quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Esquizophonia (2013)

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Esquizophonia de Diogo Leitão e André Miranda é uma curta-metragem portuguesa de ficção onde o espectador acompanha um compositor (João Reis) num mundo de uma crise aguda de esquizofonia na qual as suas convicções enquanto criador de música são abaladas por perder a percepção dos sons e dos instrumentos que os reproduzem. Por outras palavras, os instrumentos que sempre conhecera e aos quais atribui instintivamente o são... aparentam agora ter (ecoar) toda uma realidade diferente.
André Miranda - um dos realizadores - é o autor do argumento de Esquizophonia, uma curta-metragem onde os demónios de um homem emergem à superfície da sua realidade, abalando de forma transformadora as suas convicções, o seu "eu" e principalmente, a sua capacidade criativa enquanto música reputado.
Claramente tida como uma doença do foro psicológico à qual João Reis confere toda uma dimensão extra-sensorial, em Esquizophonia a dupla de realizadores consegue filmar a descida de um homem a um inferno pessoal desconhecido onde toda a razão da sua existência sai abalada fruto da perda da sensibilidade artística que, de certa forma, define o seu ser. Quando os sons que sempre conheceu ganham uma vida nova, transformando-se em vozes ou ritmos que o atormentam, este "Compositor" cai imediatamente numa espiral de auto-destruição - física e psicológica - que reduzem a sua percepção do mundo a um estado de desconhecimento e semi-consciência que o consomem pela novidade, pela estranheza e principalmente pelo desnorte a que se sente vetado.
"Por vezes não ver pode ser uma benção", é com esta frase de August Strindberg que se inicia Esquizophonia e que, de certa forma, marca também o seu final com aquela que será a prova de fogo de um homem que se sente atormentado pela perda da sua sensibilidade - e da sua arte - e que terá de escolher poder continuá-la tendo, dessa forma, de perder toda uma outra capacidade que lhe irá condicionar a vida.
Entre sacrifícios e provações encontra-se uma intensa interpretação de João Reis, que felizmente regressa ao cinema - aqui em formato curto - dando corpo e uma alma a um homem à beira de um precipício psicológico - logo uma alma atormentada - e que terá de viver uma escolha... a perfeição psicológica ou a integridade física... porque nem tudo poderá ter na vida, a sua escolha será determinante para a prossecução de um caminho.
Com uma direcção de fotografia de Rita Laranjeira que leva o espectador a uma viagem pelo surreal, Esquizophonia é um interessante estudo sobre a percepção e a sanidade psicológica. Sobre a lucidez e a espiral decadente na loucura. No fundo, a viagem de um homem que caminho num limbo... entre a percepção e o irreal... entre a lucidez e a fantasia nesta curta-metragem que obriga o espectador a utilizar não só a visão como principalmente a audição para se sentir "dentro" do drama do seu protagonista.
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8 / 10
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