sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Life of Pi (2012)

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A Vida de Pi de Ang Lee, realizador já premiado com um Oscar, é um filme para o qual serve apenas uma simples palavra... mágico.
Neste filme acompanhamos a história de Pi Patel (Suraj Sharma), filho do dono de um zoológico em Pondicherry na India que face a uma crise financeira e por pouca prosperidade no país decide emigrar para o Canadá onde pretende vender todos os seus animais e começar aí toda uma nova vida.
No meio da viagem o navio em que viajam enfrenta uma forte tempestade no Pacífico, que resulta no naufrágio do mesmo e do qual saem, aparentemente apenas cinco sobreviventes. Pi, uma zebra, uma hiena, um orangotango e Richard Parker... um tigre.
Esta estranha tripulação que agora se encontra num pequeno bote salva-vidas terá agora não só de aprender a sobreviver na imensidão daquele Oceano como, principalmente, saber como sobreviver às constantes ameaças que parecem constituir uns para os outros.
É mais tarde, já como marido e pai de dois filhos que ao contar a extraordinária história da sua sobrevivência a um escritor, que Pi irá finalmente revelar todos os detalhes da sua longa e desgastante travessia pelo Pacífico que constituiu não só uma história de sobrevivência física como, principalmente, um verdadeiro teste aos limites da sua sobrevivência enquanto ser humano.
Se considerarmos que este é um filme de Ang Lee já temos meio caminho feito para esperar uma emocionante, e possivelmente comovente, história sobre a Humanidade. Por um lado sobre os seus limites e as suas provações, quase sempre colocadas pela sociedade ou pelo meio em que as respectivas personagens se inserem, e sobre a forma como um indivíduo em particular as enfrenta e as supera numa qualquer prova de resistência quer ela seja física ou emocional. Como cria o Homem laços que o liguem aos demais?
Esta pergunta poderia aqui ser respondida pelo "simples" facto de tudo ser explicado pela fé. A mesma fé que o jovem "Pi" descobriu quando, durante o seu crescimento e desenvolvimento, se "cruzou" com as várias fés que se faziam sentir na India ou nos conhecimentos que adquiriu. Quer fosse o islamismo, cristianismo, budismo ou judaísmo, o que liga realmente um homem aos demais? Àqueles com quem convive ou até mesmo àqueles que nunca irá ver na sua vida? O que o faz resistir, sentir, ver e viver através da maior provação com a qual alguém poderia ser confrontado?
No entanto, outra tão importante surge ao longo do filme, e que é de certa forma explorada mas não respondida, já bem perto do final quando o jovem "Pi" chega, finalmente ao seu destino. Porque será que em vez de celebrarmos as pequenas grandes coisas que temos durante toda a vida (principalmente enquanto as temos), nos limitamos a ignorá-las e que quando as perdemos definitivamente nos questionamos sobre a impossibilidade de lhes fazer "ver" o quão importantes eram?
Acabamos assim por pensar na vida, na morte, na perda, na dor e até mesmo na solidão que todas elas nos podem provocar e perceber assim que o tal "livro impossível de filmar" como tantos apregoaram vezes sem fim, conseguiu aqui ter uma magnífica e sentida adaptação ao cinema como só Ang Lee conseguiria filmar através do seu forte mas sentido olhar sobre aquilo que deveria realmente ser o mais importante... a alma humana. Essa mesma que pode ser frágil e sensível mas que no momento certo pode assumir uma força desconhecida que a faça seguir em frente e jamais desistir, tal como o brilhante argumento de David Magee nos consegue mostrar ao longo de todo este belíssimo filme.
Tal como procura toda a história mostrar, a alma humana, esta não poderia ter encontrado um melhor "rosto" do que aquele que o jovem Suraj Sharma lhe entrega. A sua sentida e emocionante interpretação, que acaba por ser quase dominante em todo o filme desde o início até ao final, tendo apenas alguns outros actores que em momentos específicos do filme também aparecem, faz-nos sentir que se dúvidas existissem sobre a existência ou não da alma de "alguém", elas seriam completamente dissipadas depois de ver toda a provação a que fora sujeito o seu "Pi". Curioso de início, desconfortável com aquela que seria a mais radical mudança a que a sua vida iria assistir, sobrevivente no meio de um ambiente hostil, desesperado com as provações de que seria alvo e, finalmente, esperançoso com o futuro que teve e que graças a si, apenas e só, conseguiu garantir para uma nova geração. Sim, a alma realmente existe, e ela não se encontra apenas em momentos específicos. Ela existe sempre estando, no entanto, escondida por nós de nós próprios, só se manifestando quando a sua própria sobrevivência se encontra ameaçada.
Se o argumento e a interpretação de Suraj Sharma são dois dos pontos fortes deste surpreendente filme, não deixa igualmente de ser verdade que outros são também de referenciar, nomeadamente aquele que acaba por agir como a segunda mais importante "personagem" do filme que é a emocionante banda-sonora de Mychael Danna que se assume como uma das potenciais nomeações a um Oscar que este filme poderá receber no próximo mês. Sempre presente em todos os momentos contribuindo na dose certa para o elemento dramático desta improvável viagem, esta banda-sonora é de escutar com atenção quase como se as imagens do filme nem estivessem no ecrã à nossa frente.
E seria quase impensável não referenciar outro dos pontos fortes deste filme, e provavelmente aquele onde irá certamente sair vencedor de um Oscar, que são os seus efeitos especiais que dão não só à tempestade uma dimensão verdadeiramente assustadora como a todo o ambiente seguinte a noção de que estamos realmente sózinhos num imenso Oceano que tanto se assume tranquilo como facilmente capaz de pôr fim a qualquer sonho ou esperança de sobrevivência.
Simplesmente emocionante pela aventura e acção... emotivo pela sua história de sobrevivência... dramático pelas suas trágicas revelações finais e um dos mais fortes e bem conseguidos filmes que o ano nos poderia entregar. Simplesmente imperdível.
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"Pi Patel: I suppose in the end, the whole of life becomes an act of letting go, but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye."
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9 / 10
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