quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Mandy (2018)

.
Mandy de Panos Cosmatos (EUA/Bélgica) foi uma das longas-metragens da secção Serviço de Quarto ontem exibidas no decorrer da décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre actualmente no Cinema São Jorge.
1983. Red (Nicolas Cage) e Mandy (Andrea Riseborough) vivem uma pacata existência nas profundezas de uma floresta. Ele é lenhador e ela uma artista gráfica que passa os dias a desenhar e a ler um dos muitos contos de fantasia que lhe dão inspiração. Um dia, durante um passeio pela floresta, Mandy é observada por Jeremiah (Linus Roache), líder de um culto extremista que a deseja ter como uma das suas seguidoras. Depois de planear raptá-la e sodomizá-la, Mandy ridiculariza as pretensões de Jeremiah que a assassina e faz despertar os desejos de uma brutal e sangrenta vingança às mãos de Red.
O realizador e Aaron Stewart-Ahn colaboraram neste argumento repleto de elementos religiosos, místicos e por vezes profanos que, numa América profunda, dão corpo a uma história de vandalismo e vingança onde o néon e uma potente caracterização do espaço e da época fazem relembrar muitas histórias à la The Punisher (1989) no qual se perseguem não os esgotos de uma qualquer cidade mas sim uma floresta onde as almas não adormecidas do passado esperam por reclamar as almas dos desprotegidos inocentes.
Dividido em três distintos momentos, Mandy inicia a sua dinâmica dando corpo àquela que será, provavelmente, a sua principal personagem; a floresta. É através de um extenso vislumbre que ocupa todos os créditos iniciais que o espectador entra, de facto, no seu primeiro segmento que, curiosamente, o situa geograficamente... The Shadow Mountains, local em que ambos vivem e onde se compreende a dinâmica de "Mandy", uma mulher despreocupada e com uma vida relativamente mundana perdida no seu próprio imaginário de fantasia. Com um trabalho de poucas preocupações, "Mandy" passeia pela floresta ao seu redor descobrindo pequenos elementos inspiracionais e que a fascinam, por vezes até de forma mórbida, e que a fazem auto-excluir-se dessa sociedade "lá fora" da qual não parece ter pretensões a pertencer.
Num segundo momento o espectador é transportado para Children of the New Dawn onde se cruza com os elementos deste culto liderado por "Jeremiah" (brilhante interpretação de Linus Roache), centrados no poder supremo de um Deus de vingança e de uma justiça ultra-conservadora - um honesto retrato dessa já referida América profunda centrada em valores que são (para si) impossíveis de questionar -, que usa as suas vítimas (e seguidores) para a satisfação dos seus prazeres carnais não sem antes pedir auxílio da versão gore dos Cavaleiros do Apocalipse aqui intitulados Black Skulls, um grupo de demónios motards com força sobre-humana e capazes de arrasar tudo por onde passam.
Se nestes dois segmentos a presença de Cage é meramente simbólica apenas despertando nos instantes finais deste último, é no desfecho Mandy - segmento homónimo - que o actor ganha todo o seu esplendor, recuperando muita da energia que o espectador lhe conhecera de outras entregas... já bem distantes que o "Red" de Cage se revla primeiro como um homem marcado pela perda, pela revolta, pela compreensão da sua impotência mas, sobretudo, pelo assumido desejo de uma vingança sem limites como um anjo exterminador que terá de pôr fim as intenções finais dos Cavaleiros do Apocalipse. No meio de uma trip de rock psicadélico - se a floresta é uma personagem, a música original de Jóhann Jóhannsson juntamente com a direcção de fotografia de Benjamin Loeb também o são -, com todo um conjunto de referências bíblicas - novamente, a América ultra-conservadora em voga - o cinema que também se poderia intitular de ultra-gore de Panos Cosmatos ganha vida graças a esta inspirada interpretação de Cage que pega naquilo que o seu Ghost Rider (2007) deveria ter sido e o transforma num homem, que poderia ser real e capaz de ter enfrentado uma provação em tudo menos divina, e lhe entrega uma alma perdida e em conflito pelas devidas provações que demónios bem humanos lhe colocaram, envergando toda uma postura de homem disposto a tudo para reclamar justiça para aqueles que (já) não podem e até mesmo para si... demonstrando que a sua então impotência agora será inexistente.
Mas, se esta longa-metragem que se assume sem dificuldade como uma das melhores - até ao momento - desta edição do MOTELx vive muito desta explosão de vigor de Cage no último segmento, não se pode esquecer o empenho que Andrea Riseborough entregou ao primeiro, revelando-se como uma improvável donzela - também marcada - que paira no espaço não deixando nele qualquer tipo de prova da sua existência - afinal a sua vida é quase reclusiva e limitada ao local em que vive e trabalha - mas especialmente a um intenso Linus Roache como o não tão improvável fanático que percorre as ruas desprotegidas dessa América em busca da próxima vítima - ou seguidor - do seu culto que pretende espalhar uma justiça moral (mente corrupta) em nome de Deus (pelo seu olhar cruel e lascivo), e claramente a personagem mais intensa, medonha e provavelmente real - não proliferam estes falsos profetas nas nossas sociedades ainda nos dias de hoje?! -, que domina todo o segmento dedicado ao seu culto e boa parte do último onde o vemos na sua igreja e no seu altar para adoração de algo que compreendemos - já o tínhamos compreendido - não só ser corrupto, imoral, hediondo e francamente perigoso que tudo apregoa menos qualquer tipo de moral... pelo menos moralmente justa.
Com uma atmosfera fantasmagórica que emerge o espectador num espaço que tanto é de fantasia como de terror, de sobrenatural como de espectáculo repleto de néon e brilho onde, no entanto, as sombras ganham uma dimensão muito própria e particular, Mandy é de longe uma das melhores e mais bem sucedidas apostas dos últimos anos do percurso cinematográfico de Nicolas Cage que aqui sim... volta a figurar como um dos mais importantes nomes dessa Hollywood onde, por vezes, os sonhos parecem não querer sair da mente daqueles que os ousam ter.
.

.
9 / 10
.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário