quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quand on a 17 Ans (2016)

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Quando se tem 17 Anos de André Téchiné é uma longa-metragem francesa presente na secção Panorama - Longas-Metragens da vigésima-primeira edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 23 de Setembro.
Damien (Kacey Mottet Klein) vive com a mãe Marianne (Sandrine Kiberlain) enquanto cumpre mais uma missão militar no estrangeiro. Na escola sofre o acosso sistemático de Thomas (Corentin Fila) e os dois acabam por por em prática a sua agressividade. Quando a mãe de Damien começa a tratar a de Thomas que se encontra doente, os dois rapazes começam a privar mais de perto e aquilo que era uma tumultuosa relação começa a exibir alguns sinais de cumplicidade. Será esta crescente empatia algo mais do que uma não tão simples amizade?
Depois de obras como Barocco (1976), Rendez-vous (1985), Les Roseaux Sauvages (1994) ou Les Temps qui Changent (2004), André Téchiné regressa com a sua mais recente longa-metragem cujo argumento também assina em colaboração com Céline Sciamma sobre a problemática relação entre dois jovens vindos de dois mundos distintos. Por um lado o espectador encontra "Damien", um rapaz apenas criado pela mãe devido à distância das missões militares que levam o pai para o outro lado do mundo, desenvolvendo um lado mais sentimental que é visto pelos outros - pelo menos por "Thomas" - como fruto de uma prepotência que abomina. Do outro lado temos "Thomas", filho adoptado de um casal que trabalha numa quinta nas montanhas e que vê na sua diferença (a família adoptiva), o motivo pelo qual é inferior aos demais na sua comunidade. Ambos filhos de lares e de famílias que os amam, tanto "Damien" como "Thomas" são, em última análise, marginais dentro de um mesmo espaço tendo aquilo que consideram como as suas diferenças as justificações para, no fundo, serem mais parecidos do que ambicionam ser... Se ao primeiro falta um pai presente ao outro falta a capacidade de poder aproveitar uma juventude tal como ela é... livre de trabalhos e responsabilidades que façam dele um jovem como todos os demais. No fundo, ambos assumem papéis de expressividade mais adultos do que o que são tendo, dessa forma, mais responsabilidade perante o lar do que a esperada de dois jovens ainda na adolescência.
Dividido em três segmentos distintos, Quand on a 17 Ans inicia com o primeiro trimestre escolar onde a relação entre os dois jovens é crua, máscula e tida à lei de uma agressividade que ninguém consegue explicar. Funcionando como uma aprendizagem  - do espectador - a respeito dos mesmos, percebemos que ambos são o elemento marginal dentro dos parâmetros impostos pelos próprios colegas que os negligenciam e ignoram. E, se esta marginalização faz de "Damien" um jovem que se destaca na sua carreira académica mas na prática pouco social, "Thomas" destaca-se nas áreas mais práticas do tratamento de uma quinta onde se vê a constituir carreira mantendo-se, também ele, anti-social para tudo o que demais o rodeia.
De um segundo trimestre onde começam a respeitar o espaço alheio - acabam por viver ambos na casa de "Damien" como forma de facilitar a vida escolar de "Thomas" e poder servir de forma a que os dois se entendam dentro do mesmo local - mas no qual onde o espectador fica também a conhecer o fascínio e atracção sexual que o primeiro sente em relação ao segundo, este é também o segmento onde compreendemos que para lá de um qualquer desejo reprimido dos dois, existe uma atracção que os impede de se distanciarem, algo que os atrai e repele na mesma proporção mas que impede de tornar esse afastamento como algo final e definitivo. O mesmo segmento em que existe a primeira atracção sentimental/sexual e que por medo ao tido como "proibido" é inocentemente repelido pela força mas que deixa a certeza de que o sentimento existe e é dinâmico, a um terceiro e último trimestre onde a crise e a tormenta dão lugar a uma aproximação e a um desejo cumprido. O segmento em que se confirma a perda e a necessidade de sentir que existe algo mais para lá dela. O momento em que finalmente se compreende que o que existe não será apenas um acto de momento mas sim a confirmação de um desejo e de um amor - talvez ainda algo pueril e adolescente - que os irá manter unidos para sempre.
Mottet Klein e Fila têm duas fortes e dinâmicas interpretações que comprovam que a diferença - imaginária ou não - é eliminada pela força de um sentimento maior... Seja amor, atracção física ou mesmo atracção sentimental ou fruto de um "algo" que o outro tem e que se deseja - que no caso de "Thomas" pode estar intimamente relacionado com a relação familiar que "Damien" tem e que ele não sente dentro da sua casa apesar do espectador compreender que ele é amado pelos seus pais -, a relação entre os dois é maravilhosamente interpretada por dois jovens actores que terão certamente um futuro promissor da arte da representação e que aqui conseguem dar uma alma - por vezes perturbada - às suas personagens mas que é ultrapassada pela força e calor de uma empatia que cresce lentamente e que os une irremediavelmente. No entanto, é Sandrine Kiberlain que tem a interpretação mais marcante desta ternamente violenta longa-metragem, comprovado inicialmente pela capacidade de perdoar e acolher um jovem que sabe ter agredido fisicamente o seu filho e que depois se desfaz nos braços de ambos quando a própria sente que a perda lhe bateu à porta. A sua contenção constante que nem uma morte inesperada quebra, é subitamente interrompida num tenso e arrepiante momento em que vê, à distância, aquele que é o amor da sua vida afastado para sempre dos seus braços e impossibilitada de a ele recorrer comprovando que ainda que perto... a ausência de afecto e de cumplicidade a marcam e a condenam (inicialmente) a uma incapacidade de viver.
Sem grandes momentos de ostentação sentimental e, no fundo, um drama capaz de viver de momentos equilibrados entre a tensão física e psicológica - sobretudo a tida na perspectiva de "Thomas" sobre o mundo que sente estar a condená-lo a cada passo - Quand on a 17 Ans consegue afirmar-se como aquela obra em que os dois protagonistas estão no seu coming of age sem nunca extrapolar considerações sobre os seus actos, sobre as suas escolhas ou mesmo sobre a sua forma de encarar esse tal mundo onde todos têm - aos olhos dos demais - de encarnar um papel social que lhe foi conferido para desempenhar no momento em que nasceram.
Digno de destacar ainda a direcção de fotografia de Julien Hirsch que lhe confere um certo ambiente equivalente ao constante frio que se parece fazer sentir na pequena vila francesa, sem esquecer a música original de Alexis Rault que caminha ao ritmo dos sentimentos dos dois jovens, Quand on a 17 Ans é uma (mais uma) interessante e agradável surpresa deste festival este ano e uma das mais suavemente emocionantes longas-metragens do cinema francês que chega finalmente ao nosso país comprovando - não que existissem dúvidas - da qualidade de transmissão de sentimentos e pensamentos que o cinema de Téchiné sempre conseguiu transmitir.
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8 / 10
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