sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Blutgletscher (2013)

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Blutgletscher de Marvin Kren é uma longa-metragem austríaca presente na Secção Serviço de Quarto do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 14.
Janek (Gerhard Liebmann) é o técnico de uma estação meteorológica no topo dos Alpes Austríacos. Isolado dos demais colegas, Janek prefere a companhia do seu sempre fiel cão numa altura em que a estação se prepara para receber a visita da Ministra Bodicek (Brigitte Kren) para uma estadia que se quer não só mediática como tranquila.
No entanto, é neste mesmo momento que os cientistas que se encontram com Janek descobrem um estranho líquido vermelho a escorrer do glaciar para mais tarde descobrirem que é parte de um organismo em mutação. É esta mesma descoberta que muito rapidamente lhes vai dar a perceber que não se encontram sózinhos naquele isolado glaciar.
Benjamin Hessler, o autor do argumento, entrega uma interessante perspectiva sobre um mundo em transformação no qual as espécies têm obrigatoriamente de se adaptar não só entre si como a um novo ecossistema em transformação resultante das alterações climatéricas que têm afectado o planeta nas últimas décadas. Assim, e recorrendo também a alguma justificação mitológica do passado, Blutgletscher equaciona a possibilidade de novos organismos resultantes do cruzamento de outros tantos já existentes, conseguirem recriar a simbiose perfeita criando assim novos seres mais ou menos selvagens que poderão dominar o nosso planeta num curto espaço de tempo demonstrando toda uma nova realidade que desconhecemos.
Com esta premissa e interpretações que até se demonstram consistentes e fiéis ao género em causa, o espectador deixa-se levar por esta aparente nova realidade que Blutgletscher pretende recriar e que escolhe o cenário natural perfeito para lhe dar alguma vida e cor; afinal que lugar mais perfeito do que um glaciar perdido onde apenas um conjunto de humanos - e um fiel animal - se encontram, naquela que é uma clara alusão ao universo Carpenter em The Thing. Igual potencial demonstra todo o clima de claustrofobia e tensão sentido na pequena cabana em que se refugiam os cada vez menos sobreviventes desta nova e desconhecida ameaça onde o simples recurso a efeitos sonoros mais ou menos assustadores dá cor a toda uma acção que aprisiona à medida que se sucedem os acontecimentos.
No entanto, nem tudo é perfeito quando alguma desconcertada ambição leva o realizador a optar por um conjunto de efeitos especiais pouco elaborados e notoriamente grosseiros que transformam os nossos monstros em elementos claramente desenquadrados do espaço em que se encontram, percebendo o espectador que é de facto um efeito especial, e principalmente no resultado que, quase arrisco dizer, se torna andrógeno ao querer recriar uma instável e improvável nova raça que apenas se quer salvar por ser a "descendente" directa do cão que servia de elo entre o casal agora desfeito (?). Quase potencialmente absurdo, o desfecho de Blutgletscher não só é resível por si só ou pela tentativa de se tornar num fime "sério" (que nunca o foi), como deita por terra todos os esforços de recriar um filme de acção, suspense e terror tidos ao longo de todo o filme, e que nem as desinspiradas interpretações do conjunto de actores conseguiram destruir mas que são na sua conclusão uma amálgama de disparates sem nexo.
Limitando-se a ter o simpático registo da interpretação de Brigitte Kren como a "Ministra Bodicek", que assume de pulso os destinos dos sobreviventes, Blutgletscher está longe de ser um razoável sucessor de The Thing - isto é praticamente uma blasfémia se se teve com estas pretensões - tornando-se antes num daqueles filmes que vai cativando pelo seu crescendo mas que rapidamente queremos esquecer por se tornar numa comédia barata e mal elaborada de si próprio e que leva o espectador a perder todo o respeito que até certa altura lhe conferiu.
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3 / 10
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