sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Linda, Uma História Horrível (2013)

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Linda, Uma História Horrível de Bruno Gularte Barreto é uma curta-metragem brasileira de ficção presente na secção competitiva do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que se encontra a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa naquela que é a sua décima-oitava edição.
Pelo escuro de uma noite carregada, um filho (Rafael Régoli) chega inesperadamente a casa da sua mãe (Sandra Dani) como se se tratasse do regresso de um filho em tempos fugido.
Depois de um reencontro distante e francamente frio, mãe e filho sentam-se à mesa onde, por entre conversas vagas, falam sobre o passado - também ele distante - e ficam apenas visíveis as marcas da passagem do tempo e os detalhes aparentemente banais que revelam a degradação física que ambos atravessam.
Bruno Gularte Barreto adapta o conto de Caio Fernando Abreu para nos entregar uma história onde aquilo que não é dito, mas que é perceptível, ganha um peso bem mais avassalador do que a aparente indiferença com que estes dois intervenientes se tratam.
Desde o primeiro instante que sentimos que este reencontro é surpreendente para a idosa mãe. Inesperado - quando não o deveria ser - por se tratar do seu filho que chega vindo após aquilo que percebemos ser uma longa ausência. Surpreendente pela hora tardia em que a acção se desenrola e ainda mais por ser perceptível para o espectador que existe tanto por dizer mas que não é, no entanto, verbalizado.
A distância tida entre os dois não é necessariamente aquela que sentem mas sim a auto-imposta por não saberem lidar com os comportamentos que ambos possam em tempos ter demonstrado, e o afastamento que esta mãe e este filho demonstram ter mais não é do que o rescaldo de algo passado que agora pretendem esquecer mas que os orgulhos feridos ainda sentidos os impedem de agir. Sente-se a vontade de um abraço, de um carinho e principalmente de um conforto. A necessidade de ambos sentirem que as paredes degradadas daquela casa são não só um reflexo da sua relação como também dos seus corpos - um idoso e um doente - e que adivinham uma breve extinção silenciosa. A casa que em tempos servira como um porto de abrigo não é agora mais do que um espaço que esconde as suas mágoas e o desconforto que têm para com algo que não será dito... por receio.
Com uma dupla de fortes interpretações, Linda, Uma História Horrível vive dos silêncios de um filho, num notável desempenho de Rafael Régoli que carrega aos ombros o peso do mundo, e dos ruidosos barulhos conferidos pelo peso da idade de uma mãe numa igualmente notável interpretação de Sandra Dani que não consegue esconder a mágoa de não conseguir confortar o seu filho que sabe estar a viver os seus últimos momentos.
Linda, Uma História Horrível torna-se assim numa história não só sobre a proximidade do fim como também a sua percepção que dificulta e inibe a redenção entre duas pessoas que partilham um dos mais - senão o mais - forte elo de ligação do mundo e que fazem desta história um dos mais fortes filmes exibidos até ao momento nesta edição do QueerLisboa.
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9 / 10
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