sábado, 30 de setembro de 2017

Villaviciosa de al Lado (2016)

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Villaviciosa de al Lado de Nacho G. Velilla é uma longa-metragem espanhola de comédia que conta a história da pequena comunidade de Villaviciosa famosa pelas suas termas que atraíam um elevado número de turistas até ao dia em que um é acidentalmente morto nas mesmas.
Com o encerramento das termas e iminente falência da comunidade, tudo ganha um novo contorno quando Mari (Carmen Machi) a dona do bordel local, ganha o El Gordo.
O realizador em colaboração com Oriol Capel, David S. Olivas e Antonio Sánchez recuperam a tradicional comédia espanhola naquela que é uma ligeira e bem disposta longa-metragem que, sem pretensões a mais, se assume como um simpático momento de descontracção cinematográfica. Num ritmo que faz adivinhar que tudo está prestes a ruir, Villaviciosa de al Lado começa por apresentar aquela que aparenta ser a tranquila e pacífica vida de uma vila interior, até ao momento em que o espectador conhece todos os não tão velhos ressentimentos que povoam as mentes daqueles que nela vivem. Numa comunidade que se crê sacro-santa e onde todos os valores e bons costumes são respeitados, aquilo que emerge é que, no final, todos se respeitam apenas por questões de aparência e não pela crença de que ali... todos são iguais. Nem o padre é moralista, nem todos os casamentos são fiéis ou tão pouco as prostitutas lá da vila são, afinal, bichos imorais e destruidoras de casamentos. Como diz a "Mari" de Machi a seu tempo... "un pueblo no muere de viejo... muere de enfermo".
Os momentos mais interessantes de uma história que é banal, regular e em boa medida esperada pois afinal, vive de um elevado conjunto de lugares comuns, acabam por ser aqueles que se constituem como as maiores concentrações de humor - aquilo que em doses bem contadas -, nomeadamente aqueles (breves) em que o espectador é levado até ao interior da "casa de meninas" - brilhante o segmento de introdução à sexologia - e também às inúmeras desventuras de um conjunto de habitantes que se deixam levar pela agonia de uma sobrevivência que parece ter os seus dias contados.
No entanto, se é real que Villaviciosa de al Lado consegue revelar o lado mais humano de todas estas improváveis personagens, este "real" não vem apenas acompanhado dos seus momentos mais fraternos e altruístas mas também de uma certa cumplicidade com os prazeres mais íntimos da auto-promoção. Afinal, quantos deles esperam realmente o bem da sua pequena comunidade e não um certo enriquecimento que os consiga promover e manter no status que detêm distinguindo-se, dessa forma, de todos os demais que pouco têm e sobre quem eles acham que devem continuar sem ter?! "Mari", uma mulher marcada pela tragédia e acometida pela tragédia mas condenada à opinião alheia, tem agora a sua oportunidade de se distanciar daqueles que lhe apontaram o dedo e fazer justiça numa comunidade que lhe virou as costas mas que, na sombra e no silêncio, continuou a viver com a sua presença e alguns até com os favores e serviços que o seu "negócio" prestava.
Típico retrato de uma qualquer pequena comunidade onde as aparências valem tudo, onde o dinheiro consegue falar mais alto e os desfavorecidos continuam sempre a ser a base de uma pirâmide social que descrimina, Villaviciosa de al Lado destaca-se por simpáticas e interessantes interpretações que espelham os diversos estratos e "postos" de uma vila isolada na sua própria imagem destacando uma imparável María Cruickshank como "Jezabel", uma das prostituas de "Mari" capaz de levar à loucura o mais tímido dos homens.
Com uma certa positividade inerente a todo o seu conteúdo, do argumento às personagens, Villaviciosa de al Lado tenta ser inocentemente moralista - não existe de todo a vontade de pregar moral mas sim revelar que todos podem ser bons e maus dependendo das condições das suas vidas passadas e presentes -, o espectador tem aqui uma história divertida, bem conduzida dentro do género e personagens capazes de realizar o seu próprio filme onde seriam, certamente, estrelas de Hollywood.
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"Mari: Dime algo muy muy sucio!
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Sole: Caca! Caca! Caca!"
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4 / 10
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