terça-feira, 2 de setembro de 2014

Os Maias - Cenas da Vida Romântica (2014)

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Os Maias - Cenas da Vida Romântica de João Botelho é a mais recente adaptação do romance de Eça de Queirós e que irá estrear no próximo dia 11.
Este filme é a adaptação cinematográfica da obra de Eça de Queirós que nos conta a história da tragédia da família Maia. Depois de uma infância conturbada graças à vida de boémia de sua mãe Maria Monforte (Catarina Wallenstein), o jovem Carlos da Maia - interpretado em idade adulta por Graciano Dias - fica aos cuidados de seu avô que lhe dá a melhor educação.
Quando em 1875 regressa a Lisboa com o propósito de uma respeitada vida em sociedade, Carlos da Maia e o seu fiel amigo João da Ega (Pedro Inês), encetam uma vida de paixões e vaudeville que terminam com o enamoramento de Maia por Maria Eduarda (Maria Flor), uma estranha habitante da capital de quem ninguém sabe a origem.
É esta paixão, que descobrimos proibida, que irá traçar os destinos do nosso protagonista e da família Maia caída em desgraça pela fatalidade de um destino que não conseguiu controlar.
Com base no já mencionado romance épico de Eça de Queirós, João Botelho escreve o argumento deste Os Maias - Cenas da Vida Romântica que tem uma estranha mas evidente relação próxima com Portugal e com a respectiva portugalidade. Traço este que é, aliás, já um sinónimo da própria carreira cinematográfica deste cineasta e que podemos confirmar em filmes como Um Adeus Português (1986), Tempos Difíceis (1988), Tráfico (1998), Quem És Tu? (2001), A Mulher que Acreditava ser Presidente dos Estados Unidos da América (2003) ou o seu mais recente Filme do Desassossego (2010). O Portugal dos enredos e das esperanças por concretizar onde entre esquemas e aparências, apenas e só, se vive numa ilusão de um mundo que não temos e ao qual não pertencemos.
Tal como na obra literária, Botelho entrega-nos uma visão da Lisboa do século XIX onde uma das suas mais reputadas famílias encontra um inesperado revés com o desmantelamento da mesma primeiro graças a um conflito entre pai e filho devido ao casamento não abençoado deste último, e finalmente pelo seu consequente suicídio fruto do abandono de sua mulher. No entanto, a tragédia maior estaria para vir quando anos de separação entre os filhos do casal encontram uma inesperada e proibida união.
Talvez seja esta a maior comparação que se pode estabelecer entre esta família e o próprio país. No seio de uma constante ilusão, Portugal vive dias, anos, épocas de uma aparente estabilidade onde a prosperidade e os bons costumes imperam. No entanto, e tal como se de um indivíduo se tratasse, a ausência de valores e de uma linha condutora que abonem na sua segurança fazem com que, de tempos em tempos, a estrutura que temos como conhecida e garantida começa a ruir. O mesmo se sente em Os Maias. Se por um lado existem acontecimentos que colocam aquela família num aparente bom caminho, não é menos verdade que muito cedo percebemos que todos os acontecimentos apenas são um pequeno elemento na construção de uma ruína maior. No seio dessas aparências, de vidas mais ou menos abastadas e de uma reputação de "bom aluno" (já na altura o existia), Portugal (enquanto sociedade) prepara-se, tal como "Os Maias", para uma constante, sucessiva e cíclica queda.
No entanto, Os Maias - Cenas da Vida Romântica não é apenas um exemplo enquanto filme com uma forte mensagem social e política - estando ela sempre presente como podemos verificar nos constantes comentários e nuances referidas sobre a portugalidade e a sua passividade - mas também um filme intenso pela sua qualidade e originalidade técnica. Logo a abertura desta longa-metragem temos o exemplo interessante da sua construção quando ao espectador são apresentados os seus actores através das suas fotografias de casting. Cada um com a sua expressão introduz-nos a um estúdio onde o argumento é exibido e, de certa forma, antevemos uma abordagem mais próxima e intimista da relação que teremos com aquelas personagens prontas a ser apresentadas. Igualmente engenhosa está a elaboração dos exteriores todos eles telas pintadas à mão que nos inserem nos espaços imensos que pretendem retratar. Independentemente de ser Lisboa, Paris ou algures pelo norte de Portugal, todos os exteriores mais não são (expressão nada redutora) do que maravilhosas telas que nos transportam para outro local - trazendo uma simpática memória de Anna Karenina, de Joe Wright - e rivalizam saudavelmente com os luxuosos interiores de velhos palacetes do século XIX que têm tanto de exuberante como de uma certa decadência que transmite a mensagem dos tempos vividos.
No elenco temos um conjunto de emblemáticos actores portugueses como João Perry como "Afonso da Maia", a testemunha de toda a ascenção e queda da família, Rita Blanco como "D. Maria da Cunha" que é um pouco a alma da portugalidade sempre interessada em detalhes e intrigas, Adriano Luz, José Eduardo, Ana Moreira, Catarina Wallenstein em interpretações secundárias mas marcantes para o desenvolvimento desta história e um trio protagonista que inclui Graciano Dias como "Carlos da Maia" o sofrido por amor com esperança de um dia melhor numa interessante primeira grande interpretação em cinema, Maria Flor como "Maria Eduarda" e finalmente Pedro Inês como "João da Ega", o fiel amigo de "Carlos da Maia", que por ele tudo faz e dele também depende. É, no entanto, apesar desta dependência que sentimos presente desde o primeiro instante - afinal "Portugal" sempre viveu do empréstimo é dito algures durante o filme - que percebemos que a amizade que os une é de facto verdadeira. Para os melhores momentos, mas também nos piores, que a sua cumplicidade se sente presente e coerente. Sempre num tom ligeiro que dá ao espectador uma maior descontracção perante uma história que se pretende (e é) séria e de crítica, Pedro Inês tem a interpretação mais forte de todo o filme. Cómico, bem disposto mesmo dentro da sua própria desgraça e preparado para enfrentar o desconhecido, este actor consegue ser dinâmico e presente mesmo quando não se encontra em cena. A prová-lo as inúmeras referências de que é alvo como se de um "desejado" se tratasse e o foco de todas as atenções quando está presente em cena.
Ainda que o ano cinematográfico português esteja escasso em longas-metragens de ficção, é justo dizer que Os Maias - Cenas da Vida Romântica não é apenas um dos filmes do ano mas sim um dos filmes dos últimos anos. Um que vence não só pelo conjunto das suas interpretações ou da história que retrata, mas pela mensagem de (auto-)crítica que pretende fazer chegar ao espectador de e sobre si como também pelo seu lado cénico inovador e original que prende a atenção pelos mais pequenos detalhes e pela forma como harmoniosamente o une a uma estética pouco usual mas cativante de apresentar o "ambiente" em que a acção se desenrola e que garante a Botelho mais uma confirmação do seu interessante e bom cinema.
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"Cohen: Neste país a função dos ministérios sempre foi e sempre será cobrar o imposto e fazer o empréstimo."
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8 / 10
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