quinta-feira, 25 de setembro de 2014

King Kong (2013)

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King Kong de Nikolaos Kyritsis é uma curta-metragem grega de ficção presente na competição de curtas-metragens internacionais do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Kyritsis pega na história de Ivo, um gorila que nascera no Zoo de Atenas e que fora abandonado pela sua mãe impossibilitando-o dessa forma de estabelecer qualquer contacto e interacção entre a sua espécie, e cria um paralelismo com a história de Christos (Vasilis Vasilakis), um homem na casa dos 50 anos que ao cuidar da sua idosa e doente mãe se vê incapaz de pensar não só na sua própria vida como na aceitação da sua sexualidade que não consegue partilhar com ninguém.
É quando o médico tratador de Ivo se prepara para viajar com ele para outro zoológico que Christos - que por ele denota uma atracção sexual evidente - embarca num caminho de violência, desespero e auto-destruição que podem não ter o fim esperado.
Os momentos mais marcantes de King Kong - já de si um trabalho notável de Kyritsis - prendem-se com a extraordinária direcção de actor compenetrado e entregue a uma interpretação que é, desde o primeiro instante, sofrida e de uma contenção e tensão permanentes. Vasilakis transparece uma dor e um sofrimento desarmantes; primeiro devido à constante dedicação a uma mãe doente que definha aos poucos e que, em segundo lugar, num lento e constante ritmo condicionam toda a sua entrega a um potencial amor/paixão que não se permite viver com alguém que - pensa o espectador - evidencia também os seus sinais de interesse. A prisão que este homem vive é não só sexualmente auto-imposta mas ao mesmo tempo emcionalmente reprimida pelo sentido de dedicação que sente para com a sua mãe... aquela que lhe deu a vida e da qual ele próprio se retira.
Muito ocasionalmente encontramos uma interpretação que consiga através de tão poucas palavras e de um conjunto de expressões que são também elas reprimidas encontrar um conjunto tão sentido de momentos que nos façam perceber toda a dinâmica de um corpo e de uma mente isolados dentro de si próprios... Vasilakis e a magnífica direcção imposta por Kyritsis captam toda essa agonizante tensão que nunca desaparece. Pelo contrário, ela é uma constante que teima em não desarmar.
É toda esta tensão que faz adivinhar uma inevitável espiral de violência que não é só marcada para o exterior mas também para o próprio "Christos" que se vê isolado pela impossibilidade de comunicar com uma mãe que de certa forma já não se encontra presente, de alguém confidente em quem confiar os seus mais íntimos segredos e de uma eventual ligação amorosa e sentimental que parecem distantes e impossíveis pela própria falta de aceitação que denota no trato com aquele que poderia sentir por ele o mesmo - sempre uma incerteza - mas que agora se prepara para partir. É então que ao entrar nessa espiral de auto-degradação (a maior violência que poderá perpretrar contra si próprio), que "Christos" embarca numa viagem nocturna sem fim ou destino possível para aquilo que sente ser a única forma de estar próximo de alguém e poder ter algum afecto - ainda que não o seja - com ocasionais encontros sexuais fortuitos, anónimos e potencialmente violentos.
No final o argumento de Kyritsis coloca ao espectador duas questões fundamentais... Primeiro o que acontece quando todo o mundo que conhecemos parece querer ruir lentamente retirando-nos todas as bases de segurança que até então conhecemos? E finalmente pergunta-nos ainda qual será a maior violência: aquela que assistimos e que é física ou, por sua vez, será maior a violência que a sociedade impõe ao colocar barreiras que o levaram a comportamentos socialmente apáticos e que aos poucos, lenta e consistentemente, levaram "Christos" a ser um pária sentimental?
Correndo o risco de utilizar um daqueles lugares comuns que por vezes tão mal caracterizam grandes filmes, mas este King Kong consegue ser um daqueles que nos encosta ao nosso lugar na sala de cinema impossibilitando-nos de sair de lá com grande ligeireza. Sim... é assim tão bom!
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9 / 10
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