quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Phil Mendrix (2015)

.
Phil Mendrix de Paulo Abreu é um documentário em formato de longa-metragem presente em competição na última edição do DOCLisboa e que retrata em estilo homenagem a vida de Phil Mendrix - Filipe Mendes - o maior guitarrista português vulgarmente apelidado de "Jimi Hendrix português".
O documentário de Paulo Abreu - O Facínora (2012) -, um verdadeiro testemunho histórico sobre uma das mais significativas personalidades do panorama músico português que, tal como muitos dos entrevistados referem, é uma lenda viva apenas comparado ao já referido músico norte-americano a quem, aliás, "deve" o nome artístico com o qual foi "baptizado".
Num registo que recorre às já referidas entrevistas de pessoas que com ele se cruzaram nas mais diferentes etapas da sua vida profissional, bem como a alguns depoimentos pessoais de seus familiares, Phil Mendrix (o documentário) percorre o historial do músico desde os finais da década de 40 quando o músico foi para África com os seus pais e onde recorda ter tido a sua primeira experiência musical ao som dos tambores que escutava longe da sua casa e onde, aliás, escutava música clássica às escondidas dos pais que sentia com muita emoção.
De África à Paris dos anos 50 e daqui à Lisboa colhida pela ditadura onde tocava em diversas associações e colectividades, Filipe Mendes inicia durante os anos 60 o grupo Os Chinchilas com o qual participou no Concurso Ié-Ié no então Teatro Monumental, em Lisboa a concursos de música no estrangeiro, o guitarrista comenta ainda - no presente - diversas fotografias, imagens e vídeos de arquivo sobre todo o seu percurso. Das músicas às influências, dos penteados ao estilo que impressionava todos na altura, Mendes reflecte ainda sobre as inovações musicais de então, nem sempre aceites pelos poderes de então como, por exemplo, o Festival dos Salesianos onde iria participar que fora considerado o "Woodstock à portuguesa", e que fora cancelado antes de começar por ser considerado um antro de droga e promiscuidade, tendo de seguida sido alvo da intervenção da polícia de choque ficou apelidado como o Woodstick.
Da escola de música na Chicago de '69 às digressões de regresso a Àfrica, ao Brasil e de regresso a um Portugal onde usava as perucas da mãe para os espectáculos - por ter cumprido serviço militar onde fora obrigado a cortar o cabelo (uma imagem de marca do guitarrista) - num país que, no início da Democracia, tinha sérias reservas com tudo aquilo que tendo alguma projecção era facilmente considerado com o anterior regime.
Phil Mendrix reflecte ainda sobre as várias participações de Filipe Mendes em diversos grupos portugueses como os já referidos Os Chinchilas que terminaram na décade de 70, Psico, Roxigénio ou, mais tarde, os Ena Pá 2000 ou os Irmãos Catita, os anos 80 foram uma época de pausa - e eventual reflexão - onde a prosperidade da música nacional cantada em português - com as influências dos GNR, Street Kids, Taxi, Lena d'Água, CTT e Heróis do Mar - e a constituição de família por parte dos diversos elementos dos mesmos deu origem à dissolução dos grupos em que participava e a uma consequente emigração voluntária para o Brasil na década de '90, onde no interior profundo de um país acabado de sair da ditadura militar deixou positivas recordações pela improbabilidade de um génio musical estar naquele local do mundo, o espectador volta a encontrá-lo na década de '90 numa Lisboa já esquecida de algumas das suas lendas e onde faz colaborações amigáveis com os Ena Pá 2000 e Irmãos Catita onde Manuel João Vieira subtilmente refere que "como artista português", Mendes por vezes trabalhava apenas pelo prazer do trabalho e que o granjeou com este nome artística de Phil Mendrix.
Elaborado com o recurso não só às entrevistas das pessoas que colaboraram ou viveram de mais perto com Filipe Mendes e material filmado entre a década de '90 até ao presente - maioritariamente excertos de concertos - Phil Mendrix consegue ser uma experiência fílmica sobre diversas épocas pelas quais o país atravessou - ainda que de forma subtil que alicerça a ideia do país que está "lá fora" - e sob a forma como descobriu e explorou o rock nacional, as suas influências e aquele que é um dos seus principais rostos ao mesmo tempo que revela uma personalidade (a sua) que é próxima e carismática para aqueles que o rodeiam oscilando entre o registo de documento histórico e perspectiva pessoal sobre o mesmo.
Para o espectador assíduo fã ou conhecedor da obra de Filipe Mendes, Phil Mendrix constitui-se como um documentário importante e indispensável - o tal documento histórico - e para aqueles que como eu são uns leigos - mea culpa - assume-se como um documentário cativante, detalhado e cronologicamente cativante que os aproxima da obra de um mestre na área musical não esquecendo uma componente humana que, apesar de pouco explorada, revela toda uma dinâmica fora de palco idêntica a um "on stage".
Justo vencedor do Prémio do Público na última edição do DOCLisboa - é compreensível o porquê de ser tão cativante para o espectador - Phil Mendrix deixa-nos apenas a reflectir sobre os motivos pelos quais não chega a sala... Este é daqueles documentários que certamente conseguiria encher a sala e dinamizar toda uma geração de (e com) boas memórias.
.
.
7 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário