quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Mahjong (2013)

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Mahjong de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata é uma curta-metragem portuguesa e o quarto filme - até agora - que leva a dupla até ao antigo território português na Ásia - Macau - não fisicamente mas sim através da comunidade e suas influências em Portugal.
Varziela em Vila do Conde é tida como a maior Chinatown portuguesa, facto que pode facilmente ser comprovado pela comunidade presente no bairro, seus restaurantes e lojas típicas.
Numa viagem de carro cujo protagonista - Guerra da Mata - narra num tom de mistério e suspense, Mahjong percorre as ruas da zona industrial da localidade onde num cruzamento entre um film noir muito ao estilo de David Lynch e o documentário, o espectador observa o espaço e as suas marcas como que numa constante espera por uma surpreendente revelação.
O ambiente de Mahjong é assumidamente sinistro. As ruas desertas percorridas durante a noite como que numa busca de algo, ao som de uma direcção musical de Luís Fernandes que transforma toda esta viagem numa experiência penosa - pela própria espera -, recuperam a ambiência de uma história onde os segredos por revelar são mais importantes do que as escassas certezas que se instalam.
Aquela que é uma zona onde - supomos - toda a vida flui durante a luz do dia, encontra no entanto toda uma nova dinâmica na noite escura onde as banais ruas de uma localidade portuguesa parecem saídas do mais misterioso e oculto dos bairros chineses. Por momentos ocorre ao espectador aquela velha máxima do "what happens in Vegas, stays in Vegas" aqui alterado por Varziela que se assume como uma alma escondida de um novo espaço colectivo onde a vida está ausente mas os fantasmas povoam todos os pequenos recantos da mesma.
Num claro "confronto" Ocidente versus Oriente que encontra na localidade portuguesa o seu palco principal, a dupla Rodrigues/Guerra da Mata fazem com que Mahjong recupere elementos e alguma essência de um A Última Vez que Vi Macau através não só do óbvio estilo de narração como do elemento feminino anónimo que percorre as ruas ou até mesmo a viagem onde o protagonista raramente o é fisicamente.
Os elementos que união entre estas duas obras não terminam por aqui. Se em A Última Vez que vi Macau - vendo agora Varziela - são as estruturas e os espaços que dão cor a uma viagem do protagonista, em Mahjong são os pequenos objectos fruto de uma já conhecida actividade comercial desta comunidade asiática que caracterizam a sua presença no espaço. Animais de plástico como brinquedos, flores, manequins, pássaros mecânicos como decoração invadem estas ruas transformando-as não em portuguesas mas em claros "bairros" de população asiática moldando a realidade como fora conhecida até então.
A realidade nacional e a percepção do espectador são colocadas em causa. Não fosse identificado, que bairro seria aquele? Porque estaríamos nós a percorrê-lo como que numa incessante busca por algo que parece não estar ali? Quem será a estranha mulher nunca identificada que percorre aquelas ruas numa noite deserta? Que mundo é este que pensamos conhecer mas que, na realidade, apresenta uma dimensão diferente daquela do nosso imaginário? No final, interessará ter estas questões como uma resposta?
Tendo como pano de fundo uma ideia de que a realidade e a imaginação se confundem ao ponto de por vezes ser difícil distinguir ambas, Mahjong tenta entregar ao espectador uma percepção de que os espaços - tal como os conhecera - alteraram-se, redefiniram-se e são "hoje" uma realidade completamente diferente da de outrora. As culturas (comunidades) mesclam-se... Criam-se guettos... espaços pouco comuns sujeitos à suspeição, ao mistério, ao preconceito e a um conjunto de costumes diferentes... por vezes alternativos... que se questionam por essa mesma diferença e por séculos (milénios) de práticas e crenças pouco idênticas.
Mahjong vence pela ambiência de mistério(s), pelo clima de um constante suspense, pela narração como forma de criar uma tensão intermitente, pela vontade criada no espectador de observar, de tentar ver pequenos detalhes, pistas onde por vezes elas não existem e pela extraordinária música original de Luís Fernandes que - como já referido - é seguramente o ponto mais (e mais forte) de todo este filme curto.
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"O pessimista reclama do vento. O optimista espera que ele mude. O realista ajusta as velas."
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6 / 10
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