segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Cloud Atlas (2012)

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Cloud Atlas de Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski foi desde bem cedo o filme que mais antecipei ver durante todo o ano. Não só o argumento repleto de histórias interligadas me parecia fascinante como também o conjunto de actores onde se destacam Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Wishaw ou Jim Broadbent era motivo mais que suficiente para pensar nele como O filme do ano.
A obra de David Mitchell agora adaptada ao cinema, centra todo o seu enredo numa "simples" premissa: tudo está interligado... o passado, o presente e o futuro. Desde uma viagem pelo Pacífico e o diário de bordo escrito por um dos seus passageiros às cartas de amizade e amor escritas por um compositor ao seu amante e amigo passando pelos sinistros acontecimentos em torno de uma central nuclear, uma clone revoltosa numa Coreia futurista ou até mesmo os dias de uma tribo num Hawaii pós-apocaliptico. Tudo está definitivamente interligado entre si.
Temos então uma primeira acção do filme que nos transporta até meados do século XIX onde estão para ser assinados contratos que estabelecem a continuidade da mão-de-obra escrava para as plantações do sul dos Estados Unidos. Temos um segundo momento no qual a acção se desenrola já no século XX, por volta dos anos 20 e 30, onde é vivido um romance proibído, e interrompido, entre um escritor e um músico que pretende escrever a grande obra pela qual será recordado (e que não será mais do que a prova do seu próprio amor). Um terceiro segmento coloca-nos nos anos 70 do século XX onde, o escritor já dotado de alguma idade encontra uma repórter de investigação a quem entrega valiosos documentos de uma central nuclear com sérios riscos para a segurança humana. Pelo meio temos um escritor e agente literário que apanhado no meio dos seus próprios esquemas e artimanhas, é enviado pelo seu irmão para um lar de idosos bem agressivo do qual parece não conseguir escapar, e onde reflete sobre aquilo que deixou por cumprir no seu passado.
Os dois momentos finais deste filme centram-se já no futuro ao sermos transportados para uma nova Coreia onde todos os testemunhos do passado são já uma miragem quase esquecido nos subterrâneos da cidade de Seul onde é descoberta uma não menos estranha conspiração sobre o que se passa por detrás dos olhares menos atentos e finalmente, o último momento deste filme que nos transporta para um mundo pós-apocalíptico onde a população definha aos poucos tanto às mãos de doenças que noutros tempos (os nossos) seriam de fácil resolução mas que agora os vitimizam tão rapidamente como os grupos armados e violentos que aos poucos espalham o terror.
Assistimos assim a um conjunto variado de momentos e acções individuais através da História que, de uma ou outra forma, através das consequências que originam irão afectar de forma determinante não só o presente como também o futuro, demonstrando assim a importância individual de cada um deles.
Depois de um trailer francamente convincente e que é capaz de atrair as atenções dos mais descrentes, este filme seduz-nos a cada minuto que passa. O argumento, também ele escrito pelo trio de realizadores, não só constitui um desafio em si como é também ele rico ao ponto de em cada uma destas histórias que se interligam, capaz de criar um próprio filme. Quer seja passado no século XIX, na actualidade ou num futuro que nenhum de nós conhece, não deixa de ser verdade que se pensarmos em cada uma destas histórias isoladamente, facilmente percebemos que todas elas são capazes de individualmente criar o seu próprio enredo com muito por onde poder explorar.
Dito isto, se pensarmos então em criar um elo de ligação entre todas elas de forma a conseguir dar-lhes a devida continuidade é, com toda a certeza, um golpe de mestre. O potencial existente apenas na premissa de que um acto do passado pode influenciar todo um futuro é, no mínimo, apelativo. Todos nós pensamos na hipótese de que se a dada altura tivessemos escolhido outro rumo, ou tomado outra decisão, que a vida de todos poderia ser diferente, então este é o filme ideal para se ver. E por detrás de todas estas histórias estão ainda premissas, sentimentos ou ideais que acabam por fazer parte da vida de todos... o amor, a liberdade, a dedicação, a justiça ou algo tão simples como poder viver melhor do que o legado que nos foi confiado de geração em geração como clara contraposição ao conformismo, à clausura, à tirania e à opressão. No fundo, momentos e formas de vida que, de uma ou outra forma, acabam por fazer parte (sem excepção) de todos nós.
O conjunto de actores não poderia ser melhor. Tom Hanks como um médico nos 1800's, um cientista em 1973 ou um homem amedrontado num futuro longinquo, acaba por deter uma das interpretações mais centrais e longas de todo o filme que, tal como a história, liga diversas personagens perdidas no tempo. Igual a si próprio Hanks detém naturalmente a interpretação principal do filme sendo que é de maior destaque em alguns desses momentos (passado e futuro principalmente), o mesmo sucedendo com Halle Berry que participando em todas as épocas em que o filme se desenrola assume um maior protagonismo no "presente" com a sua repórter "Luísa Rey", ou no futuro onde encarna claramente uma espécie humana mais evoluída e informada.
No entanto não sou capaz de referir Jim Surgess ou Ben Wishaw como os dois actores que mais me impressionaram com as suas interpretações em todo o filme. Sturgess conseque cativar qualquer um com o seu "Adam" abolicionista nos 1800's ou com o seu desempenho como o superior "Hae-Joo Chang" que numa Coreia já ela devastada por uma qualquer catástrofe, e que pelo bem da Humanidade se deixa levar pelo coração e pelo amor, como os únicos verdadeiros garantes da sobrevivência da mesma. Já no que diz respeito a Wishaw (que felizmente repete a sua genialidade às mãos de Tykwer), tem um emocionante e sentido desempenho enquanto "Robert Frobisher", o apaixonado e atormentado músico homossexual que vive no drama de ter escolhido terminar a sua sinfonia para aquele que ama sem que, no entanto, este possa estar perto de si e que, uma vez terminada a mesma, este não a possa disfrutar a seu lado mostrando assim a prova do se eterno amor.
Se as interpretações deste fantástico conjunto de actores são excelentes, não menos o é toda a edição do filme a cargo de um brilhante trabalho de Alexander Berner, e que seria na minha opinião um dos mais justos Oscars atribuídos neste próximo ano. Um filme com um enredo que se interliga em diversos períodos temporais e com um conjunto de personagens tão rico e diversificado só poderia resultar se os elos de ligação entre todos eles fossem fortes. Aqui além de o serem, prezam ainda pela capacidade de conseguir alternar entre os vários espaços temporais sem que dê a ideia ao espectador de que estamos a viver histórias diferentes. A acção "salta" dos 1800's para 1973 e daqui para lá de 2100 com uma naturalidade filmica que nos dá quase sempre a impressão de que estes momentos estão realmente a ser vividos com uma sequência cronológica natural e não com o desfazamento de décadas ou gerações. Tão rapidamente nos encontramos em 1973 como segundos depois somos transportados para um futuro apocalíptico ou daqui para o século XIX sem que a acção e os acontecimentos se percam pelo caminho. Pelo contrário, eles parece que realmente estão a ocorrer naquele exacto momento como um desenlace natural do momento a que assistimos imediatamente antes.
A banda-sonora do filme é, também ela, épica. Reinhold Heil, Johnny Klimek e Tom Tykwer criaram um conjunto de acordes e melodias que nos inspiram e tornam este filme num momento tão grandioso como a própria sinfonia composta por "Robert Frobisher" (Ben Wishaw), dando não só o sentimento necessário para que um filme crie alguma identificação com o seu público como também para que ele se torne numa alma que consiga perdurar ainda durante bastante tempo.
E a mesma genialidade se consegue encontrar na fotografia da autoria de John Toll e Frank Griebe que transforma as cores e luzes do passado num advento de esperança, as do "presente" em algo assustadoramente ténebre e as do futuro num espaço desprovido de rumo e de esperança onde o medo é já uma constante que se apoderou dos corações dos Homens.
Este Cloud Atlas não será certamente um filme que possa ou que irá agradar a todos. Pelo contrário, é mais provável que desagrade pelo conjunto quase interminável de momentos que parecem, à partida, por cumprir e que se sucedem a um ritmo alucinante. A atenção que precisamos dispender para ver este filme não se pode quebrar e desde que o começamos a visionar temos de seguir todos os momentos da história sem que nos falhe nenhum pois é um facto que não é um filme convencional onde a linha temporal e cronológica se suceda naturalmente. Aqui passado, presente e futuro estão, de facto, interligados e todos os momentos independentemente da época em que tenham ocorrido estão intimamente ligados aos demais fazendo com que o que acontece "agora" no ecrã seja realmente o momento precedente do que irá acontecer "depois", mesmo que este seja temporalmente a centenas de anos de distância... Confuso? Não é, garanto.
É um filme emocionante, trágico e com momentos da História passada que não deveriam ser esquecidos. Por vezes cómico e por outras sentimental que irá geral paixões e certamente alguns ódios mas que no final não irá deixar nenhum de nós indiferente e saberemos que assistimos para o bem (ou para o mal) a um dos filmes mais marcantes do ano e seguramente dos últimos anos, e filme este que não ficarei espantado se no próximo ano ficar nomeado para algumas das categorias técnicas nos prémios da Academia.

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"Sonmi-451: Our lives are not our own. We are bound to others. Past and present. And by each crime and every kindness we birth our future."
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10 / 10
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