sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Der Samurai (2014)

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Der Samurai de Till Kleinert é uma longa-metragem alemã presente na secção Serviço de Quarto desta oitava edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge.
Jakob (Michel Diercks) é um jovem polícia de uma pequena comunidade alemã que tenta atrair um lobo que gera o pânico durante a noite. É nesta incansável busca que os seus sentidos lhe indicam que existe algo mais que ainda não consegue identificar a percorrer a floresta que envolve aquela pequena vila.
É nesta investida pela noite que Jakob encontra um misterioso homem de vestido que tem na sua posse uma espada de samurai (Pit Bukowski), e cujo olhar lunático o impele para um jogo de gato e de rato numa perseguição pelas ruas da vila nas quais o pânico é semeado. Conseguirá este misterioso homem seduzir Jakob a entrar no seu próprio jogo?
Till Kleinert que também está por detrás deste argumento cria aqui uma história que impele o espectador a entrar em dois caminhos bem distintos mas que se cruzam pela sua complexidade. O primeiro desses caminhos é o medo inerente a cada um de nós para com o desconhecido e sobre o potencial perigo - normalmente não justificado - que o mesmo pode provocar sobre cada indivíduo; se não se conhece nem de si se ouviu falar escondendo-se na escuridão e no seio de elementos pouco claros... algo tem de si que não deve (ou pode) ser revelado.
O segundo caminho aqui explanado é o da complexa sexualidade de "Jakob". De jovem solitário e de certa forma renegado pelos demais jovens da sua idade, "Jakob" revela-se como alguém assexuado sem um interesse explícito em qualquer outra pessoa da sua idade. Detentor de uma profissão onde tem de exercer a sua autoridade, esta é completamente eclipsada pela sua ineficácia em se socializar até ao ponto em que conhecer alguém que é o seu oposto. No entanto, esta mútua sedução exercida por um lado pelo lado carnal e selvagem do "Samurai" contrasta em exacta proporção com a sua calma e tranquilidade que espera por "alguém". No fundo estes dois seres complementam-se na medida em que um possui o que o outro já tem e vice-versa sendo ambos uma metade de um só.
Estes dois caminhos que o argumento de Kleinert nos apresenta acabam por cruzar-se naquela personagem do "Samurai". É ele que representa esta dualidade entre noite e dia, tranquilidade e violência e um despertar de uma sexualidade reprimida que é apenas excitada pelo perigo e desejo que o outro representa.
Diercks e Bukowski são os rostos perfeitos desta mesma dualidade. Enquanto o primeiro tem um rosto angélico e quase exclusivamente receoso daquilo que a escuridão - e o desconhecido - lhe podem proporcionar, Bukowski é a perfeita encarnação da insanidade, da loucura, do desejo descontrolado e de certa forma de um desejo inconsciente dessa sexualidade pronta para ser consumada mas ainda não aceite por parte do "Jakob" de Diercks, ou não fosse ele um homem com instintos carnais bem violentos por debaixo do vestido de uma mulher numa clara alusão de que o jovem polícia se encontra numa encruzilhada psicológica sobre qual será realmente a sua sexualidade ainda por definir e auto-aceitar.
Der Samurai torna-se assim num filme sobre a violenta aceitação do desconhecido. Desconhecido esse que pode encontrar-se no seio de cada um de nós e que um dia pede para ser libertado. O inexplicável - mesmo para o próprio - que pode gerar conflitos psicológicos internos pela incompreensão de que "aquela" parte é, também ela, uma parte do próprio indivíduo da qual não se tinha conhecimento e que pelo retardar da sua descoberta, e como tal da própria auto-aceitação, se revela de forma inesperada e violenta. O medo do "outro", sendo esse por vezes o próprio "eu" desconhecido, que se revela e do qual se tem dificuldades em aceitar que não só abre portas para todo um mundo diferente e que, como tal, cria por si só todo um novo conjunto de medos pela ignorância daquilo que o espera.
No entanto, e para além de ser um filme com uma grande leitura filosófica, Der Samurai é também uma interessante história sobre a violência repleto de uma acção bruta, visceral e difícil de acalmar com duas intensas interpretações que consegue ao mesmo tempo entregar um ou dois apontamentos de comédia pela implacabilidade que se gera nas duas personagens principais para com as pequenas e desinteressantes vidas que, de certa forma, inconscientemente os proibem de se tornarem indivíduos plenos, independentes e donos de um destino que, até então, nunca tinha obtido possibilidade de se concretizar.
Com uma interessante direcção de fotografia de Martin Hanslmayr que transforma a noite num lugar verdadeiramente assustador e repleto de perigos ao virar de cada esquina - quererá algum de nós viver naquela localidade e sair à noite? - Der Samurai é uma agradável surpresa que não irá deixar nenhum cinéfilo indiferente.
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7 / 10
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