quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Disobedience (2017)

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Disobedience de Sebastián Lelio (Reino Unido/Irlanda/EUA) exibido na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge centra-se na história de Ronit (Rachel Weisz), uma mulher que regressa à sua Londres natal para o funeral do seu pai rabi, depois de décadas de ostracização pela sua comunidade ortodoxa ao ter sido descoberta a sua relação com Esti (Rachel McAdams), agora casada com o seu amigo de infância Dovid (Alessandro Nivola).
Se há uma palavra que imediatamente surge na mente do espectador ao assistir a esta longa-metragem de Sebastián Lelio, ela é imediatamente "solidão". Os instantes iniciais revelam uma "Ronit" - "Ronnie" nos Estados Unidos - como uma fotógrafa reputada mas cuja vida pós-laboral se mantém isolada num qualquer canto de um bar que lhe serve exclusivamente para os seus encontros sexuais fortuitos e assim conseguir preencher com alguma falsa noção de sentimento (sexual) o vazio no qual sente a sua vida. Na cidade que nunca dorme, "Ronit" é então o protótipo de alguém que está literalmente sózinha numa cidade com milhões de pessoas que circulam diariamente à sua volta sem que, na realidade, se apercebam que ela ali está.
Esta sua noção de solidão é imediatamente interrompida quando subitamente recebe notícias de um pai recentemente falecido. O mesmo pai que pactuou com o afastamento das pessoas que conhecia, da sua comunidade, da sua cidade e mesmo da sua vida. É neste contexto que o espectador é imediatamente assombrado com outra dinâmica relacionada com o poder e a influência de uma comunidade mais reclusa e ortodoxa que se fecham nos seus hábitos e costumes impondo a obrigado e o dever como derivados directos um do outro e que pré-estabeleceu "papéis sociais" para cada um dos seus membros. Homens e mulheres devem ter relações meramente cordiais... homem deve casar com mulher... mulher deve ser submissa, boa esposa e boa mãe... homem garante o sustento para o seu lar.
É nesta dinâmica que encontramos "Esti" e "Dovid", amigos de "Ronit" desde infância e que se juntaram como um casal primeiro por um conhecimento comum e próximo e depois porque era o que deles se esperava. Distantes de uma qualquer noção de cumplicidade e amor, foi a amizade que os juntou e, ao mesmo tempo, a mesma que com o decorrer dos anos acabou por separá-los emocionalmente. A sua relação e casamento, agora uma obrigação social, desgastou-se pela imagem perdida de uma amiga distante - "Ronit" - e paixão (eventualmente comum) mas apenas correspondida para com "Esti". "Ronit", chega a uma Londres que parece ainda mais fria dentro de portas familiares, abalando todas as estruturas sociais que a encontram... a da família, a dos amigos e mesmo a de conhecidos que, conhecendo ou não o motivo do seu afastamento, a julgam como uma forasteira muito pouco desejada.
No entanto, é a dinâmica estabelecida entre o trio protagonista que cativa o espectador desde o primeiro instante. Se a dinâmica entre a personagem de Wiesz e a de Nivola parece amistosa, franca e em certa medida cúmplice, cedo se revela como tensa e indiferente. O "Dovit" de Nivola, fervoroso judeu ortodoxo cujos valores não tendem a ser abalados, encara a chegada de "Ronit" como a da amiga desaparecida (e não convocada) como um estorvo que pode ser contido e se inicialmente a convida para dentro da sua casa, cedo compreende que a família que tende a construir com "Esti" pode ser abalada com esta presença. É, por outro lado, a relação entre as duas mulheres aquela que acaba por se revelar como a mais intensa, cúmplice e a que poderá dar mais frutos quando se compreende que o amor que as separou fisicamente nunca deixou de existir nem no seu pensamento nem naquele desejo pensado extinto. "Ronit" e "Esti" são, afinal uma única alma dividida em dois corpos que se completam, desejam, amam e anseiam... mas o meio ao seu redor, ultra-conservador e religioso, não as permite consumar esse amor.
Se a "Ronit" de Weisz se revela como uma mulher segura psicologicamente, mas ao mesmo tempo frágil emocionalmente - ainda que firma nas suas convicções sobre o seu "papel" (a existir um) no mundo - pela descoberta de um pai que, de facto, não queria saber dela, e a "Esti" de McAdams como aquela que acabou por sempre a amar em segredo limitando-se a um papel de esposa devota e cumprida das suas "obrigações" matrimoniais é, no entanto, no "Dovid" de Alessandro Nivola que o espectador sente o maior e mais intenso conflito emocional na medida em que os seus momentos no ecrã se preenchem de pequenos elementos contraditórios à espera do seu próprio clímax. Nivola compõe uma personagem que se altera com o decorrer dos minutos... de um inicial homem seguro e confiante prestes a transformar-se no pilar de uma comunidade que o respeita - muito por ser o discípulo preferido do pai de "Ronit" -, o seu "Dovid" transforma-se num homem que vê a sua posição na comunidade ser ameaçada pela presença de um elemento por todos indesejado mas que, ao mesmo tempo, tenta conciliar para o bem de todos (e das aparências), respeitando a memória do homem que, no fundo, todos respeitam. É com a descoberta de um cada vez mais desinteresse da sua esposa "Esti" que "Dovid" se expõe como um homem aparentemente violento - não fisicamente mas psicologicamente e para si pela compreensão de que o seu ideal de família está prestes a terminar -, comprometendo não só a sua posição dentro do seu lar, como na comunidade e, sobretudo, perante os demais líderes que o escolheram para os liderar.
Expondo estas três personagens - co-protagonistas que ocupam, cada uma delas, a sua própria dinâmica na construção desta intensa história -, questiona-se o espectador sobre a origem desta "desobediência" ainda não confirmada... Se facilmente a poderíamos associar à personagem de Weisz na medida em que esta, expulsa do seu grupo primário, conseguiu construir toda uma nova realidade onde pode viver uma vida mais ou menos livre (pelo menos psicologicamente) dos padrões de "sociedade" a que estaria exposta na sua Londres ou, mais ainda, a poderíamos observar nos comportamentos transgressores - novamente para a referida comunidade - da "Esti" de McAdams, a realidade é que esta desobediência firma-se convictamente nos comportamentos do "Dovid" de Nivola... o aparentemente afável anfitrião... o violentamente instável marido... o receoso futuro pai...e, finalmente, o compreensível, empático e humano amigo, cúmplice e confidente que, incerto do seu papel no ideal de mundo que havia criado, compreende realmente que a tal palavra de Deus que passara anos a apregoar está finalmente na aceitação do "outro", da sua diferença e sobretudo da forma como esta não ameaça em nada aquilo que ele próprio representa mas sim expande os seus próprios horizontes a uma nova descoberta desse mesmo mundo em seu redor... Não será a verdadeira palavra de Deus a capacidade que "nos" conferiu, pelo livre arbítrio, de poder escolher quem amar, com quem formar amizade, a possibilidade de respeitar, de honrar e de conhecer tudo o todos os que nos rodeiam não vendo neles rótulos pré-definidos pela sociedade ou comunidade em que nos encontramos?!
Disobedience será assim inicialmente uma história de solidão... mas também uma história de busca pelo reconhecimento, pela aceitação, pela compreensão, pelo amor, pela família, pela redenção e até mesmo pela tradição - não nos poderemos esquecer que "Ronit" também regressa e apenas leva com ela aquilo que a mãe lhe havia destinado perdendo todos os demais valores de família - e o verdadeiro acto de desobediência, presente em cada uma destas personagens co-protagonistas, está na sua capacidade de, em bom tempo, compreender que todos podem ser felizes, juntos ou separados, se conseguirem respeitar as vontades individuais... tal como a palavra de Deus tinha, nos princípio dos tempos, estabelecido como uma sua vontade.
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"Rav: (...) what is this thing? Man? Woman? It is a being with the power to disobey."
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