quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Coração Pela Boca (2015)

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Coração Pela Boca de Bruno Autran é uma curta-metragem brasileira presente na secção competitiva de Agosto do Shortcutz Rio de Janeiro.
Um homem (Bruno Autran) parado num terminal de comboios. Milhares de pessoas que passam. Entre a indiferença e a identificação, este homem cruza o mesmo espaço com mulheres com quem desenvolve relações platónicas. Será alguma delas "a tal"?
Bruno Autran, naquele que é um verdadeiro one man show - realizador, argumentista e intérprete principal - cria uma história curiosa do ponto de vista de uma meditação sobre a solidão e os tempos modernos. Num espaço que é cruzado por milhares de pessoas todos os dias criando todo um espelho de uma sociedade ao mesmo tempo que o indivíduo pode - em toda a realidade - sentir-se uma ínfima gota de água num vasto oceano, o espectador pergunta-se em que medida poderá ele encontrar aquilo que vulgarmente se chama de "cara metade"?!
Os instantes iniciais de Coração Pela Boca, que através de um preto e branco criam a ilusão de um espaço frio e onde predomina a indiferença, remetem o espectador para aquilo que facilmente se identificaria como uma situação limite onde os destinos de um homem (então anónimo) parecem estar prestes a chegar ao fim, dissipam-se com o avançar de uma história que se perde pelos domínios de uma história de solidão sim... mas uma solidão na qual o principal interveniente - Autran - parece distorcer para um conto de obsessão, de perseguição e de um anonimato social que lhe é conveniente pois... sem qualquer ligação, laço ou empatia, observa um conjunto de mulheres com quem "sonha" manter relações próximas de uma afectividade que lhe é desconhecida.
De uma existência que é . aparentemente - solitária e uma busca de um amor no espaço mais movimentado da cidade, são várias as estações de metro onde ele fica "doente de amor"... de um amor irreal, imaginado, vivido apenas por uma das partes e que, de forma obsessiva, parece atormentar o "outro" (as outras) a um constante sentimento de uma perseguição sórdida, doentia, sem justificação e causadora de um medo (in)consciente do próprio espaço. O que divide a aparente solidão de uma doença psicológica que o leva a confortar-se nas pequenas relações que julga estabelecer com o mais variado grupo de mulheres - anónimas como ele - e que poderá (da mesma forma fácil) provocar-lhe uma dor física pelos danos que pode auto-infligir?
Numa oscilação entre uma eventual dor psicológica e a mais que confirmada dor física que pode ser executada, Coração Pela Boca é um ensaio sobre a procura de um amor (platónico ou não...) e a ténue linha que separa essa busca de uma obsessão confirmando que o indivíduo pode encontrar-se só no mais movimentado local do mundo onde tudo e todos enfrentam o mais "mortal" de todos os perigos... a confirmação dessa solidão e do anonimato social que representam.
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"Ele: A vida passa num segundo quando se está prestes a morrer."
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