando ela se manifesta. Quer seja num conflito directo onde alguém se coloca no meio ou mesmo quando num momento de crise é o suposto "inimigo" que o salva dos seus "aliados", a principal mensagem que esta história pretende transmitir é que existe sempre um lado bom vindo de todas as direcções... Esse mesmo lado que mantém a tal réstia de Humanidade num mundo que parece perdido e que independentemente de religiões, nacionalidades ou ideologias consegue perceber que o "outro", tal como "eu", deve poder expressar-se sem medo de retaliações. Estes dois lados são então encarnados por "Gary" (Jack O'Connell) e "Sean" (Barry Keoghan). O primeiro o militar desenquadrado e para quem aquele conflito nada representa e o segundo que por pressão de pares se vê obrigado a participar num conflito que - sabemos ao longo do filme pelas suas acções - para ela nada representa.
Jack O'Connell é a nova estrela em ascenção do cinema Europeu. Não só despertou a atenção num muito badalado e ainda por estrear em Portugal Starred Up, de David Mackenzie (2013) como participou igualmente como protagonista em Unbroken, de Angelina Jolie (2014) e em '71 assume um mais discreto mas avassalador protagonismo enquanto o militar que se sente num duplo conflito primeiro ao ter de prestar serviço numa das zonas mais conturbadas e indesejadas do momento como, de seguida, pelo seu próprio conflito moral que o coloca numa situação de ver e perceber o mal e compreender que precisa de se afastar rumo a um local desconhecido mas onde poderá finalmente encontrar a sua paz.
Tecnicamente '71 é também um filme de excelência desde a sua direcção de fotografia às mãos de Tat Radcliffe que capta a escuridão de uma noite violenta como também toda a reconstituição histórica a nível de guarda-roupa, caracterização e direcção de arte.
E no final, e de certa forma como um paralelismo criado com o início desta história, '71 termina com um sinal de esperança onde duas gerações se encontram, se abraçam e partilham momentos de alegria, de cumplicidade e de entrega que nos deixam esperar - com uma relativa tranquilidade - pelos momentos melhores que a vida tem reservados e que fazem esquecer todas as provações a que foram - fomos - sujeitos até então.
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terça-feira, 16 de junho de 2015

10 Sombras Douradas (2015)

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10 Sombras Douradas de Duarte Oliveira é uma média-metragem portuguesa de ficção numa adaptação livre de Ten Little Indians, de Agatha Christie.
Dez amigos são convidados para uma festa mistério na sua antiga escola tendo como única condição o uso de uma máscara para aquando da sua chegada. Uma vez iniciado o jantar de confraternização, recebem algumas mensagens indo um por um caindo às mãos de um misterioso assassino.
Ainda que o jovem realizador tente construir um filme com uma premissa suficientemente interessante para a construção de uma história de mistério e suspense, na verdade 10 Sombras Douradas encontra-se a milhas de uma qualidade aceitável para a história que se propõe recriar. No entanto, comecemos pelo seu lado positivo... Todo o segmento inicial das filmagens aéreas - feitas pelo realizador ou obtidas por outros meios - revelam uma qualidade muito interessante e apelativa para conseguir prender o espectador logo nos instante iniciais. No entanto, à medida que 10 Sombras Douradas ganha a sua própria "vida", percebemos que a qualidade ficou, também ela, pelos referidos instantes iniciais.
Se o espectador conseguir esquecer todo aquela instabilidade que a "câmara na mão" tráz à dinamização do filme mas que podem facilmente ser justificados pelos poucos recursos que o realizador eventualmente tenha, não é menos verdade que somos incapazes de esquecer o extremamente frágil e pouco livre argumento que nos remete para uma cópia "barata" da referida obra de Agatha Christie não tendo qualquer rumo próprio que se distancie da mesma ou conseguindo afirmar-se ou à sua originalidade. Mas, comecemos...
Após o simpático momento inicial onde o espectador é levado a uma interessante viagem pelo espaço geográfico e ao som de uma interessante banda-sonora - não original mas bem pensado há que dizê-lo - 10 Sombras Douradas apenas sobrevive com momentos pouco trabalhados de um argumento pobremente representado. Esqueçamos que estamos perante uma obra amadora onde todos os intervenientes não terão - em princípio - qualquer tipo de formação na área mas, na prática, uma boa parte do texto parece estar a ser lido à medida que é representado, sem qualquer espontaneidade ou descontracção.
Os erros interpretativos tidos em certos casos como extensões do argumento prendem-se com momentos como por exemplo aquando da primeira morte um dos intervenientes diz "ela não está a respirar"... Ora... se supostamente levou um tiro na cabeça estranho seria se respirasse... Se a isto juntarmos o facto da captação de som ser extremamente débil tendo por diversas ocasiões lábios que mexem e som que chega depois... passamos de uma história de mistério a uma que obrigatoriamente começa a fazer (sor)rir.
Existem ainda os cómicos de situação... Jovens (muito jovens) actores a interpretar adultos bem sucedidos e com carreiras empresariais e diplomáticas de sucesso que vestem Armani e afins ou até mesmo mulheres (jovens raparigas) que defendem a moral e bons costumes em ruas de prostituição com o único intuito de assassinar aquelas que "fazem pela vida". "Less is more" é um conselho sempre presente para um realizador em início de "carreira"... e quando os meios são poucos é preferível apresentar uma história, que mesmo tendo como inspiração um dos mais interessantes e intensos contos de suspense e mistério, se apresente como algo original e bem executado... algo que aqui não consegue ser.
Depois temos ainda as falhas técnicas que prejudicam a obra na sua credibilidade nomeadamente a captação de som que torna muitos dos diálogos imperceptíveis ou mesmo a caracterização que aquando do esfaqueado... se percebe o saco de "sangue" dentro do bolso da sua camisa. E finalmente o espectador pergunta-se... para quê a máscara com que todos chegam inicialmente se, na prática, ela é imediatamente removido revelando a identidade de todos? Não deveria estar ser mantida durante algum tempo? (pelo menos mais do que aquele que é!).
10 Sombras Douradas não diverte, não entretém ou tão pouco se afirma como uma média-metragem com algum detalhe de qualidade firmada. No entanto, e em defesa do jovem realizador há que dar-lhe os parabéns pela iniciativa, pelo espaço em que filmou que denota potencial para uma história do género (que é como quem diz parabéns pelos meios reunidos e pelos apoios que possa ter conseguido), bem como pela vontade de criar que teve neste filme o seu objecto de estudo... que se espera ser aperfeiçoado para um futuro novo trabalho.
Ainda como nota pessoal... parabéns pelos bloopers finais que conseguiram ser de qualidade bem superior ao resultado final de 10 Sombras Douradas conferindo alguma comédia a alguns momentos que supostamente seriam sérios mas que na realidade não passaram de aborrecidos.
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segunda-feira, 13 de abril de 2015

2 Metros Quadrados (2014)

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2 Metros Quadrados de Ana Luísa Oliveira e Rui Oliveira é um documentário português que marcou presença na Maratona de Documentários da sexta edição do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que termina no próximo dia 15 no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Este documentário leva-nos a uma experiência pela zona norte do país, mais concretamente pela cidade do Porto e Gaia, onde o espectador obtém um conjunto de informações sobre um outro lado da sociedade portuguesa que tantas vezes optamos por ignorar mas com a qual vivemos tantas vezes bem de perto.
Começamos por conhecer Daniel Horta Nova, jornalista que se viu obrigado a viver na rua durante algum tempo e num espaço limitado e com o desconhecimento daqueles com quem mais de perto convivia - a sua família - foi obrigado a viver na rua. Com a sua experiência enquanto jornalista escreveu um livro - Farrapos de Alma - e hoje, já fora desta vida, mantém um olhar crítico não só sobre o Estado que tão pouco se preocupa com aqueles que se vêem obrigados a viver na rua, como também para as próprias associações sociais de apoio que, por vezes, vivem de um rosto que nem sempre corresponde à realidade - com o claro exemplo dos donativos de roupa que tantos anónimos fazem e que frequentemente não chegam àqueles que delas necessitam.
Conhecemos também Moisés e Renato. O primeiro vindo de Angola e agora pelas ruas de Portugal que o levaram a partilhar um quarto num edifício abandonado e degradado mas que, ao mesmo tempo, lhe garante o pouco conforto que possui. Com uma vida repleta de profissões nas quais hoje não consegue encontrar trabalho, Moisés - franco e frontal com a câmara - expõe a sua vida, o seu passado e o que acha que será o seu futuro... ou a sua falta.
Ao mesmo tempo, 2 Metros Quadrados não nos dá um retrato apenas daqueles que pensamos serem, à partida, os mais desprivilegiados da sociedade. Aqui, encontramos também aqueles que tendo mais formação ou até mais possibilidades de triunfarem numa vida tantas vezes injusta, se viram involuntariamente nas ruas, em quartos de hospedarias nem sempre muito dignas e sem o conforto digno de uma vida que se tentou levar sempre com responsabilidade.
No entanto, e muito francamente, aquilo que mais me impressionou foi aquele conjunto de informação que um documentário competente transmite para os seus espectadores - função aqui bem cumprida - ao perspectivar não só as parcerias público-privadas que lançam os sem-abrigo para pensões de pouca confiança e que são claramente locais que vivem de um indigno "mercado" - aquele das pessoas em necessidade - cobrando-lhes alugueres impensáveis para quem já tem muito pouco... ou nada. Por outro lado, e talvez aquele que a nível pessoal detectei como sendo mais chocante foi saber pelas palavras daqueles que já estiveram nesta problemática situação, que aqueles que como eu e tantos outros já contribuíram para essas mesmas associações de dita solidariedade - excepções de qualidade serão feitas obviamente - com roupa ou outros bens os deram pensando serem utilizados por aqueles que deles necessitam e que, na prática, apenas foram utilizados para um igualmente exploratório mercado nunca tendo chegado às mãos de quem precisava.
2 Metros Quadrados cumpre aquele propósito que acho faltar por tantas vezes a um documentário, ou seja, o seu lado humano. Aqueles elementos que transformam um história real dando-lhe o seu devido e merecido rosto ultrapassando os factos e os gráficos talvez mais fáceis de mostrar mas menos reais na sua componente social e humana - afinal, é de pessoas que falamos.
E finalmente fez-me também pensar no lado institucional - afinal, também ele importante - e de um Estado - seja ele qual fôr - que pactua e fomenta um sistema que lança voluntariamente os seus cidadãos para a rua, para condições desumanas e para os perigos de uma sociedade moderna que espreitam em todas as vielas. Estado esse que tem na sua lei fundamental - a Constituição que tantos temem - a defesa do seu valor máximo: a vida Humana.
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"Daniel Horta Nova: Com tristeza descobri que estar longe de tudo é estar aqui na rua."
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