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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Knock (2018)

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Knock de Marcos Cabrero e Jorge Cimiano (Espanha) é uma das curtas-metragens das secções paralelas da nona edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cine numa história que revela um sofrimento vivido em silêncio quando o espectador conhece uma mulher (Consuelo Carravilla) que repete ciclicamente pequenos rituais domésticos que, à partida, parecem não fazer sentido até se reconhecer algo de profundo que os mesmos escondem.
Aquilo que aparentemente poderia parecer como uma casa igual a tantas outras, uma mulher habita e faz transparecer um dia igual a tantos outros mas que, na sua essência, assume uma marcante diferença pela expressividade e repetição dos seus actos. Mas esta não é uma repetição qualquer. Tudo, nos seus actos, faz evidenciar um latente desespero que transforma não só os mesmos como os comportamentos daí derivados como angustiantes acções que a lançam num espaço perdido independentemente do seu propósito.
O tempo passa. Passa sem um ritmo próprio o que a faz encontrar-se perdida numa azáfama que não tem fim como, ao mesmo tempo, assume a sua distância de um mundo que gira "lá fora". O seu, no entanto, perde-se num labirinto de pensamentos não compreendidos - eventualmente até pela própria - o que faz dela uma prisioneira primeiro da sua mente, depois do seu espaço e finalmente de, e para, o mundo que se encontra para lá dos seus domínios.
Num registo que oscila entre o controlo e o descontrolo, claro exercício de uma bipolaridade ou doença do foro mental possivelmente não diagnosticado, Knock - numa clara alusão às tentativas de "bater às portas" de uma mente presa em si própria -, esta dupla de jovens realizadores concentra a sua atenção neste que é um tema tantas vezes esquecido e que se "esconde" por detrás de uma vergonha não controlada mas assumida sim num silêncio constrangedor (para a vítima). Interessante sob uma perspectiva de alerta social, a curta-metragem da dupla Cabrero/Cimiano merecia mais tempo e mais exploração deste "dia" como tantos outros de uma mulher nas margens do seus próprio pensamento.

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6 / 10

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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Kidnap (2017)

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Rapto de Luis Prieto é uma longa-metragem norte-americana e a mais recente obra de Halle Berry aqui como Karla, uma mulher que vê o seu filho raptado por dois estranhos sendo que, de seguida, os persegue na tentativa de recuperar Frankie (Sage Correa), o seu filho.
O argumento de Knate Lee não foge à premissa de tantas outras obras do género. O espectador encontra aqui uma mãe solteira, com um trabalho precário e que passa os seus dias na tentativa de dar uma vida digna ao seu filho e impedir que o pai obtenha a custódia total do mesmo. No fundo, encontramos aqui a vítima perfeita quer da sociedade quer de todo o tipo de marginais que queiram ganhar a vida à custa de golpes macabros e redes de tráfico de menores para destinos incertos e futuros improváveis, deixando para trás todo um rasto de destruição emocional caso os seus propósitos saiam vencedores. No entanto, e contrariando talvez o tradicional comportamento da vítima, aqui "Karla" decide, de forma impulsiva, tomar o controle sobre o seu destino bem como o do seu filho.
Num estilo de road movie repleto de acção e perseguições por vezes alucinantes, "Karla" é uma mulher condicionada no seu próprio espaço. Refém da vontade de dois raptores cuja vontade é sempre incerta e limitada pela falta de comunicabilidade dentro do veículo após ter perdido o seu telemóvel através do qual poderia ter pedido auxílio, esta mulher decide abandonar a perspectiva de vítima transformando-se - involuntariamente - numa caçadora em alta velocidade e não perder de vista o carro onde segue o seu filho conseguindo aqui aquele que é, eventualmente, o elemento potencialmente diferenciador desta história em relação às demais do género.
Através de toda uma história a um relativo frenético passo - à excepção do segmento inicial onde se fica a conhecer aquela que é a vida de "Karla" presa a um trabalho que garante a sua sobrevivências mas que, ao mesmo tempo, a remete a uma vida de abusos profissionais - Kidnap é assim aquele filme de acção cuja história é já conhecida de antemão pelo espectador. Isento de surpresas ou de momentos reveladores - para as personagens ou para os espectadores - Kidnap centra a sua dinâmica na vontade de uma mãe em não desistir de resgatar o seu filho e não se auto-condenar a uma vida de espera na qual as autoridades tomam as rédeas de uma investigação que (tal como (nos) é alertado) remete a busca pela vítima a um conjunto de fotografias na parede que nunca irão resultar em grandes conclusões. Numa situação em que a vítima se pode perder ou na qual pode ser capturada por aquela com quem tem a sua maior ligação, Kidnap é assim o relato de uma mãe que não desiste independentemente de todas as adversidades com que depara.
Halle Berry enquanto actriz - e aqui também produtora - é o nome e figura central de toda esta história. Todos os demais actores são meros acessórios para a promoção de uma única personagem interpretada por si mas que, rodeada de frases cliché e lugares comuns por todo o argumento, não consegue manter a dinâmica de uma personagem que se quer dramática ou de um filme de acção suficientemente relativo e que promova a sua personagem e o seu trabalho mantendo-se, na sua quase totalidade, um daqueles filmes que pretende misturar o blockbuster com o drama de acção mas que, na realidade, entretém nos seus noventa minutos de duração mas deixa, no final, uma sensação de que poderia ter ido mais longe para lá da acção moderadora de "é isto que se passa pelo mundo relatado pelos mais variados noticiários"... Que os raptos acontecem já nós sabemos... que eles devastam famílias e que, em muitos casos, nunca são resolvidos... também o sabemos. Assim, Berry não encontra aqui "aquele" filme que volte a projectá-la para lá da saga X-Men para o campo das interpretações dramáticas (como seria claramente o objectivo com esta obra), contribuindo apenas para a sua manutenção sob mira do espectador que quer a sua presença no grande ecrã mas, no entanto, com projectos artisticamente mais complexos e melhor elaborados do que o thriller tradicional onde, no fundo, qualquer actor poderia participar sem grandes problemas a nível de construção de personagem - que, também a sua "Karla" não desenvolve emocionalmente o suficiente para lá do expectável.
Com um ou outro segmentos melhor desenvolvidos e uns secundários - os raptores claro está - que poderiam ter uma maior profundidade (independentemente das suas motivações claramente direccionadas para o enriquecimento ilícito), Kidnap é um regular filme de acção, medianamente estruturado para cumprir os seus propósitos mas que, na realidade, pouco mais além vai do que um simpático thriller.
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5 / 10
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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Kuso (2017)

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Kuso de Flying Lotus é uma longa-metragem norte-americana presente na secção Serviço de Quarto da décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre até ao próximo Domingo no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Depois de um devastador terramoto atingir a cidade de Los Angeles, o espectador acompanha um conjunto de sobreviventes bem como à sua estranha e grotesca existência.
Apresentado como um filme sensação pelos diversos festivais de cinema por onde já passou, esta história cujo argumento é assinado pelo realizador em colaboração com David Firth é literalmente aquilo que qualquer um de nós pode chamar de um filme de merda. Que me desculpem os mais puritanos pela linguagem - que existe no dicionário de língua portuguesa por isso... não entremos em nenhum fanatismo puritano -, mas Kuso é sob todas as possíveis e imaginadas vertentes... um filme de merda. Senão, vejamos...
Depois do tão badalado terramoto do qual o espectador não é testemunha, encontramos todo um conjunto de bizarras e alternativas personagens marcadas por intensos furúnculos faciais e demais deformações físicas que passam por chagas e aparentes mutilações, cujo único propósito é o elogio à deformação, ao anormal e à aberração voluntária alternando entre personagens reais e fictícias como que todas elas saídas do mais profundo espaço do intestino do planeta. Não, não nos encontramos perante demónios... encontramo-nos sim perante os excrementos que ousaram sair das profundezas da Terra aqui apresentados como "humanos"... bem alternativos.
Tudo - das personagens ao espaço que habitam sem esquecer a sua própria apresentação - é do mais profundo asqueroso que qualquer espectador pode imaginar. Entre a excitação pela violência à existência de fezes humanas em forma de cus anormais, aqui podemos encontrar de tudo. Sado-masoquismo, mutilação, auto flagelação, infecções que se sucedem entre segmentos de ficção e de animação que parecem querer dar vida a um estranho e bizarro pesadelo onde o susto reina pela deformação e pelo aspecto asqueroso que cada uma destas personagens parece querer personificar.
Pelo meio reina a coprofagia - necessidade de ingestão de fezes - e por "necessidade" quero realmente dizer que existe uma constante em Kuso que leva as suas personagens a conviver com fezes que falam, que existem mais altas do que seres humanos já criados, que emergem de todos os locais, que servem de alimentação, como pretexto de excitação sexualmente e que levam alguns dos intervenientes a gostarem de nelas se banhar ou mesmo sair de sanitas onde outros acabaram de se aliviar - eis o filme de "merda" a ganhar vida - e tudo como se fosse uma prática normal... com ou sem terramoto.
Acredito em movimentos vanguardistas que pretendem possibilitar ao espectador novas abordagens quer sob a forma de filmar ou até mesmo na capacidade de contar histórias de outras formas que vão para lá do tradicional. No entanto, Kuso é um projecto que apenas se concentra em dar vida a devaneios pseudo-artísticos do seu realizador (con)centrado no choque pelo grotesco, no espectador apenas como forma de um lucro fácil tentando criar um filme porno que não o chega a ser - poupem-me ao segmento inicial onde o esperma é rei - e um filme apocalíptico onde o fim do mundo apenas chega sob a forma dos seus intérpretes que devem estar no seu fim para ceder a participar em algo como "isto".
Degradante - para quem o fez - humilhante - para o espectador interessado em cinema - e grotesco ou nojento sob todas as possíveis perspectivas pelas quais possa ser observado, Kuso não é o filme mais nojento de sempre... pelo contrário... Kuso é simplesmente a maior aberração cinematográfica dos últimos cem anos e isto não é dito sob a forma de qualquer elogio escondido.
Receptivo que estou e sou a todas as formas de cinema e todas as potenciais histórias que podem, devem e querem ser contadas... Kuso é simplesmente algo tão ou mais deformado do que aquilo que (alguma vez) foi contado onde sexo e merda se juntam como se dois gémeos siameses fossem.
A pior aposta - de sempre - do MOTELx... Cinema? Isto? Não obrigado!
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1 / 10
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Kaleidoscope (2016)

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Kaleidoscope de Ruper Jones é uma longa-metragem britânica em competição para o prémio de Melhor Longa-Metragem de Terror Europeia na décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Carl (Toby Jones) é um inadaptado. Tendo como única e esporádica companhia a vizinha do lado, Carl tenta conhecer a mulher dos seus sonhos e que dê algum sentido a uma vida aparentemente insignificante. Quando Carl conhece Abby (Sinead Matthews), longe estaria de perceber que a sua vida iria alterar-se radicalmente e despertar os seus demónios interiores personificados na figura de Aileen (Anne Reid) a sua possessiva e disfuncional mãe.
O ambiente recriado com o argumento de Rupert Jones é, desde os instantes iniciais, prenúncio de uma espiral descendente na mente do protagonista. De início o espectador compreende-o como um homem solitário e triste a quem a vida não deve ter sorrido nem deixado grande esperança sobre um amanhã que se faz anunciar mas que nunca se cumpre com a positividade que dela ele espera. No entanto, é à medida que a trama avança que se compreende que este homem é, para lá de um inadaptado, alguém com um passado que o distanciou de uma normal convivência com o seu semelhante, remetendo-o para um espaço de auto-isolamento que é mais ou menos compreendido pelo mesmo como aquele em que tudo irá estar - pelo menos - coerente.
A breve convivência de "Carl" com "Abby" é subitamente ensombrada com a presença de "Aileen" - a mãe dele - que chega como uma pesada consciência que não o quer libertar de um passado que lentamente é compreendido pelo espectador como portador de um terrível e temido segredo que poderá - e será - a causa de toda a apatia social que o condena. Se até então "Carl" era o tal simpático inadaptado, agora o espectador irá passar a observá-lo enquanto um homem capaz de tudo para se libertar desse passado, capaz de tudo cometer para a ele sobreviver mas sobretudo incapaz de se libertar da imagem materna que o deixou num estado de adulto-infantil que cede a caprichos e a vontades biológicas inerentes ao desenvolvimento do seu próprio organismo.
Com uma clara mensagem subliminar de homenagem a filmes como Psycho (1960, Kaleidoscope esconde por detrás deste turbilhão de emoções, o seu verdadeiro lado negro. Percebemos que "Carl" se afastou de qualquer ligação familiar por um evento que marcou a mesma. Percebemos que a tensão e a pressão desses acontecimentos o marcaram de forma irreparável e sobretudo que pequenos momentos o transportam a esse mesmo lugar que, passados anos, não deixaram de existir enquanto traumatizantes. O caleidoscópio que guarda religiosamente e que lhe permite ver toda uma nova tonalidade de cores e todo um diferente universo - mais tarde no filme perceberemos o porquê - é o motor de toda essa espiral descendente e só quando iniciado perceberá o espectador tudo o que se esconde por detrás da inaptidão de "Carl". A sua incapacidade de amar - ou deixar-se ser amado - fruto de um claro abuso materno psicológico, físico e mesmo sexual e de uma constante dominância que a figura materna ainda exerce sobre ele - e que deixam o espectador numa incerteza se ela de facto se encontra ali ou se a possibilidade de um amor a fazer despoletar - levam a que o protagonista se isole dentro do seu próprio mundo e dentro de um conjunto de pensamentos que o levam à sua própria destruição.
Neste ambiente constantemente dúbio e de incertezas onde todos parecem conspirar contra a sanidade de "Carl", mas que mais não são do que o resultado de uma sociedade que se aproveita do elo mais fraco e do próprio trauma resultante da sua anterior condição de vítima, Kaleidoscope leva o espectador a uma enigmática mas perturbante viagem à mente de um homem com um passado que o marcou - marca?! - enquanto uma vítima, e às inúmeras defesas que essa mente cria enquanto mecanismo de sobrevivência social, pessoal e emocional deixando-o num constante limbo entre o real e o irreal e ao espectador com a certeza de que esta mente perturbada e incerta está sujeita a que todas as pressões externas o façam, a qualquer momento, ceder não prevendo as potenciais consequências.
Rupert Jones - realizador, argumentista e irmão do protagonista - consegue retirar de Toby Jones uma das suas mais controladamente intensas interpretações dos últimos anos, transformando-o num potencial eremita cujo seu ponto de ruptura pode a qualquer momento rebentar, e confere ao seu Kaleidoscope o estilo de um bem executado thriller moderno capaz de manter o suspense e o espectador em suspenso sobre o desfecho de um conjunto de personagens que habitam uma aparente realidade paralela e uma constante questão... estará todo o demais mundo a suspeitar da "minha" existência... ou estarei "eu" afastado da realidade enquanto tal?!
Até ao momento uma das mais fortes apostas do MOTELx e um sério candidato ao troféu de Melhor Longa-Metragem de Terror do ano nesta décima-primeira edição do festival. Recomendo não só pela interpretação de Jones como principalmente por toda uma atmosfera claustrofóbica e de vontade de evasão que se consegue recriar dentro de um pequeno - senão minúsculo - apartamento onde tudo parece estar a acontecer.
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7 / 10
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Killing Reagan (2016)

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Killing Reagan de Rod Lurie é um telefilme norte-americano que se centra na tentativa de John Hinkley assassinar o então Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan.
Dos dias finais da campanha Presidencial da qual Reagan (Tim Matheson) sairia vencedor aos meses depois da sua recuperação do atentado de que seria algo nas primeiras semanas do seu mandato, Killing Reagan leva o espectador a uma viagem pela dinâmica da sua administração bem como a conturbada vida de Hinkley (Kyle More), o homem que o tentaria assassinar.
Dos inícios de Outubro de 1980 a finais de Março de 1981, o espectador tem através do argumento de Bill O'Reilly e Eric Simonson um breve vislumbre sobre quem foi Reagan o candidato e posterior Presidente dos Estados Unidos, daqueles que o rodeavam na sua campanha e que sentiam o clima de incerteza sobre a sua eventual - ou não - vitória, bem como da sua mulher Nancy (Cnthia Nixon) que com ele vivia não só um amor e dedicação permanente como também um clima de acérrima protecção que lhe valeram (então) a alcunha de "dragon lady".
Mas falar de Reagan não é só sobre o "homem" mas também sobre o seu tempo e o clima sentido no início da década de '80 em que longe da imaginação de qualquer mortal se desenhava, além fronteiras, todo um novo mapa político e geográfico que os finais da mesma década viriam a confirmar. No entanto, e por muito estimulante que seja esta narrativa, aqui o espectador apenas tem esta noção como "pano de fundo" suscitada com aquilo que se tenta recriar enquanto assunto principal... a tentativa de assassinato. "Hinkley" (More) é um homem nos seus trinta's perdido em sonhos alucinados sobre os inúmeros desejos que tem para a sua vida... De escritor de sucesso a vocalista de uma banda rock, "Hinkley" perde-se em apáticas alucinações sobre o que quer sem que para elas tenha contribuído de alguma forma positiva e deixando o tempo passar enquanto se isola nos seus pensamentos e devaneios sobre uma platónica e obsessiva paixão por Jodie Foster.
Para lá desta dinâmica de obsessão versus infantilidade com que aqui é retratada a mente de "Hinkley" é, no entanto a forma como é exposta a relação entre o casal Reagan que mais me fascinou enquanto espectador senão vejamos... somos - desde sempre - bombardeados com a imagem de que o Presidente dos Estados Unidos é o "homem mais poderoso do mundo", detentor de todo um arsenal nuclear capaz não de destruir uma cidade mas sim todo o planeta caso "lhe apeteça" mas em Killing Reagan aquilo que o espectador observa é a dinâmica de um casal onde a mulher - Primeira Dama - vigia de perto as vontades de um homem cuja mente parece perdida - também ela - numa estranha infantilidade na qual voluntariamente interfere e manipula para que a sua imagem não se desvaneça nos inuendos dos corredores políticos e que o mantenha como o já referido "todo poderoso" Presidente.
Gentilmente referido pela própria "Nancy" - numa vibrante interpretação de Cynthia Nixon posso acrescentar - que a imprensa a tratava por "dragon lady" (mulher dragão) pela forma como se mostra aparentemente frágil mas forte e determinada pelo uso das suas palavras, é esta personagem real que mais fascina o espectador e que, de certa forma, deixa mais desejo por ser conhecida e revelar a não tão doce faceta que as suas fotografias deixam passar. No fundo aquilo que fica em aberto - ao e para com o espectador - será até que ponto não terá esta mulher influenciado, manobrado ou manipulado a vontade do seu marido em determinados assuntos - pessoais e ou de Estado - se tiver em conta que o Ronald Reagan que aqui é apresentado mais não é do que um "miúdo grande" que descobriu que agora tem "algum" poder.
Longe de criar algum suspense - afinal a história já é conhecida - ou até mesmo intensidade pois as personagens principais são meramente exploradas de acordo com os factos conhecidos e não necessariamente o seu fundo psicológico determinante para todas as dinâmicas - pessoal e política nos corredores de Washington ou pessoal no que a "Hinkley" diz respeito -, Killing Reagan acaba por se transformar num documentário ficcionado - pelas personagens não pelos acontecimentos - que cria algum interesse no espectador mas que o faz querer ver mais daquelas pessoas tão... caricatas.
No final, e com algum fundamento de criar no espectador uma empatia pela caridade, Killing Reagan acaba por mostrar Ronald Reagan o homem conciliador, peça fundamental na queda do muro de Berlim (ou pela menos aquele que deu os primeiros passos em tom paternal e "amigo") e uma grande figura a padecer da doença de Alzheimer que nunca esqueceu a família, o povo e o país e o seu dever maior para com os mesmos graças a uma "carta aberta" que a todos endereçou.
Disperso em diversos momentos pela vontade de concentrar em pouco mais de noventa minutos toda uma história que poderia ter sido ou mais fragmentada ou mais longa, Killing Reagan acaba por ser um interessante aperitivo daquilo que poderia ter sido explorado e apresentado mas que, na realidade, ficou guardado para outra altura... No fundo... aquece mas acaba por ser pouco "servido" limitando-se a ficar brevemente recordado pelas interessantes e algo enigmáticas interpretações do seu trio protagonista.
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6 / 10
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Koca Dünya (2016)

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Koca Dünya de Reha Erdem é uma longa-metragem turca presente na Secção Oficial - Em Competição da décima edição do LEFFEST - Lisbon & Estoril Film Festival que decorre até ao próximo dia 13 em várias salas da região de Lisboa.
Ali (Berke Karaer) e Zuhal (Ecem Uzun) são dois adolescentes que foram criados como irmãos num orfanato. Ao atingir a maior idade, Ali abandona o local enquanto que Zuhal é levada para um lar de acolhimento onde se prepara para um casamento combinado.
Impedidos de se comunicarem, os dois adolescentes fogem para uma floresta próxima após Ali ter cometido um terrível crime que o impede de permanecer na civilização tal como a conhecem. Mas quando Zuhal sofre um acidente, este contacto tem novamente de surgir.
Vencedor do Prémio Especial do Júri da Secção Orizzonti na última edição do Festival Internacional de Veneza, Koca Dünya é uma história presa a um acentuado elemento místico que une a sombra de um mundo real àquela de um espaço imaginado e inúmeras referências bíblicas que são habilmente transformadas a uma era dita moderna.
Os primeiros instantes desta longa-metragem levam o espectador para aquela que parece a história disfuncionar de dois irmãos que, separados de uma figura parental, resistem e sobrevivem nas malhas paralelas de uma sociedade nem sempre benemérita. Por um lado um irmão - recém adulto - que sobrevive com biscates e do outro a sua jovem irmã que vê toda a sua vida "limitada" pelo inevitável casamento com um homem muito mais velho que a sustentará e a quem ela deverá servir sem questionar.
Se a fatalidade da vida não fosse por si só condicionante, tudo parece ganhar contornos mais sérios e, esses sim, determinantes quando para se libertarem de um jugo social previamente estabelecido se vêem envolvidos num triplo homicídio cujas consequências são incertas para ambos. A única solução encontrada para este par de sonhadores - que na realidade não partilham nenhum laço de sangue mas sim afectivo - é refugiarem-se na ideia de uma nova sociedade que "constroem" numa floresta recriando uma vivência surreal e fantástica sobrevivendo dos bens que a própria fornece e de uns quantos trabalhos que "Ali" mantém. É então que a dimensão quer filosófica quer fantástica e até mesmo histórica e religiosa ganham forma ao transformar neste espaço aparentemente idílico no já de todos conhecido Jardim do Éden. Um casal, perdido no meio de um espaço deserto de vida humana - ou pelo menos assim o pensamos até confirmarmos que não é bem assim - e cuja única companhia é a vida animal nativa que cruza os mesmos caminhos que eles, comem frutos que as árvores fornecem e são ensombrados com a "visita" de uma serpente que convenientemente "protege" os frutos proibidos sem, no entanto... os proibir assim tanto.
Mas esta floresta vai revelando que não é tanto um Éden como poderá ser um limbo... Um local perdido no tempo e no espaço e onde aqueles que pretendem fugir de um fim incerto encontram um refúgio tendo de pagar um elevado preço... uns com a vida... outros com a fome... e outros até com a sempre presente ameaça à sua segurança que pode ser colocada em risco por todos os inocentes perigos que espreitam a cada "esquina".
Se por um lado o espectador se deixa deslumbrar com o lado metafórico e até fantástico de uma história que esquece a realidade do mundo que ficou para trás, é também justo afirmar que ainda que estando dinamizado o conteúdo - e a forma - de uma floresta (não) encantada, o mesmo deixa-se levar por um certo misticismo e loucura que o faz esquecer sobre a eventual veracidade - e possibilidade - de uma vida paralela num espaço que está, na prática, a poucos metros de uma estrada movimentada. Ninguém teria interesse em procurar estas "vítimas" de uma vida desfeita deixando-os circular sem rumo ou propósito até ao próximo crime? Até que ponto está desinteressada a lei de um país para procurar os culpados desse mesmo crime e, em última análise, quem serão os verdadeiros culpados numa história que parece não ter inocentes?!
Com uma segura interpretação revelação de Berke Karaer como um jovem levado ao limite num mundo que parece não ser feito para aqueles que não têm uma base segura de sobrevivência, um facto é que são a direcção de fotografia de Florent Herry e a música original que conseguem criar não só a linha condutora desta história como principalmente toda a recriação de um ambiente fantástico e imaginado que aproxima Koca Dünya de um conto de fadas... pouco tradicional.
Eventualmente um filme pouco fluído e que apenas consegue prender o espectador aos seus instantes de um invulgar género "fantástico", esta longa-metragem turca é, no entanto, um intenso relato sobre a mente e o propósito de uma geração perdida nas promessas não cumpridas de um passado que é, também ele, difuso e disperso levando aqueles que são o amanhã a regressarem à vida numa sociedade que não construíram, para a qual não são escutados e que tão pouco tem interesse no contributo que a ela podem deixar.
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5 / 10
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Konãgxeka - O Dilúvio Maxakali (2016)

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Konãgxeka - O Dilúvio Maxakali de Isael Maxakali e Charles Bicalho é uma curta-metragem de animação brasileira presente na Sessão #4 do Shortcutz Rio de Janeiro, que relata o castigo dos espíritos pela ganância dos homens.
O grande dilúvio (Konãgxeka) como a representação indígena do castigo divino após os maus tratos e o desrespeito do Homem para com o planeta e seus recursos é o grande mote desta animação que recupera as tradições indígenas de um grande Brasil e o conta numa dessas línguas ancestrais prévias ao domínio do português no país.
Quando um dos habitantes de uma tribo salva uma lontra de um rio, esta retribui a proeza com a promessa de um pescado farto para o resto das suas vidas. No entanto, todas as promessas têm um retrocesso e do homem exige que este a alimente com três dos maiores peixes de toda a lota. Mas, quando a promessa falha... a catástrofe chega ao Homem.
Com uma clara mensagem ecológica e ambiental como se de uma história sobre o desenvolvimento sustentável se tratasse, Konãgxeka - O Dilúvio Maxakali apela de forma inteligente - e acessível a todos os públicos - ao respeito por um planeta desgastado, mutilado e devassado das suas propriedades naturais em nome de uma ganância do Homem que ambiciona um lucro fácil onde tudo vale para viver com opulências não primárias e com o desgaste do meio ambiente que pouco ou nada se consegue renovar e sustentar as gerações futuras. O dilúvio é, portanto, marca dessa tentativa de regeneração, desse novo começo e dessa vontade de uma nova oportunidade livrando-se, entretanto, da "doença" que o (ao planeta) afecta... o Homem.
Inteligente pela forma como aplica os contos tradicionais a uma realidade presente bem como pela abordagem através da animação e sobretudo de uma língua indígena dessa grande Brasil, Konãgxeka - O Dilúvio Maxakali evidencia-se pela mensagem e pela sempre actual mensagem ecológica e ambiental que aqui pretende transmitir.
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6 / 10
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sábado, 4 de junho de 2016

Kiki, el Amor se Hace (2016)

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Desejos, O Amor Faz-se de Paco León é a mais recente longa-metragem espanhola a encontrar distribuição em Portugal (felizmente), naquele que é um brilhante resultado da mais pura comédia do novo cinema espanhol e uma divertida amálgama de pequenas e hilariantes histórias sobre a sexualidade.
Natalia e Álex. Paco e Ana. Maria Candelaria e António. José Luís e Paloma. E Sandra. Quatro casais e uma solitária. Todos eles com os seus problemas sentimentais e sexuais vividos num silêncio agonizante até que descobrem (descobre o espectador) aquilo que os faz despoletar e sentir a sua sexualidade verdadeira.
Por entre um conjunto de momentos dramáticos - muito leves - que apenas servem de preâmbulo à comédia que cada uma das referidas personagens encarna, Kiki, el Amor se Hace é uma forte e inteligente comédia que não deixa o espectador indiferente. Se o sexo já não é tabu - muito menos o é no cinema -, será justo dizer que Paco León o filma de forma inteligente desmistificando velhos tabus, humanizando-o bem como ao prazer que é - deverá ser - inerente à sexualidade.
Neste filme acompanhamos então quatro casais e uma solitária. "Natalia" (Natalia de Molina) e "Álex" (Álex García) são um jovem casal com os seus fetiches inconfessáveis. Ele gosta de lamber e chupar pés enquanto ela parece obter um prazer inesgotável quando colocada em situações de risco como, por exemplo, assaltos violentos. "Paco" (Paco León) e "Ana" (Ana Katz) vivem uma vida matrimonial apagada pelos receios que têm em comunicar... Até que surge "Belén" (Belén Cuesta) que desperta - em ambos - uma libido receada... por ambos. "Maria Candelaria" (Candela Peña) e "António" (Luís Callejo) são um casal apagado pela incapacidade de se tornarem pais. Incapaz de sentir desejo pelo marido, "Maria Candelaria" descobre que se excita com o sofrimento e as lágrimas alheios. Depois do acidente de "Paloma" (Mari Paz Sayago), "José Luís" (Luís Bermejo) vive um silencioso desgosto por apenas receber amargura de uma mulher agora limitada nos seus movimentos sendo esta testemunhada por "Lorelei" (Rea Gutiérrez) a empregada filipina que deseja uns seios maiores. E finalmente temos "Sandra" (Alejandra Jiménez) que se sente limitada não só pela sua deficiência auditiva como principalmente pela sua sexualidade apenas despertar quando observa certos tecidos a roçar junto da pele.
Incapazes de viver uma vida feliz e descomplexada, Paco León filma as limitações sentimentais fruto de uma incomunicabilidade sentida entre casais no seio das suas relações. O desejo que deu lugar a uma sentida "normalidade" e quase indiferença sentimental/sexual, transformou todos eles em apáticos que vivem pela rotina de uma relação que não os completa ou satisfaz. Contrariamente a Nymphomaniac (2013), de Lars Von Trier onde a sexualidade e o desejo são o retrato de uma doença psicológica incompreendida e mal tratada, esta longa-metragem espanhola remake da australiana The Little Death (2014), de Josh Lawson é o retrato de uma liberdade - e libertação - sexual que não só são saudáveis como são, principalmente, o motor para um conjunto de relações que estavam adormecidas e até mesmo extintas.
Se todas estas duplas demonstram uma química inegável, existem pequenos grandes momentos que as tornam únicas e memoráveis como, por exemplo, com a dupla "Natalia" e "Álex" e o seu assalto encenado que acaba por não correr tão bem como esperado, ou o momento entre "Paco" e "Ana" no bar fetichista onde resolvem passar uma noite de fim-de-semana, sem esquecer todo o segmento entre os "classe alta" "José Luís" e "Paloma" em que esta - durante o seu sono - é sujeita a todo o tipo de aventuras por um marido que sente ser apenas com a mulher inconsciente que consegue ter momentos íntimos que o completem. Se todos estes pequenos delírios eróticos e sexuais são delirantes, aquele interpretado por uma "Maria Candelaria" na Igreja onde o sofrimentos e as lágrimas alheias lhe conferem todo o desejo sexual que algumas vez imaginou ter é, sem margem para dúvida, o mais gracioso pelo claro piscar de olho a uma Espanha profundamente católica onde o dito de "crescei e multiplicai-vos" apenas deve ser vivido no silêncio e no escuro que quatro paredes de uma casa podem conferir a um casal. E isto sem esquecermos todo o humor negro que a grande e magnífica Candela Peña consegue recriar para provocar as lágrimas num Luis Callejo desconfiado das "boas" intenções da sua "Maria Candelaria". Finalmente, é impensável esquecer a "relação" - que ainda não o é - entre a "Sandra" de Alejandra Jiménez e o "Rubén" de David Mora que através de uma videoconferência levam à cena uma das cenas mais erótico-hilariantes de todo o Kiki, el Amor se Hace, para a qual contribui uma talentosa "Aixa" (Aixa Villagrán).
Com um elenco de luxo e uma movida inegável, Paco León demonstra com Kiki, el Amor se Hace uma verve almodovariana revitalizada e um dos títulos que será certamente recordado como exemplar dentro das comédias eróticas que para lá do sexo que está no centro de todas elas, se centra na dinâmica das relações inter-pessoais e de casal, sem esquecer que este (sexo) é um dos mais importantes contributos para a vida de um casal e que será apenas falando dele e da sua necessidade que a vida a dois (ou não) se evidenciará como completa. Os fetiches - debatidos e compreendidos - funcionam então não como algo "estranho" mas sim como o tal "motor" ou rampa para uma sexualidade vivida livre de complexos, de tabus ou travões imaginários que aos poucos vai colhendo a harmonia entre um casal que se ama mas que por medo da reacção do outro se oculta, se esconde e priva dessa vida completa.
E já bem perto do final quando todas as relações estão finalmente a ser vividas em plena felicidade, e ao som de "Enamorada" da dupla colombiana Pedrina & Rio que no ambiente de uma festa popular de bairro, todas as formas de amor são celebradas num ambiente de clara tolerância e compreensão - mesmo que "ignorada" pelos demais - "Sandra" encontra finalmente ao vivo um "Rubén" onde, no silêncio que a sua falta de audição lhes permite, se aceitam sem questões mas com o prazer de uma compreensão silenciosa mas satisfeita, vivida e consentida.
Longe - felizmente - vão os tempos em que o sexo era apenas e só ou um tabu ou um pretexto para as mais grosseiras comédias sem graça. Em Kiki, el Amor se Hace, e ainda que maioritariamente explícitos todos os momentos vividos pelas suas personagens, o sexo é acima de tudo uma forma de comunicabilidade que é restabelecida e uma vivência em harmonia que se completa. De disfuncional a normal, o sexo transforma-se, pelas mãos de Paco León realizador e intérprete, no veículo de comunicação agora reaberto, para que todos os casais presentes e futuros possam reencontrar toda uma alegria de viver que estava, até então, extinta das suas vidas.
Cómico, divertido, sensual, agressivo, transgressor ou aventureiro. Todos estes adjectivos ficariam - pela positiva - bem aplicados a Kiki, el Amor se Hace, esta nova comédia de Paco León que confirma, uma vez mais, ser um dos nomes fortes de um novo e revigorante cinema espanhol que não se esconde nem tem vergonha - ou tabus - de se assumir em todas as suas vertentes como grande pela forma e pelas histórias que conta através de um conjunto de actores que encarnam almas que demonstram que vale a pena viver uma vida partilhada e de forma livre.
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terça-feira, 31 de maio de 2016

Kevin of the North (2001)

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A Herança que Veio do Frio de Bob Spiers é uma longa-metragem canadiana com a participação de Skeet Ulrich, Leslie Nielsen e Natasha Henstridge.
Kevin Manley (Ulrich) é um tipo apagado e a quem a vida nunca sorriu. Conformado com uma existência desinteressante e banal, Manley recebe a notícia de que o seu avô faleceu e que lhe deixou todos os seus pertences no Alaska. No entanto, uma vez lá chegado, Manley é confrontado com a ideia de que para receber a sua herança terá de percorrer a corrida Iditarod por todo o Estado só depois recebendo aquilo a que tem direito.
Pelo meio de toda a aventura, Manley conhece Clive (Nielsen) um homem desesperado em receber os seus terrenos e ainda Bonnie (Henstridge) neta do seu rival e que poderá tornar-se na mulher da sua vida. Conseguirá ele chegar ao final da corrida com tantas adversidades pelo meio?
Independentemente da história, qualquer espectador que cresceu com os grandes êxitos dos anos 80 e 90 de Leslie Nielsen vai obrigatoriamente ver qualquer um dos filmes que este grande cómico estreava. De Repossessed (1990) a The Naked Gun (1988), (1991) e (1994) se, esquecer Mr. Magoo (1997) ou os mais recentes Scary Movie 3 e 4 de (2003) e (2006) que para lá da sua qualidade enquanto obras cinematográficas faziam as delícias dos seus fãs. Kevin of the North não é, portanto, nenhuma excepção.
No entanto, para lá de Nielsen que aqui é um contrapeso de Ulrich - apesar de algum protagonismo na longa-metragem - a realidade é que este filme fica para lá de qualquer parâmetro mínimo de qualidade que o espectador possa e deva exigir. A personagem interpretada por Ulrich está longe de conseguir ter graça. De um momento desastroso ao outro, o protagonista de Kevin of the North parece não ter um rumo a dar à sua personagem vivendo exclusivamente de um ridículo e absurdo sem fim de situações que arruínam qualquer momento mais gracioso que possa - poderia - existir. Ulrich vagueia então por um sem fim de momentos que ninguém - real - atravessaria e as repetições de "acidentes" dos quais é vítima parecem retiradas de um qualquer sketch de sitcoms manhosas e sem graça. A sua personagem , que para lá de distraído é, ou pelo menos aparenta, ser mentalmente limitado, ofende as pessoas distraídas, desastradas e vítimas dos maiores e mais inoportunos desastres na vida. Se uma única palavra chegar para caracterizar a sua personagem, essa seria "nulidade". E o pior é que são interpretações destas que conseguem - com infeliz sucesso - destruir carreiras cinematográficas.
O argumento de William Osborne é outro dos grandes erros de todo o filme. Não só transforma as personagens em exagerados cómicos de situação como, principalmente, caracteriza toda uma população de um Estado como meros pilantras desejosos de alcoól, trapaças e QI que ficam longe da média (para baixo) e que graças a essa debilidade mental apenas podem fazer concorrência a testes primários de inteligência. A mulher não é deixada de lado sendo esta um exemplo de masculinização forçada pois apenas assim se valida a sua presença num mundo que subtilmente se caracteriza como não sendo próprio para ela.
Para lá de ofensivo, Kevin of the North é o retrato de uma comédia sem sucesso, que tenta sobreviver pelo exagero e por momentos declaradamente absurdos como que o retrato de uma população voluntariamente mentalmente debilitada que até tem alguma sorte na vida... mas nem por isso consegue evoluir ou perceber o mundo de outra forma. De piadas sem graças aos já referidos momentos ofensivos sem esquecer as personagens over the top, Kevin of the North falha como comédia, filme sobre a perseverança ou até mesmo um filme de aventura que poderia ser, transformando-se numa pobre paródia de si próprio que, nem assim, consegue obter qualquer graça.
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Kuru (2016)

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Kuru de Francisco Antunez é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente em competição no Shortcutz Viseu e que nos apresenta Joana (Sara Barros Leitão), Maria (Inês Aires Pereira) e Sofia (Jani Zhao), três amigas que se preparam para uma noite de diversão e que por entre algum consumo de alcoól e droga encontram um misterioso Homem (José Mata) em diversos locais por onde passam.
Entre este Homem e Joana nasce uma imediata atracção... Poderá ela resistir-lhe?
Miguel Braga dá corpo a uma história que poderia muito facilmente ser um daqueles casos bizarros aos quais os espectadores pouca importância dão nos noticiários mas que, ocasionalmente, fazem tremer o imaginário colectivo sobre uma qualquer realidade mais obscura que qualquer um de nós prefere nem equacionar. Inicialmente temos o grupo de amigas que se preparam para uma noite de "despedida" de uma delas e, como tal, os abusos e as loucuras de uma jovem idade impõem-se. Esses mesmos abusos parecem estar lentamente a criar todo um espaço psicológico de menor discernimento e de um certo risco que se instala silenciosamente.
Num ritmo relativamente descontraído que mescla sensualidade e alguma sexualidade nas personagens que dão corpo a esta história, Kuru - nome de uma variante da doença Creutzfeldt-Jakob que seguramente a maioria dos espectadores desconhece - começa a desvendar que algo de perigoso se esconde por detrás de rostos mais ou menos inocentes mas que escapam ao imaginário daquilo que o público espera do seu potencial desfecho. Por outras palavras, Miguel Braga induz o espectador a imaginar aquilo que "vai ver" estando, no entanto, longe desta concretização que se perfila para outros domínios que seguramente qualquer um considera mais macabro.
As conversas entre o grupo de amigas são banais... Aliás, banais de mais considerando que se centram apenas em histórias do (seu) passado e momentos de flirt semi-inocente que apenas o calor da noite consegue fazer despoletar com mais intensidade. Aquilo que o espectador recebe de Kuru é, na sua essência, uma história sobre a noite de um grupo de amigas igual a tantas outras jovens mulheres que apenas querem viver a sua jovem idade. É, no entanto, graças a um misterioso José Mata - que parece perfilar-se (e bem) como o novo vilão de serviço - que a real dimensão da vida de uma delas se revela.
Ao assistirmos a Kuru e aos comportamentos das três jovens, pensamentos como tráfico de orgãos ou até um eventual abuso sexual parecem quase instintivamente ser as "realidades" que esperamos encontrar fruto de sucessivos noticiários que propagam estas situações a um ritmo que se perfila como absurdamente anormal. No entanto, aquilo que Miguel Braga consegue com o seu argumento é instalar toda uma nova realidade - e surpresa - mantendo o potencial destino de "Joana" como uma nova realidade ainda abominável demais para a considerarmos como eventual. Tal é esta (ir)realidade que o espectador nem tão pouco associa o nome desta curta-metragem a algo... real.
Sara Barros Leitão recentemente saída de Pecado Fatal (2013) e de Marta (2015) - longa e curta-metragem onde revela e firma todo o seu potencial enquanto jovem actriz - é o foco de Kuru no qual, no entanto, parece deixar muito por revelar da sua personagem. Temos todo um início que não explora a sua vontade de "conhecer o mundo" ou tão pouco a potencial "aventura" com o predador que a persegue - como a encontrou ou porque motivo a escolheu - e, por sua vez, o próprio José Mata fica com toda uma consumada fuga e eventual "sobrevivência" que gostaríamos de conhecer deixando apenas como momento mais frágil a revelação das verdadeiras intenções do "Homem" a quem dá corpo.
Com Sofia Grilo, Filipe Vargas, Pedro Hossi e Luciano Gomes como secundários, Kuru destaca-se ainda pela sua direcção de fotografia de Gonçalo Roquette que capta as cores e o calor de uma noite de Verão que tudo tem para acabar da pior forma e pela conseguida tensão que recria na segunda metade da sua narrativa deixando, no entanto, muito que poderia ter sido explorado.
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7 / 10
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Karuppum Veluppum (2014)

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Karuppum Veluppum de Komalankutty Methil é uma curta-metragem de ficção dos Emiratos Árabes Unidos que em breves instantes nos apresenta um homem que, frente a um espelho, vai cortando todos os pêlos brancos do seu bigode. Lentamente, um a um, desaparecem do seu rosto...
Previsível desde o primeiro instante, Karuppum Veluppum apresenta breves e fugazes incertezas sobre o propósito deste homem que parece apenas querer eliminar os sinais da passagem do tempo pelo seu rosto mas que - no tal breve momento - revela a sua previsibilidade como se de um sketch de uma qualquer sitcom se tratasse.
Com um escasso - para não dizer fraco - sentido de oportunidade e uma graça que se esbate pela previsibilidade com que são apresentados os actos, o único factor de surpresa que esta curta-metragem apresenta prende-se única e exclusivamente com a sua origem visto que é um país do qual pouco - ou nada - se conhece no que diz respeito a produção cinematográfica.
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1 / 10
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domingo, 1 de novembro de 2015

Knock Knock (2015)

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Knock Knock - Tentações Perigosas de Eli Roth é uma longa-metragem de co-produção norte-americana e chilena que estreou na passada edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorreu no Cinema São Jorge e que agora encontra a sua estreia comercial no país.
Evan (Keanu Reeves) é um arquitecto casado e pai de dois filhos com a casa e a vida perfeita. Sózinho em casa durante um fim-de-semana em que a família foi para a praia, Genesis (Lorenza Izzo) e Bel (Ana de Armas) batem à sua porta da casa e pedem-lhe ajuda.
No entanto, quando as intenções das duas jovens se revelam muito para além do simples pedido de ajuda, Evan encontra-se na mais complicada situação da sua vida que lhe trará consequência inimagináveis.
De volta à realização daquele que se queria como o mais recente clássico de suspense/terror de Eli Roth que já nos havia presenteado com Cabin Fever (2002), Hostel (2005) e Hostel II (2007), o realizador norte-americano numa parceria com Keanu Reeves na interpretação e produção entrega-nos este Knock Knock que tendo o seu potencial como filme do género se deixa levar e perder por alguns momentos menos conseguidos e lugares comuns que em nada adiantam à qualidade do mesmo sobre a história de um pai de família que, afinal, não é tão feliz ou completo como as primeiras imagens deixam adivinhar.
Era inevitável o que esperamos do início deste filme onde a aparente perfeita família se desmorona quando o pai (Reeves) é colocado sózinho num espaço onde já anteriormente fazia questão de realçar a sua carência sexual. Agora, com duas jovens e disponíveis postas "a jeito", a "coisa" estava preparada para se dar. Por muito saudável que aparente ser o relacionamento desta família, a realidade é que alguma falta de credibilidade dos actores - mãe e filhos - deixa o espectador algo afastado e ausente de um qualquer crédito que se poderia conferir a esta família. Talvez por falta de química, talvez por falta de alguma naturalidade e expressividade corporal, mas aquilo que o espectador quase confirma é que estão todos a ler de um cartão que está à frente dos olhos.
Credível está, por sua vez, a dinâmica entre a dupla Izzo e de Armas que conseguem emanar uma química latente entre ambas e irradiar algo não só físico como psicológico - ainda que demente - e interpretar as suas assassinas com aquilo que - às personagens - lhes falta, ou seja, uma alma. Com as suas próprias intenções, ainda que possam (e são) parecer como incompreensíveis aos olhares de qualquer pessoa mais estável, Izzo e de Armas conseguem assumir-se como o mais notável deste filme ao ponto de, em diversos momentos, ofuscarem a presença de um Keanu Reeves que o espectador esquece que se encontra na mesma sala que elas.
Sem nunca aquecer ao ponto do macabro e do perverso como podemos encontrar em, por exemplo, Hard Candy, de David Slade (2005) onde uma implacável Ellen Page desfaz ou temeroso Patrick Wilson, Knock Knock prima principalmente por um aspecto já abordado noutras obras e que reside na perda de anonimato do século XXI graças ao uso excessivo e abusivo das redes sociais onde tudo se partilha e, como consequência, tudo se sabe deixando pouco espaço para aquilo que se passa por detrás das portas da casa de cada um de nós.
Interessante por alguns breves momentos, nomeadamente aqueles que levam ao escalar de uma violência anunciada, Knock Knock não deixa de, no entanto, ser um filme que demora a antever um clímax e, quando este chega, é verbalizado por um - no momento - pouco convincente Keanu Reeves. Simpático como o mais recente "filme-pipoca" que qualquer um de nós gosta de ver quando não quer pensar muito sobre um argumento plausível, esta longa-metragem de Eli Roth não é seguramente aquela que ficará na memória do espectador ou tão pouco a mais significativa na carreira do seu intérprete principal.
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5 / 10
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sábado, 31 de outubro de 2015

Killies (2015)

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Killies de David Rebordão é uma curta-metragem portuguesa de ficção e a perfeita para a noite de Halloween que hoje se comemora.
Muppet-Face (Nuno Crespo) decide transmitir em directo o seu novo desporto, e esperar que os visitantes da sua página credibilizem o seu trabalho com o maior número de visitas possível. Paula (Erica Rodrigues) irá ajudá-lo... mas não da forma que ele espera.
Com o impacto das novas tecnologias e o livre acesso que todos têm às mesmas, o que aconteceria se alguém decidisse em nome de uma qualquer fama utilizá-las de forma a difundir a sua mente retorcida?
Numa curta-metragem que insere o espectador em todo um imaginário de morte e bizarria, Killies transfigura-se num potencial video snuff que não o chega a ser não deixando, no entanto, de conter alguns elementos que levam a uma curiosidade mórbida sobre o momento seguinte. Sabendo que a morte - ou salvamento - de "outro" pode ser determinada por um número de visitantes record, a questão principal que é então auto-colocada é apenas uma... terminaríamos nós de assistir a este potencial assassinato em directo se isso salvasse a vida daquela vítima ou, por sua vez, sentiríamos que deveríamos deixar este espectáculo terminar e sermos testemunhas reais dos seus efeitos finais?
Tal como uma selfie que regista em fotografia um momento específico, os killies são a forma como este psicopata decide registas os seus momentos... Os momentos em que a dor e a tortura alheia - meros espectáculos televisivos que acompanhamos em qualquer boletim noticiário - podem ser registados e ser considerados como uma arte - para "Muppet-Face" - são neste agora tornados num videoblog que detalhadamente informa sobre um qualquer momento macabro mais ou menos planeado mas, no entanto, o que acontece quando os planos de uma mente retorcida acabam por não sair como ela esperava? Que os psicopatas o são ninguém duvida, mas será que todas as eventuais vítimas o são na realidade?
Uma das questões mais interessantes de Killies é não tanto a forma como um qualquer psicopata pode utilizar as redes sociais para difundir os seus actos - afinal esta difusão mais não é do que uma prova contra o próprio - mas sim a forma como essas mesmas redes sociais que todos nós utilizamos podem ser uma perigosa arma que nos identifica e permite a nossa localização de forma fácil e eficaz... muitas vezes pelas próprias "mãos", na medida em que muitos as utilizam para denunciar a sua privacidade, os seus espaços e principalmente os seus hábitos tão desejados pelos predadores. A esta questão apenas uma fácil e simples resposta... necessitaremos nós de expôr toda a nossa vida num espaço que não só não controlamos como, em muitos casos, não sabemos sequer quem está do outro lado a controlá-la?
Com uma intenção interessante na perspectiva de vídeo de terror - com algum realismo - e que recupera o clima do saudoso A Curva (2004) do mesmo realizador, Killies apenas "peca" por um inesperado volte face ao terror e ao suspense que prometia, abraçando nos últimos instantes uma comédia que dispensaríamos assumindo-se, no entanto, como um sólido regresso de Rebordão ao cinema de género depois do já referido A Curva e O Assalto (2014).
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7 / 10
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sábado, 3 de outubro de 2015

Kicking & Screaming (2005)

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Um Treinador Genial de Jesse Dylan é uma longa-metragem norte-americana de comédia que marca a primeira colaboração entre Will Ferrell e Robert Duvall aqui como Phil e Buck Weston respectivamente.
Phil (Ferrell) é uma vítima do comportamento ultra-competitivo de Buck (Duvall), o seu pai. Quando Phil toma as rédeas de uma equipa de futebol que irá entrar em competição contra o seu pai, todas as apostas estão contra ele... e quando o seu espírito de competição parece assemelhar-se àquele que inicialmente Phil pretendia combater, as hipóteses da sua equipa vencer parecem tornar-se irreais.
Kicking & Screaming é a típica comédia à qual qualquer espectador pode facilmente associar Will Ferrell. Se o argumento de Leo Benvenuti e Steve Rudnick centra a sua acção na perturbada dinâmica entre pai e filho que vivem desde sempre numa acentuada e competitiva relação - diga-se que Duvall consegue encarnar uma personagem que é em toda a dimensão perfeitamente insuportável -, percebemos que o tentado humor aqui depositado fica a milhas de distância de uma história que cative o espectador pela sua qualidade mas sim pelo elevando nonsense que é fomentado desde o primeiro instante pela exagerada interpretação de Ferrell.
Ainda que Kicking & Screaming não traga nada que seja assumidamente novo para o género, o filme consegue criar breves momentos de comédia graças a algumas das suas personagens nomeadamente através de alguns dos jovens que compõem a equipa de futebol ou até mesmo da participação especial de Mike Ditka que aqui se assume como um inesperado treinador assistente de "Phil" e o pior pesadelo do insuportável "Buck". Mas, enquanto estas personagens secundárias pouco aproveitadas brilham nos seus breves apontamentos, é o "Phil" de Ferrell que falha em todo um constante e quase desnecessário excesso que o coloca em situações perfeitamente absurdas e algo descontextualizadas. Afinal, será ainda hoje necessário fazer piadas com "máquinas de café em cada sala das casas na Europa" ou "crianças italianas que trabalham em talhos com horários iguais aos dos adultos" para que um filme de comédia funcione enquanto tal? Os excessos e o exagero de Ferrell que tentam aqui funcionar enquanto pontos altos - e cómicos (?) - de um filme que parece não avançar do mesmo momento - deixando lá "no fundo" pairar a ideia de que é tudo para agradar e talvez vencer um pai repisador e intolerante como é o "Buck" de Robert Duvall - apenas conseguem criar esse mesmo clímax no preciso instante em que se sucedem deixando para trás toda uma história que com bom humor e doses de drama à mistura poderiam ter salvo um filme que (se) repete uma fórmula já tida noutros contos (lembro-me rapidamente de Elf (2003), de Jon Favreau) e que parecem querer arruinar uma carreira que insiste em desgastar-se com comédias... pouco cómicas.
Kicking & Screaming serve o momento... O espectador percebe a tentativa de lição de moral aqui incutida mas, no entanto, está pouco disponível para a mesma na medida em que o filme não primou pela comédia de qualidade nem tão pouco em dinamizar essa mensagem para que chegue - pelo menos da melhor forma - a um público que pretende, acima de tudo, divertir-se com uma hora e meia de um bom filme (dentro do género) e que aqui apenas encontra uma dispersão de exageros de um Ferrell que... talvez tenha bebido café a mais para pensar no que pretende transmitir a quem vê o seu filme.
Com falta de interpretações que inspirem - ou que estejam inspiradas - centrando-se única e exclusivamente num actor que está rapidamente a desgastar a sua própria imagem, só resta última questão ao espectador mais "distraído"... Servirá Kicking & Screaming o momento? Sim... é possível que sirva pois, na realidade, até tem um ou dois apontamentos que conseguem provocar um sorriso... mas, no entanto, se pensarmos que existem comédias apontadas como referência (dentro do género claro!) para tempos futuros então aqui o espectador não se encontra perante um desses exemplares mas sim algo que vê no Domingo de tarde e rapidamente o esquece porque no dia seguinte... é tempo de voltar ao trabalho.
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5 / 10
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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

King Kong (2013)

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King Kong de Nikolaos Kyritsis é uma curta-metragem grega de ficção presente na competição de curtas-metragens internacionais do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Kyritsis pega na história de Ivo, um gorila que nascera no Zoo de Atenas e que fora abandonado pela sua mãe impossibilitando-o dessa forma de estabelecer qualquer contacto e interacção entre a sua espécie, e cria um paralelismo com a história de Christos (Vasilis Vasilakis), um homem na casa dos 50 anos que ao cuidar da sua idosa e doente mãe se vê incapaz de pensar não só na sua própria vida como na aceitação da sua sexualidade que não consegue partilhar com ninguém.
É quando o médico tratador de Ivo se prepara para viajar com ele para outro zoológico que Christos - que por ele denota uma atracção sexual evidente - embarca num caminho de violência, desespero e auto-destruição que podem não ter o fim esperado.
Os momentos mais marcantes de King Kong - já de si um trabalho notável de Kyritsis - prendem-se com a extraordinária direcção de actor compenetrado e entregue a uma interpretação que é, desde o primeiro instante, sofrida e de uma contenção e tensão permanentes. Vasilakis transparece uma dor e um sofrimento desarmantes; primeiro devido à constante dedicação a uma mãe doente que definha aos poucos e que, em segundo lugar, num lento e constante ritmo condicionam toda a sua entrega a um potencial amor/paixão que não se permite viver com alguém que - pensa o espectador - evidencia também os seus sinais de interesse. A prisão que este homem vive é não só sexualmente auto-imposta mas ao mesmo tempo emcionalmente reprimida pelo sentido de dedicação que sente para com a sua mãe... aquela que lhe deu a vida e da qual ele próprio se retira.
Muito ocasionalmente encontramos uma interpretação que consiga através de tão poucas palavras e de um conjunto de expressões que são também elas reprimidas encontrar um conjunto tão sentido de momentos que nos façam perceber toda a dinâmica de um corpo e de uma mente isolados dentro de si próprios... Vasilakis e a magnífica direcção imposta por Kyritsis captam toda essa agonizante tensão que nunca desaparece. Pelo contrário, ela é uma constante que teima em não desarmar.
É toda esta tensão que faz adivinhar uma inevitável espiral de violência que não é só marcada para o exterior mas também para o próprio "Christos" que se vê isolado pela impossibilidade de comunicar com uma mãe que de certa forma já não se encontra presente, de alguém confidente em quem confiar os seus mais íntimos segredos e de uma eventual ligação amorosa e sentimental que parecem distantes e impossíveis pela própria falta de aceitação que denota no trato com aquele que poderia sentir por ele o mesmo - sempre uma incerteza - mas que agora se prepara para partir. É então que ao entrar nessa espiral de auto-degradação (a maior violência que poderá perpretrar contra si próprio), que "Christos" embarca numa viagem nocturna sem fim ou destino possível para aquilo que sente ser a única forma de estar próximo de alguém e poder ter algum afecto - ainda que não o seja - com ocasionais encontros sexuais fortuitos, anónimos e potencialmente violentos.
No final o argumento de Kyritsis coloca ao espectador duas questões fundamentais... Primeiro o que acontece quando todo o mundo que conhecemos parece querer ruir lentamente retirando-nos todas as bases de segurança que até então conhecemos? E finalmente pergunta-nos ainda qual será a maior violência: aquela que assistimos e que é física ou, por sua vez, será maior a violência que a sociedade impõe ao colocar barreiras que o levaram a comportamentos socialmente apáticos e que aos poucos, lenta e consistentemente, levaram "Christos" a ser um pária sentimental?
Correndo o risco de utilizar um daqueles lugares comuns que por vezes tão mal caracterizam grandes filmes, mas este King Kong consegue ser um daqueles que nos encosta ao nosso lugar na sala de cinema impossibilitando-nos de sair de lá com grande ligeireza. Sim... é assim tão bom!
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9 / 10
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domingo, 15 de setembro de 2013

Kiss of the Damned (2012)

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Kiss of the Damned de Xan Cassavetes foi exibido no penúltimo dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge, e é possivelmente o pior filme de todo o certame.
Este filme conta-nos a história de amor que nasce entre Djuna (Joséphine de la Baume) uma vampira centenária e Paolo (Milo Ventimiglia) um solitário argumentista. O primeiro olhar que trocam confirma a sua paixão e imediata dependência que irá ser saceada em inúmeras noites de prazer... até à chegada de Mimi (Roxane Mesquida) a problemática e predadora irmã de Djuna.
Mimi irá não só ameaçar a aparentemente sólida relação que a sua irmã mantém com Paolo como também toda a integridade que a comunidade vampira tem estabelecido ao longo dos tempos ao privar-se de ter qualquer contacto com sangue humano originando, no entanto, um desfecho algo esperado.
Xan Cassavetes não só dirigiu como escreveu esta história que denota claras referências ao cinema Giallo italiano. Desde os espaços iniciais onde somos incapazes de ter uma percepção clara sobre quem é o suposto predador que povoa a floresta passando pelos instantes iniciais na mansão de "Djuna" que contrastam imediatamente com todo o ambiente exterior que presenciamos instantes antes, terminando obvimente nos segmentos eróticos abundantes ao longo de todo o filme que são, em diversos momentos, perfeitamente dispensáveis.
No entanto, e por muito boas que sejam as intenções de Cassavetes em recuperar um género que está adormecido há mais de duas décadas (com qualidade), todos os seus objectivos saem francamente prejudicados por uma consistência nula da história que pretende contar sobre a afirmação de um amor dito impossível. Começamos de imediato pelo facto das referidas personagens não terem qualquer tipo de apresentação ou contextualização na história. Elas estão simplesmente "ali" e sucede-se um tímido mas vinculativo encontro que os deixa com um elo do qual aparentemente não se conseguem libertar, passando uma boa parte da narrativa em encontros sexuais que confirmam esta estranha dependência sem que, no entanto, o espectador consiga sentir qualquer tipo de química entre de la Baume e Ventimiglia. Se pensarmos que tudo o que fazem provém de algo mecânico então aí sim o seu trabalho está magnífico... mas se pensarmos na realidade onde as suas personagens deveriam representar um crescente sentido de paixão e entrega entre "Djuna" e "Paolo", então percebemos que falham redondamente e mais parece que estamos a assistir a dois robots a interagir.
Assim se falta conteúdo e consistência ao argumento de Cassavetes, é também justo dizer que tecnicamente ele dá vida a um ambiente muito bem elaborado que recria na perfeição uma certa decadência gótica que os filmes cuja abordagem é a "vida" de uma sociedade de vampiros pretendem recriar. Aqui, e graças a uma consistente direcção de fotografia de Tobias Datum que nos mantém em suspenso numa atmosfera rica em sombras e em ilusõe sobre a dimensão do espaço e do tempo e onde o próprio espectador estranha, a dada altura, o ressurgimento de uma luz que parece ser agora apenas um reflexo da memória.
A contribuir de forma decisiva para esse ambiente gótico está também a elaborada concepção dos espaços a cargo de Chris Trujillo, Ian Salter e Daniel R. Kersting que recriam os espaços que a literatura e algumas obras cinematográficos nos habituaram a considerar como sendo o habitat natural dos vampiros e que captam a essência de uma sociedade que caminha pelo mundo há séculos e que está habituado a pertencer a uma classe distinta e afastada dos demais mas em decadência por não ter a liberdade desejada.
E os aspectos positivos deste filme começam e terminam nesta recriação técnica do espaço e do tempo que, infelizmente, não chegam para tornar Kiss of the Damned numa referência do género, nem tão pouco confirmar Cassavetes como um novo talento do terror ou mesmo o par protagonista como um daqueles que iremos recordar no futuro. Vou mais longe e digo... de toda a edição deste ano do MOTELx este é, sem reservas, o filme mais pobre e menos interessante até ao momento.
Em duas pequenas mas assertivas palavras... perfeitamente dispensável.
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2 / 10
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domingo, 14 de julho de 2013

Kruiswoord (2012)

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Kruiswoord de Sander Van Dijk é uma curta-metragem holandesa de humor negro que saiu vencedora da primeira edição do Shortcutz Amsterdam no início deste ano, e que nos conta a história de Eduard van Leeuwen (Arthur Roffelsen), um homem solitário que tem poucos prazeres na vida para além de todas as manhãs receber à porta de casa o seu jornal e deleitar-se com as palavras-cruzadas que nele encontra.
No entanto uma certa manhã ao abrir o jornal percebe que o seu passatempo já havia sido feito por alguém, decidindo assim seguir caminho, de robe e pijama, em direcção à sede do mesmo e reclamar pelo seu direito a ter uma cópia que não esteja já preenchida por alguém que desconhece. Mas tudo se iria complicar quando é abordado por um grupo de marginais que precisa daquele puzzle e que tem para ele os seus próprios planos.
No meio de toda uma pacata existência que se vê subitamente ameaçada, como irá conseguir Eduard recuperar a rotina das suas manhãs?
Esta divertida curta-metragem consegue captar um espírito que tem tanto de comédia pela impossibilidade de alguns momentos proporcionados pelas suas muito bem construídas personagens entre as quais se destaca claramente o "Eduard" a que Arthur Roffelsen consegue dar corpo e alma naquela que é uma brilhante interpretação, como também tem de surreal pelo conjunto de segmentos em que o mesmo se insere das mais absurdas e irreais formas como se se tratasse de um sonho e não de uma história que pretende ser "real". E é exactamente graças a este elemento que esta curta consegue ganhar a nossa simpatia e admiração pois quanto mais estranhas são as situações descritas ou ainda mais alternativas são as suas personagens, mais o espectador se deixa levar para o seu próprio universo e o abraça como sendo o seu. Afinal, quantos de nós já não se viram em situações que parecem retiradas de um filme?!
Também alternativo está o guarda-roupa disponibilizado pela Alternatief Kostuum que dá às variadas personagens uma marca pessoal muito própria, e que exponencia a grandeza desse mesmo universo especial bem como traça uma certa mentalidade daquelas personagens tão características.
Kruiswoord (palavras-cruzadas) é uma hilariante e por vezes macabra curta-metragem que tem uma energia contagiante muito própria e que nos consegue "agarrar" desde o primeiro instante.
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8 / 10
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sábado, 1 de dezembro de 2012

Kali, O Pequeno Vampiro (2012)

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Kali, O Pequeno Vampiro de Regina Pessoa foi uma das duas curtas-metragens presentes na secção competitiva nacional do Córtex em Sintra, e um dos mais inteligentes e bem executados filmes de animação nacionais (juntamente com Conto do Vento, Bats in the Belfry ou Os Milionários, para referir alguns) que vi nos últimos tempos, demonstrando que o cinema de animação português tem mostrado cada vez mais qualidade e vincada margem de manobra para ser bem sucedido.
Kali é uma criança que, como tantas outras, tem o único desejo de ter amigos com quem poder brincar, mas diferente porque esconde um pequeno segredo que o impede de com ele passar os dias. Kali é vampiro e se se aproximar do Sol põe fim à sua existência... ou pelo menos àquela que sempre conheceu.
Esta simpática curta-metragem não só é um exemplo de boa animação como também tansporta, à semelhança de tantos filmes do género, a sua mensagem sobre os verdadeiros e essenciais valores do indivíduo. O desejo de conhecer mais, de se interligar com outros seres partilhando assim não só os seus conhecimentos como conseguir através deles um auto-desenvolvimento tão esperado, mas também partilha a nobre mensagem sobre os valores da amizade (ou daquela que se poderia ter) quando nos entregamos à sociabilidade para com os outros.
A realizadora destaca-se com este seu último trabalho não só pela sua evidente qualidade, mas também por ser uma das pré-seleccionadas ao Oscar na categoria de curta-metragem de animação (e da qual seria uma justa e merecida vencedora), fazendo dela uma referência no cinema nacional do género.
Quase se torna num cliché afirmar que muitos destes enormes trabalhos sobre a forma de curta-metragem mereciam mais tempo de duração mas o que é certo é que pelo que tenho visto neles, o potencial é de facto mais do que suficiente para os tornar em longas-metragens. Espero pacientemente pelo dia em que pelo menos um destes filmes de animação consiga transformar-se numa, afirmando definitivamente que a animação portuguesa está forte e de muito boa saúde, como aliás (é de referir) notado pelo intenso potencial que as histórias filmadas têm revelado.
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9 / 10
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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Keel (2003)

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Keel de Gabrielle Russell é uma interessante curta-metragem britânica que junta dois jovens numa pequena casa de barco onde ambos fumam e falam sobre uma potencial viagem para longe dali. Existe um amor no ar que sem ser à partida correspondido também não aparenta ser negado ou repudiado, tornando-o assim incerto, inseguro e não assumido.
Ambivalente é também o significado dado à quilha (keel) que dá nome à curta e que tanto se refere àquela onde se encontram os dois, a do barco, como à constelação de que falam na sua já "psicotrópica" conversa.
Acima de tudo esta curta preza pela simplicidade e não mediocridade. Da história, das interpretações e mesmo do seu ritmo aprofundando um sentimento terno entre as suas personagens.
No entanto já não tão simples é a excelente fotografia da autoria de Kamaljeet Negi que coloca as duas personagens do filme não só únicas nele como aparentemente únicas em todo o mundo. Vários são os momentos em que são privados de total clareza do espaço em que se encontram ou mesmo daquilo que os rodeia. Podem, tal como diziam na sua conversa, estar a milhões de quilómetros de um planeta Terra que aparentemente nós, enquanto espectadores, pouco saberíamos ser ou não verdade.
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8 / 10
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

The King's Speech (2010)

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O Discurso do Rei de Tom Hooper tem sido o filme sensação desta temporada de prémios que está agora quase a terminar. Desde vencedor da grande maioria dos prémios da crítica nos Estados Unidos, passando pelos BAFTA, Globos de Ouro, SAG, Goya de Filme Europeu e claro, culminando com as doze nomeações aos Oscars com que o filme foi granjeado e que serão entregues no próximo domingo. Este filme tem literalmente levado quase tudo.
A história centra-se no período que precedeu à ascenção de Jorge VI (Colin Firth) ao trono do Império Britânico e aquele que era o seu grande problema... a gaguez. Seguimos o período da morte do seu pai e da subida e abdicação do seu irmão ao trono para poder viver com Wallis Simpson o que originou obviamente a subida do Jorge VI ao trono.
Com a sua coroação como Rei teve então a sua primeira provação com o eclodir da Segunda Guerra Mundial e com a obrigatória realização de discursos de unidade à Nação.
É durante a sua luta contra a gaguez que conhece, através da sua mulher e futura raínha (Helena Bonham Carter), Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta da fala que parece ser a sua última oportunidade para ultrapassar o seu problema. É com ele que irá desenvolver uma amizade que até então parecia ser proibida com um simples civil e que se revelará a única sincera que alguma vez teria.
Este filme considerado o grande favorita aos Oscars deste ano em diversas categorias, principalmente na de Actor e Filme, consegue quase ser o filme bonitinho e perfeito do ano. Sem falhas a nível de representação, realização, argumento ou até mesmo de cenário, O Discurso do Rei é o filme que todos esperam ver vencer este ano nos prémios maiores da indústria cinematográfico.
Que o filme está impecável em todos os aspectos técnicos, disso não discordo. É visualmente apelativo e em todos os aspectos aparenta uma mácula invejável a muitos. Aquilo que acho deste filme é que apesar de toda esta perfeição falta-lhe algo que o torne num filme realmente grandioso. Se pensarmos em filmes como Braveheart, Momentos de Glória, O Paciente Inglês ou A Lista de Schindler (entre outros), temos ali filmes grandiosos que marcaram e marcam uma época (ou épocas) e que serão recordados para toda a eternidade como "aquele filme que ganhou o Oscar". Este O Discurso do Rei, é de facto um filme interessante e que com os seus inúmeros momentos de comédia e uma banda-sonora exímia, ou não fosse ela da autoria de Alexandre Desplat consegue conquistar o público a gostar dele. No entanto falta-lhe algo que o torna aquele grande filme do ano que agradou a todos e que daqui a cinco anos ainda será lembrado como O vencedor de Oscar.
As interpretações são de facto magníficas, impecáveis e sem nada de defeito que lhes possamos apontar. Os três actores principais foram nomeados para o Oscar em categorias diferentes, Firth (Actor), Rush (Actor Secundário) e Bonham Carter (Actriz Secundária) mas de todos apenas penso que Rush seria um justo vencedor. O seu humor sarcástico e postura irrepreensível tornam-se um factor atractivo e convincente para dar ao actor a segunda estatueta dourada, e considerando o filme, uma das que poucos (se é que algum) podem apontar o dedo como não tendo sido merecedora.
Já no que diz respeito a Bonham Carter, por muito que goste da actriz, e confesso que gosto desde que a vi no já longínquo Raínha por Nove Dias em que interpretava o papel da Raínha Jane, acho que este seu papel, apesar de interessante e relevante, não é suficientemente bom para lhe granjear a sua primeira estatueta.
Quanto a Colin Firth, que parece imbatível nesta temporada de prémios, e apesar do seu desempenho ser também irrepreensível, fica a sensação de que a ganhar será apenas por ter perdido no ano passado (Um Homem Singular), naquela que seria aí sim uma justíssima vitória.
Em termos técnicos propriamente ditos, aí sim este filme pode sair um justíssimo vencedor. A banda-sonora de Alexandre Desplat (que anda a bater à porta do Oscar com as suas fenomenais composições já há alguns anos), a excelente direcção artística e a fotografia de Danny Cohen, e o brilhante guarda-roupa da já premiada Jenny Beavan são aquelas categorias que considero que se saírem premiadas são justas vencedoras e às quais ninguém pode comentar haver sido excessivas. Quanto às demais deixo as minhas sérias reservas...
O filme é agradável sim e quase é um erro se alguém achar que é mais um "filme chato sobre a monarquia britânica". Não o é. É uma excelente história sobre a ascenção ao poder de um homem que parecia dele afastado bem como uma bonita e simpática história sobre a amizade entre dois homens distintos. Sem o ser tem inúmeros aspectos de "feel good movie" que agradam a todo o tipo de audiências sem ser, no entanto, o grandioso filme do ano digno vencedor de todas as honrarias.
No entanto, como todos nós sabemos, estas temporadas de prémios valem pela simpatia que um dado actor/filme tem numa determinada época e esta está absolutamente a favor deste filme que sendo agradável, giro e simpático não consegue ser grandioso por isso na madrugada da próxima segunda-feira não me espantará em nada se conseguir uns sete a oito Oscars dos doze para que está nomeado.
Para que não restem quaisquer dúvidas sobre a minha opinião sobre este filme vou de facto ser bem claro e directo... VÃO VER. Vale a pena ver este filme e duvido que alguém saia de lá insatisfeito. Só não esperem é ver o melhor filme das vossas vidas. De resto vale a pena e é uma boa aposta.
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"King George VI: Because I have a right to be heard. I have a voice!"
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8 / 10
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