domingo, 14 de setembro de 2014

A Morte é o Único Perdão (2014)

.
A Morte é o Único Perdão de Rui Pilão é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das finalistas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror nesta oitava edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror a decorrer em Lisboa no Cinema São Jorge.
Largos anos após ter abandonado aquela que fora a sua casa, um homem (Filipe Rodrigues) regressa àquele espaço para nele tentar encontrar uma qualquer expiação para um passado por si não perdoado. É quando confrontado com o mesmo que este homem, cuja vida foi colhida pela dependência de drogas, revisita as suas experiências e os traumas que delas perduraram.
Depois de Desespero com a qual venceu uma Menção Honrosa na edição do ano passado, Rui Pilão - realizador e argumentista - está de volta ao MOTELx com o seu mais recente trabalho. A Morte é o Único Perdão é em relação à anterior curta - boa de sinal - um claro e evidente salto na qualidade fílmica deste realizador que entrega uma vez mais uma intensa história sobre a relação do Homem com o espaço - a personagem interpretada por Filipe Rodrigues e a casa em que a mesma habitou - e é para mim um dos mais fortes candidatos ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror com esta história psicologicamente tensa que comprova que para ser e ter bom terror não são necessários ruidosos recursos sobre um qualquer monstro que invade o planeta Terra.
Em A Morte é o Único Perdão é por demais evidente que o monstro, o verdadeiro monstro, é aquele que reside em e entre nós, que se disfarça na aparência que vemos todos os dias ao espelho ou nos rostos familiares que por entre nós se encontram e graças à sua aparência dita "normal" se escondem aos olhares de todos.
Se por um lado Rui Pilão nos leva a conhecer este homem (Filipe Rodrigues) perdido para a toxicodependência da qual não parece ter recuperado, não é menos verdade que ao mesmo tempo são enviados sinais para o espectador que explicam - ou pelo menos levantam a suspeita - de que este consumo é fruto desse tal passado não falado mas que o atormentou toda a sua vida e o levou para longe daquela casa cujo "espírito" ainda vive. Alucinando ou não, este jovem vive perdido na imagem de um outro mais velho que parece destabilizar toda a sua existência e conferir-lhe um tormento do qual parece não conseguir sair. A relação entre estes dois homens - suspeita desde o primeiro instante - leva o espectador a suspeitar de algum evento traumático entre ambos - algum tipo de abuso físico, tortura psicológica ou extrema dependência - que nunca foi devidamente tratado e ultrapassado. O passado torna-se então num evento sempre presente e constante que o tornam cativo das suas próprias memórias e dos acontecimentos que o definiram tal como ele é e que desperta assim que volta a entrar naquela casa.
A casa é, uma vez mais, um próprio elemento/personagem da obra do realizador. À semelhança do que já acontecer com Aqui Jaz a Minha Casa (2012) e Desespero (2013), toda a acção de A Morte é o Único Perdão decorre dentro de uma casa. Sempre a casa das personagens principais e sempre um espaço que sofre de um qualquer tipo de decadência física ou moral dos seus habitantes. Assim o tivemos com Aqui Jaz a Minha Casa onde o seu protagonista sofre de abandono extremo ao ponto de se querer findar naquele espaço ou em Desespero quando a crise económica que se faz sentir tornou o casal protagonista num que apenas encontra na morte a fuga para os seus problemas. A casa torna a ser a personagem silenciosa da obra de Pilão e que não tão discretamente se assume como tendo uma consciência, como retendo as suas próprias memórias e as daqueles que por ela passaram... Retém tristezas, alegrias, sofrimento, dor e principalmente a mágoa e as feridas nunca saradas dos seus habitantes. A casa existe, comunica e expia os pecados de um passado silencioso que a cada minuto que passa se assume ruidoso e impiedoso. O passado está à espreita e a memória desta casa não o vai deixar passar em branco. À semelhança do que ocorrera com Aqui Jaz a Minha Casa, esta curta-metragem e a casa onde toda a acção decorre recuperam o imaginário do abandono mas se na anterior este é devido à desertificação prende-se com a fuga do protagonista que não aguentou a pressão do abuso e da sua própria perda de inocência. Mas as memórias existem e estão lá todas prestes a fazer explodir toda uma série de emoções que se têm como reprimidas e "esquecidas".
A morte está, também ela, sempre presente. Aliás, é na figura da casa que esta se encontra e estabelece uma linha condutora entre as obras já referidas do realizador. A morte é talvez a única fuga possível do imaginário destas personagens e todas elas lhe recorrem para justificar os seus actos ou até mesmo a validação da sua existência... Para morrer é preciso ter existido e é nesta existência - ou no seu fim - que se pode confirmar que apenas a morte se torna numa libertação.
No entanto existe uma mensagem sempre presente em A Morte é o Único Perdão e que difere das curtas-metragens anteriormente referidas. Se em Aqui Jaz a Minha Casa esta é sobre o esquecimento e em Desespero sobre uma impunidade sobre os actos perpetrados, aqui esta mensagem está intimamente ligada com o perdão. Não com o perdão alheio sobre os actos que aquele jovem cometeu mas sim sobre o perdão que ele - nunca - conseguiu sentir por si próprio... pela sua inocência perdida... pela sua dependência... e pela perda de boa parte da sua vida às mãos de um passado do qual apenas sobreviveu fisicamente tendo, no entanto, ficado psicologicamente refém do mesmo. Perdão esse que está, ao mesmo tempo, intimamente ligado à ideia de culpa... A culpa tão "católica" de um passado do qual não se conseguiu livrar... Pior ainda, a culpa por ter sido vítima de um qualquer predador que o assediou e o levou à destruição do seu "eu" e da sua imagem, e que agora sente por não lhe ter conseguido resistir.
A Morte é o Único Perdão transforma-se assim num testamento premonitório sobre o único escape possível. A única forma de poder ultrapassar esses eventos traumáticos e uma vida vivida na desgraça, na miséria e na clausura psicológica. A morte... a única capaz de lhe conferir a paz que em vida jamais alcançou e Filipe Rodrigues revela uma intensa e apaixonante interpretação como o tal jovem homem que se deixou perder e consumir pelas memórias de um passado que nunca o abandonou e que se cumpre nas paredes e corredores daquela casa que é a sua própria prisão física e psicológica.
Rui Pilão que a cada obra revela um constante amadurecimento, destaca-se pela constante presença de uma simbologia sobre a culpa, a existência, a dor, a morte e uma tentativa de justiça - talvez não justa - mas que consiga saciar as ânsias das suas personagens, dos seus tormentos e das suas existências marcadas pela memória já ida. Pilão revela-se um contador de histórias... aquelas que normalmente o espectador prefere - na sua própria realidade - esquecer ou ignorar. Histórias sobre vidas traumáticas e traumatizadas e que existem escondidas aos olhos de todos. As histórias dos errantes marginais que se escondem nas fileiras mais ocultas das sociedades dos quais todos nós já "escutámos" algo mas que preferimos desconhecer por ser mais tranquilizador. Aquelas histórias que, tal como disse no início, que comprovam que o terror existe sem que para tal seja necessário vir de um qualquer outro planeta... Ele existe e está à nossa volta, e Pilão demonstra que está sempre preparado para devorar a nossa existência.
.
.
9 / 10
.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário