segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Bad Moms (2016)

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Mães à Solta de Jon Lucas e Scott Moore é uma longa-metragem norte-americana de comédia da mesma equipa que esteve por detrás do argumento da trilogia Hangover (2009), (2011) e (2013).
Amy (Mila Kunis) é uma mãe com excesso de responsabilidade num lar que não a compreende, num trabalho que não a respeita e num casamento no qual o marido não lhe é fiel. Quando tudo parece estar a ruir à sua volta, Amy conhece Carla (Kathryn Hahn) e Kiki (Kristen Bell), duas mães às quais, tal como ela, não lhes é reconhecido o devido mérito e valor. Quando a sua união na rebeldia afronta a toda poderosa Gwendolyn (Christina Applegate), Presidente da Associação de Pais, as três mulheres percebem que apenas na sua amizade e na sua liberdade poderá residir a resposta a todos os seus problemas.
Tendencialmente adverso que sou a estas comédias que se assumem desde o primeiro instante como "brejeiras" em excesso, o facto é que acabo por não conseguir resistir a vê-las na esperança de poder ou simpatizar ou, por outro lado, fazer um daqueles comentários mordazes e sarcásticos deixando a verve correr com satisfação. Aqui, com Bad Moms prevaleceu a primeira hipótese. Reunindo aquilo que de melhor foi feito com Hangover onde um conjunto de homens amigos adultos e eternos adolescentes revivem uma juventude que já passou questionando-se sobre quem são na realidade num presente repleto de responsabilidades, a dupla de realizadores e argumentistas cria uma história que não sendo necessariamente para mulheres é, fundamentalmente, sobre elas. As personagens interpretadas por Kunis, Hahn e Bell são três mulheres que perdidas no e com o passar dos anos esqueceram aquilo que era fundamental... quem elas próprias eram. Com desejos e sonhos por cumprir e a viverem casamentos e relações falhadas e por concretizar, carreiras profissionais nem sempre - ou quase nunca - bem sucedidas e todo um conjunto de responsabilidades acrescidas que não conseguem largar, a estas três mulheres falta a cumplicidade de um grupo de verdadeiras amigas com quem possam celebrar um pouco daquela juventude e brilho que se perdeu. Perdidas nos seus trinta's e sem grandes perspectivas ou motivos para acordarem no dia seguinte, são os pequenos detalhes da sua própria individualidade que irá premir o gatilho de toda uma nova transformação.
A "Amy" de Kunis, personagem central e à volta da qual tudo acontece, é uma mulher vítima dessa perda de individualidade. Mulher adulta, dona de uma carreira que na realidade não tem, mãe, mulher, dona-de-casa vive concentrada em todos alegrar sem na realidade perceber quem é ou o que a faz ser feliz. Dotada de uma capacidade extrema de deixar os demais tranquilos nos seus afazeres assumindo até as suas responsabilidades e tarefas, "Amy" atinge um ponto de ruptura com uma traição dentro da sua própria casa e que desconhecia. É depois de toda uma sucessão de acidentes de percurso, de tarefas mal executadas e de atingir o ponto mais baixo da sua vida - pensa ela - que o improvável apoio chega de mulheres que, tal como ela, são consideradas (até pelas próprias) como nódoas numa existência sem sentido.
É a tal relação e proximidade por identificação que as transforma. De meras conhecidas a amigas que partilham objectivos, com defeitos e qualidades que se complementam das formas mais inesperadas e que, a seu tempo, as fazem sentir aquilo que já haviam esquecido... pessoas com a sua própria individualidade e personalidade. Com as suas expectativas, sonhos, desejos, ânsias e claro... a eterna vontade de serem realmente amadas por alguém que delas goste... tal como são.
Se Kunis incorpora um certo estilo narrativo e personagem principal de uma história que, na realidade, todos nós podemos identificar em alguém que conhecemos, são as suas parceiras de crime - pelo bem e pelo mal - que resgatam os melhores e mais ousados momentos de comédia de Bad Moms. De uma eterna secundária como Kathryn Hahn que com a sua "Carla" confere os momentos mais ousados e sexuais desta longa-metragem numa interpretação que consegue impôr-se pela sua estranha e invulgar sensualidade a uma eventualmente inocente e tímida Kristen Bell que com a sua "Kiki" revela ter o seu próprio fogo por revelar numa interpretação de uma mulher submissa - e passivo-agressiva - que mais do que "Amy" precisa impôr-se numa relação marital e familiar onde é o capacho de serviço. É a sua primeira saída em grupo - já quase sem noção dos seus próprios sentidos - que lança o mote àquilo que faltava nas suas vidas... uma boa dose de loucura, toda ela exposta numa ida às compras.
No entanto, seria injusto falar do trio protagonista sem referir a actriz que completa a quadra... Christina Applegate que regressa em boa forma desde The Sweetest Thing (2002), de Roger Kumble e aqui como a vilã de serviço capaz de sodomizar e torturar todos aqueles que vão contra a sua vontade e ordens mas que é, também ela, uma cruel insatisfeita com os destinos que a sua vida levou comprovando, uma vez mais, que se escondem por detrás de todos os maus actos de alguém, as amarguras e desejos pro cumprir que aos poucos vão eliminando o sonhador que em tempos se foi.
No fundo Bad Moms será aquilo que se poderá chamar de o outro lado de um filme sobre a adolescência, ou seja, aqui o espectador observa todos aqueles que estão por detrás desse tão importante período na vida de cada um onde todas as transformações e descobertas se evidenciam mostrando, por sua vez, aqueles que os guiam... os pais. Pais que se esqueceram de si quando percorriam como observadores o caminho dos filhos... Pais que tantas vezes tudo abdicam por um futuro melhor para os seus... Pais que se esquecem da sua própria individualidade, desejos, segredos, sonhos, desejos e aspirações porque um dia "perceberam" ter alguém que era mais importante do que eles e que, quando os filhos já têm as suas próprias ambições, param e pensam... "e agora?"...
Muito ao estilo de Hangover mas agora com um elenco predominantemente feminino, Bad Moms exerce o mesmo efeito que a referida trilogia conseguindo captar a atenção de um público também masculino por revelar não só o outro lado de uma dupla como pelo humor divertido, por vezes assanhado e sempre mordaz que uma comédia fresca e bem disposta deve(rá) ter, com um ritmo intenso e poucos momentos que o espectador possa considerar "over the top" e um elenco com quatro grandes actrizes sempre dispostas a dar o seu melhor com garra, alma e muita atitude.
Não foi preciso ir para Las Vegas... Bad Moms revela que nos pacatos e eventualmente conservadores subúrbios de uma atarefada Chicago também existem histórias disponíveis - e altamente recomendadas - para serem contadas.
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7 / 10
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