quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Boa Noite Cinderela (2014)

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Boa Noite Cinderela de Carlos Conceição é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na secção de Competição de Curtas-Metragens desta 18ª edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Estamos em 1859. Após a meia-noite Cinderela - a Criada - (Joana de Verona) foge deixando para trás um dos seus sapatos de cristal. O Princípe D. Luís (João Cajuda) quando escontra este invulgar sapato resgata-o encetando uma missão para encontrar o seu par com a ajuda do seu fiel escudeiro D. Afonso (David Cabecinha).
Lembram-se da história da Cinderela e todo aquele conto infantil de encantar? Esqueçam-no... Aqui não só a perspectiva apresentada por Carlos Conceição é através do olhar do Principe e não de uma qualquer potencial Princesa como, acima disso, passamos de um conto de encantar a uma história carnal e de um fetichiscmo lascivo que nos faz apontar Boa Noite Cinderela como o primeiro grande filme erótico da década. Aqui o romantismo que qualquer conto de encantar nos habituou ficou à porta dando lugar a uma história onde o desejo - carnal ou não - é o elemento chave para todas as acções.
Quando esperamos de um conto de encantar uma história onde o romance é o mote principal para o desenrolar da história, Boa Noite Cinderela prova ao espectador que o romantismo apenas existe nas exuberantes paisagens naturais de Sintra onde esta história é filmada ao mesmo tempo que confirma que os contos apresentados por Conceição são, à semelhança do que já acontecera com Carne (2010) e Inferno (2011), verdadeiras histórias de desejo, carnais, intensas, físicas e suficientemente exibicionistas para tornarem qualquer espectador num elemento participativo e, como tal, voyeurista per si.
O trio de personagens são também elas bastante curiosas. Se normalmente temos o principe e a princesa que desejam viver uma história de amor que está na maior parte do tempo desencontrado sendo ocasionalmente auxiliados por algumas das personagens que lhes estão mais próximas, Boa Noite Cinderela apresenta toda uma diferente e entusiasmante dinâmica quando coloca como protagonistas "Principe" e "Escudeiro" numa relação homo-erótica "assumidamente não assumida". "D. Luís" enquanto principe que desespera por encontrar o sapato perdido e satisfazer assim o seu mórbido desejo por um par de sapatos exuberante e vistoso que o excita sexualmente, não deixa de demonstrar ao mesmo tempo uma constante atracção pelo seu mais próximo "D. Afonso" que se percebe exercer sobre ele um fascínio evidente.
A presença da "Criada/Cinderela" é apenas uma afronta a "D. Afonso" que teme perder o seu lugar de eleição junto de "D. Luís" estando este unicamente interessado em satisfazer o seu fetiche... O encontro deste último com a portadora do sapato assim o prova... ele satisfaz o seu fetiche pelos pés da mesma não por sentir por ela qualquer desejo, ou sequer interesse, mas sim por esta ter usado nos seus pés tão preciosos sapatos. Que o confirme o único momento "sexual" deste filme entre o principe... e o sapato.
Aqui nem o principe é encantado, nem a "Cinderela" uma devota apaixonada. Pelo contrário, ambos sentem apenas prazer com aquilo que o outro lhes pode fornecer. O Principe apenas deseja satisfazer o seu fetiche que "Cinderela" lhe pode fornecer sendo que esta, no entanto, deseja fortemente um outro estilo de vida apenas possibilitado pelo primeiro... Num mundo imperfeito onde as classes bem estratificadas existem, apenas o principe se safa podendo ignorar que lhe é "inferior" e vivendo de uma qualquer entrega carnal - não confirmada - de um fiel "D. Afonso" que além de um potencial amigo será também seu fiel amante e zelador dos seus (de ambos) interesses, vivendo esta três personagens num seio de intrigas palacianas, silêncios ruidosos e desejos nem sempre escondidos numa trama assumidamente carnal, física e quanto baste explícita.
Se Joana de Verona é já um nome confirmado para o - bom - futuro do cinema português (sorte do realizador que a consegue ter num filme) pois consegue impôr-se naturalmente tanto em interpretações mais suaves como - aqui confirmado - nas mais intensas e desafiantes, João Cajuda assume-se como a grande e agradável surpresa com o seu "D. Luís", não só pela exposição em que se coloca como pela intensa perversão com que interpreta o seu principe pouco encantado. Raras são as interpretações ditas "de risco" que conseguem cativar o espectador pela sua entrega e disponibilidade para um desempenho que certamente não será fácil. Mais raras são quando denotam que o seu intuito é pouco altruísta mas assumidamente egoísta ao representar apenas e só o seu próprio ímpeto para com um desejo que quer satisfazer, ignorando todos os demais em seu redor ainda que, por um deles, mantenha um igual desejo (talvez por conveniência) não assumido.
Finalmente, e longe de ser menos importante, é a intensa e possivelmente central interpretação de David Cabecinha como "D. Afonso", o escudeiro, fiel amigo e muito provavelmente amante do principe que tudo vê, tudo sabe e tudo faz para salvaguardar a sua posição junto do mesmo e satisfazendo assim os seus próprios desejos homo-eróticos (mais ou menos reprimidos nunca sabemos), eliminando - pensamos - toda a concorrência à sua volta naquele que é um improvável, mas aqui certo, triângulo não amoroso mas de consumação de desejos.
E se o argumento de Carlos Conceição é uma intensa e brilhante reflexão sobre o desejo e a sua materialização, e se as interpretações dos três actores se complementam pela excelência, Boa Noite Cinderela é ainda um dos mais fortes filmes do ano a nível técnico ao entregar alguns dos mais ricos elementos de composição de espaço que vi nos últimos tempos. A direcção artística de João Rui Guerra da Mata é, sem margem para qualquer dúvida, um dos pontos fortes deste filme colocando todos os espaços com pequenos detalhes que desejamos devorar visualmente onde tudo tem o seu espaço numa magnífica composição de época que é enriquecida por um guarda-roupa e uma caracterização de Rita Alvares Pereira dificeis de superar.
Finalmente um apontamento à direcção de fotografia de Vasco Viana que transforma toda a Serra de Sintra num espaço enigmático - tão ou mais que as personagens aqui retratadas - e que a transformam numa misteriosa quarta "personagem" capaz de definir muito do clima perfeitamente imperfeito que se pretende retratar.
Boa Noite Cinderela dá assim continuidade a uma obra de Carlos Conceição que retrata um certo despertar sexual das suas personagens mas aqui livre de complexos, de culpa, de restrições ou de tabus, exacerbando não só os desejos como a vontade de os tornar parte de um quotidiano - o deles - distanciando-se de qualquer conto de fadas que, apesar de presente, se torna apenas num pequeno alicerce de algo maior... o lado escuro de cada uma dessas personagens "encantadas".
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10 / 10
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