terça-feira, 23 de setembro de 2014

Matterhorn (2013)

.
Matterhorn de Diederik Ebbinge é uma longa-metragem holandesa presente na secção Panorama da décima-oitava edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer até ao próximo dia 27 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.
Fred (Ton Kas) é um conservador e respeitável viúvo que vive uma vida solitária. Subitamente surge na sua vida Theo (René van't Hof), um homem com alguns problemas psicológicos que Fred acaba por proteger de forma instintiva e quase paternal.
A próxima relação entre estes dois homens começa a afectar a pequena comunidade onde Fred vive ao mesmo tempo que faz ressurgir velhos problemas que tem por resolver do seu passado.
Ebbinge também escreveu o argumento de Matterhorn naquela que é uma história que vai muito para além da simples amizade "construída" entre dois homens. Este argumento faz-nos viajar até um mundo que de certa forma desconhecemos pela rudeza com que os sentimentos, ou a sua expressão, são socialmente reprimidos e condenados antes sequer de poderem nascer dando lugar e especial atenção a comportamentos ditos mais aceitáveis para a comunidade onde a acção se desenrola. No fundo aquilo que assistimos em Matterhorn não se prende tanto com o que será socialmente aceite mas sim com aquilo que será mais socialmente compreensível para a manutenção de uma paz podre, falsa e com um código estabelecido e que ninguém discute.
No entanto, e como as boas histórias de auto-descoberta assim o permitem, a história por detrás de Matterhorn faz com que o espectador se emocione com a simplicidade daqueles que se permitem um dia o luxo de "sentir". Sentir a falta, a perda, o luto, a mudança, a novidade, o desconhecido, todos ou um só que pouco a pouco vão modelando o comportamento daqueles que se deixam afectar. Tudo começa com uma rotina que durante tempos não especificados se torna o dito "normal", aquelas situações que ninguém questiona por culturalmente sempre foram tidos como os correctos a seguir mas, no entanto, quando um elemento novo se instala - ainda que naturalmente - todos os demais vão  sentir os seus efeitos, e aqui esse elemento surge pela presença de um homem - "Theo" - que após um acidente que o deixou mentalmente afectado se transforma num ser simples, praticamente infantil, para quem os prazeres da vida (se os entender como tal) mais não são do que comunicar com os animais na sua própria linguagem e fazer inadvertidamente rir aqueles que com ele se cruzam. É esta relação estabelecida com "Fred" que vai mudar este último e obrigá-lo a quebrar as suas enfadonhas rotinas que o prendiam a costumes que, na prática, nunca deveriam ser os seus. Primeiro com a inserção de uma nova pessoa na sua vida com o propósito de auxiliar alguém em necessidade e depois através dos hábitos que quebra para refundar um novo sistema e uma nova vida, este homem ultra-conservador desafia toda uma comunidade que agora o irá questionar e pressionar a uma vida que não se conjuga com os seus padrões.
Matterhorn é assim uma reflexão sobre a aceitação da - e pela - diferença que obriga o espectador a questionar-se sobre o que é verdadeiramente a "normalidade" (será que ela existe realmente), e sobre os novos estilos de vida, aqueles que independentemente de não serem comuns são os que definem e caracterizam cada um de nós na sua especificidade e que em primeira e última análise nos fazem sentir e viver. Os segmentos da vivência em comunidade com que Matterhorn nos apresenta aquela pequena comunidade são reveladores. Desde os instantes em que inicialmente conhecemos aquela pequena e fechada povoação passando pelos momentos em que o repúdio pela novidade e, como consequência, para com aquele que a permite entrar, o espectador percebe de imediato a incongruência com que as personagens "vivem" quando têm como momento alto da sua existência palavras de "paz" mas como quando alguém dela necessida lhe fecham a porta por não ser "um do grupo". A hipocria sobre as palavras de Deus afecta de imadiato a atenção do espectador na exacta proporção com que simpatiza e se entrega à vivência daqueles dois homens entre os quais nasce uma relação de profunda amizade, conforto, carinho e entrega que se percebe não poder se abalada e que faz "Fred" questionar-se sobre todas aquelas pequenas situações e momentos que considerara, até então, como importantes e prioritárias. Sendo ele um homem com uma família desfeita pela tragédia, não estará em condições de abraçar aquilo que tem e que repudiou?
Com uma interpretação desarmante e intensa, Ton Kas conquista o espectador desde o primeiro instante; do seu conservadorismo até à revelação de um coração maior que ninguém - talvez nem o próprio - percebia ter, é da sua expressividade que surge um calor intenso que nos obriga naturalmente a empatizar com aquele homem e com a sua história... ele não é mau, talvez um pouco severo, mas nada que não seja o resultado directo de uma educação austera e, também ela, conservadora.
Por sua vez René van't Hof é, com a sua interpretação praticamente minimalista, a força motora de toda uma transformação que na prática afecta uma comunidade inteira ainda que por pequenas parcelas de cada vez. É na sua consequência que se descobrem velhos medos, rivalidades e inseguranças mas ao mesmo tempo é através dela que se conquistam todos os momentos de comédia, sem excepção, para com a qual facilmente nos rendemos, fazendo desta dupla improvável de actores uma das mais apetecidas dos últimos tempos.
Energético, comovente e divertido, Matterhorn é um daqueles filmes que sem se focar directamente numa temática homossexual característica do QueerLisboa consegue, no entanto, abordar uma diferente perspectiva sobre os nossos estilos de família, de relacionamentos e de amizade que por muito diferentes e alternativas possam parecer aos olhos dos demais são, na prática, aquelas que se apresentam mais fiéis, honestas e receptivas e que através da diferença caracterizam aquela réstia de humanidade que existe dentro de cada um de nós. No fundo, Matterhorn é uma agradável e sentida surpresa cuja sensibilidade a ninguém deveria ficar indiferente.
.
.
8 / 10
.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário