segunda-feira, 22 de setembro de 2014

The Madwoman of Chaillot (1969)

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A Louca de Chaillot de Bryan Forbes é uma longa-metragem de produção norte-americana e britânica à qual a actriz Katherine Hepburn dá corpo enquanto a "Condessa Aurelia".
Numa Paris em convulsão ideológica, a Condessa Aurelia (Hepburn) terá de enfrentar os perigos de uma nova sociedade. Nesta chamada à realidade por parte daqueles ilustres sonhadores que com ela convivem diariamente, a Condessa terá ainda uma última palavra a dizer sobre aquilo que tanto a faz (fez) mover... o verdadeiro amor. 
O argumento de Edward Anhalt, baseado livremente na peça homónina de Jean Giraudoux, leva o espectador a uma Paris em pleno calor social e ideológico dos finais dos anos 60 onde uma excêntrica mulher interpretada por Katherine Hepburn vive na (des)ilusão de uma sociedade perfeita onde o bem reina sobre o mal, a justiça sobre o engano e onde a realidade mais não é do que um mero desejo de alguém que resolveu esquecer os malefícios de uma sociedade onde os valores de moral não correspondem àqueles que a mesma viveu e idealizou.
Neste mesmo mundo, as pessoas já não se movem por ideais de nobreza, por valores de fraternidade ou tão pouco pelo mútuo respeito a que deveriam ser obrigados. O mundo, depois de duas guerras mundiais e de uma convulsão e agitação social e política, mudou... Mudou para outro tipo de valores mais "modernos" e tidos como os verdadeiros deste século XX que parecia - então - estar realmente no seu início. O poder, a ganância, a mentira, o dinheiro e o lucro fácil e rápido movem agora os homens de todos os estratos, de todas as profissões e de todos os quadrantes... A influência que estes exercem ou podem ter sobre os demais condiciona não aos próprios mas os mundos que habitam e onde circulam sendo tudo uma questão de preços e favores, de inuendos e de esquemas fáceis onde ludibriar é a palavra de ordem.
É nesta Paris que a "Condessa Aurelia" repentinamente "acorda" depois de um sonho profundo que vivera de olhos abertos fruto de um qualquer desgosto amoroso que se cumprira anos antes. "Aurelia" é, para o bem e para o mal, o resultado final de uma outra sociedade tida como nobre de valores, de condição e de moral que se perdera pelos trágicos destinos que o mundo assistira anos antes e que o levariam a uma destruição e divisão sem limites e fins aparentes. Neste mundo onde todos aparentam querer sobreviver "à grande", poderá existir ainda um lugar para os eternos sonhadores que esperam algo mais de uma nova ordem destinada a preservar apenas os mais fortes... e por "mais fortes" entenda o espectador que são aqueles capazes de sobreviver graças ao poder da sua influência sobre os demais e dinheiro que exibem?!
Excessivamente teatralizado - eventualmente o problema maior deste The Madwoman of Chaillot - aquilo que aqui sobressai - para lá do elenco de luxo do qual fazem parte a já referida Hepburn e ainda Yul Brynner, Paul Henreid, Oskar Homolka, Richard Chamberlain, Edith Evans, Giulietta Masina e ainda Donald Pleasence - é a forma como se retratam os vários sectores que, dentro de uma sociedade, deveriam zelar pelo bem-estar, prosperidade e igualdade de toda uma comunidade... do poder político ao judicial, da ordem moral e religiosa às instituições financeiras e políticas, todos zelam apenas e só pelo seu próprio bem-estar, pela sua própria prosperidade e pelo seu próprio enriquecimento fácil e rápido desprezando violentamente todos os demais considerados pelos próprios como líricos, poéticos e facilmente manobráveis. Assim, a sociedade mais negra, desconfiada e realisticamente negativa avança rumo a nada, sobriamente (des)contentes com uma nova realidade que os amordaça a uma vida feita dia-a-dia sem perspectivas, sonhos ou ideais agora lentamente declarados como mortos.
The Madwoman of Chaillot é uma longa-metragem poeticamente tentada mas desencantada pela realidade da sua época em plena transformação e que apenas se confirmaria ainda mais pelos anos vindouros que "celebra" a percepção de um mundo desejado mas desaparecido... os sonhos sonhados mas perdidos e a confirmação de que no mesmo vence o anonimato, o desdém e um certo cinismo face àqueles que ainda os ousam tentar e ter... do sonho ao desejo... da esperança de um amor a uma vida... feliz agora compreendidos como (im)possíveis.
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"The Ragpicker: No one is involved with anyone anymore. There - there's been an invasion, an infiltration. The world isn't beautiful any longer. The world is not happy.".
6 / 10
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