sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Seita (2015)

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A Seita de André Antônio é uma longa-metragem brasileira presente na Competição Queer Art da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre até amanhã no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Recife, 2040. Uma cidade deserto após um abandono que levou a população a emigrar para as colónias espaciais. Um dos seus antigos moradores decide, um dia, regressar à cidade e à casa onde nascera na qual passa o seu tempo a ler, passear pelas ruas desertas e envolver-se sexualmente com vários homens. Um dia descobre "A Seita" que povoa o submundo da cidade.
Com argumento também da autoria do realizador, A Seita inicia a sua viagem com uma premissa interessante sobre um imaginário de um futuro já não tão distante. Desde o que que levou a população a abandonar o planeta ou o estado em que este ficou com cidades agora fantasmas de uma memória passada sem esquecer aqueles que podem ter permanecido na mesma como que se de uma resistência se tratasse fazem o espectador ansiar por acontecimentos que expliquem os porquês de uma sociedade no futuro que, no entanto, poucos sinais do mesmo exibe. Pelo contrário, em A Seita aquilo que o espectador confirma é o facto desse mesmo futuro ser não só desolador pela aparente extinção de boa parte da vida citadina como pelo próprio ruir das suas estruturas que aqui são meros sinais decadentes de um passado eventualmente próspero.
Eis que chegamos então à nossa personagem principal... Um jovem regressado das colónias espaciais onde vive boa parte de uma população com recursos para ter abandonado a degradação terrestre, e que aqui se presta a uma vida de uma decadência social apenas comparável - na nossa actualidade - a uma anunciada colonização onde colonizador "testa" os nativos para uma vida de ascenção social que, no entanto, não poderão manter. Este jovem, dotado de uma soberba sem paralelo, recupera a sua antiga casa para um ambiente senhorial, com finas e trabalhadas porcelanas, cortinas de veludo, arte e livros... muitos livros que cuidadosamente estão dispersados pelo apartamento e que ele exibe com orgulho como explicativo da sua condição social... quanto mais livros... mais culto é (será?).
É neste mesmo apartamento que ele tece frívolos diálogos com os homens que atrai para a sua casa, na qual se deleita pelos prazeres da carne mas com os quais nunca estabelece qualquer tipo de empatia para lá da frivolidade necessária para se exibir e ali os atrair como que uma aranha que aguarda a sua próxima presa. Numas ruínas - que julgamos fazer parte da cidade do Recife - este jovem passeia-se sem qualquer preocupação a escolher a "vítima" para uma nova noite sem nunca repetir... tal a sua aparente indiferença face a uma necessidade carnal que precisa saciar.
As ruas - escutamos por breves momentos - são inseguras. As pessoas desaparecem e apesar da sua aparente tranquilidade, percebemos que existe um desconforto e sobressalto com as ocasionais sirenes da polícia que se fazem ouvir. Os edifícios estão, também eles, desertos e a vida humana da cidade parece apenas residir em espaços como as ruínas onde ele engata... Por medo, vergonha, receio ou incerteza, todos parecem habitar os meandros mais escuros de uma cidade repleta de luz. Não existe população mais velha. Não existe nenhuma lei aparente. Existem encontros casuais, de circunstância e a sombra de uma seita que governa o lado oculto de uma cidade decadente e em ruínas.
Ao contrário das colónias espaciais, no Recife todos dormem. Todos sonham. Todos vivem tranquilos na sua incerteza. Divertem-se de noite num clube e a vida que em tempos predominava é agora - para eles - o único conforto que os faz distanciar-se de uma população mais velha com o peso de uma qualquer responsabilidade. Incerto, o espectador, vislumbra todo este cenário pouco apelativo com a esperança de poder enfrentar aquilo que se avizinha... sem saber o quê...
Perdido numa vaga de momentos pseudo-intelectuais que teorizam sobre uma sociedade superior embelezada com elementos do passado - a arte, as xícaras, os comportamentos trabalhados e os livros como mostra de uma qualquer intelectualidade - fazem de A Seita uma longa-metragem à qual o espectador se sente indeciso sobre uma de duas possibilidades... a primeira, e mais simplista, é sobre uma qualquer mensagem que se pretendeu transmitir sobre uma sociedade de falsas aparências na qual todos levam uma vida dupla... aquela que durante o dia é minimamente aceite aos olhares exteriores mas que, durante a noite, se catapulta para uma estranha boémia onde - finalmente - todos os sentidos ficam apurados para os prazeres reais. A segunda interpretação - e aparentemente aquela que consegue fazer mais sentido no imediato (e não só) - que leva o espectador a reflectir sobre a presunção do argumentista e realizador face a uma obra que tenta ser intelectual e metafórica mas que, na realidade, não ultrapassa essa pseudo-intelecutalidade mergulhando em lugares comuns - mais banais - sem eira nem beira, sentido ou mensagem encriptada, tornando-se facilmente ridicularizada, propositadamente ofensiva e altamente aborrecida. Não sou de adormecer na exibição de um filme mas... que escutei bocejos... escutei.
A Seita vive de uma premissa desafiadora. De um objectivo comprometido com uma mensagem vinda de um eventual futuro e até de uma tentativa de teorizar sobre uma potencial questão ambiental que fez o Homem abandonar o seu espaço natural... mas perde-se com a frivolidade, com a mediocridade e com o fraco savoir faire que se espera de uma obra ambiciosa na sua mensagem e que poderia ser competente mesmo com os eventuais parcos recursos que estariam disponíveis para a mesma e que não definiriam a sua limitação.
Com personagens pouco empáticas e - também elas - a exalar comportamentos que mesclam o banal, o ridículo e o preconceito (ou pré-conceito), A Seita é - à data - o filme mais dispensável e com menor qualidade que o QueerLisboa exibiu em qualquer uma das suas secções... o mesmo filme do qual o público saiu com sorrisos esboçados sobre a sua mediocridade... ou atónito pelo non sense que muitas das suas personagens recriaram... com aparente prazer.
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