sábado, 5 de novembro de 2016

Elle (2016)

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Ela de Paul Verhoeven é uma longa-metragem francesa presente na Selecção Oficial - Em Competição da décima edição do LEFFEST - Lisbon & Estoril Fim Festival que decorre até ao próximo dia 13 de Novembro em várias salas de Lisboa, Estoril e Cascais.
Michèle (Isabelle Huppert) é uma mulher aparentemente fria que domina não só a sua vida profissional como também pessoal. Depois de ser atacada dentro da sua casa por um assaltante mascarado, Michèle denota para o exterior um comportamento atípico como se o mesmo não a tivesse afectado entrando, no entanto, num doentio jogo de gato e do rato de consequências imprevisíveis.
David Birke assina este argumento naquela que é uma história trágica revestida de uma estranha ironia e tons de um humor negro dignos do mais intenso registo de Verhoeven exibido no seu já ido Basic Instinct (1992). Com Elle o espectador entra logo de imediato numa história onde uma estranha e involuntária obsessão se cruza com os limites de um voyeurismo doentio. Nos primeiros instantes a imagem mais enigmática e emblemática desta história é a observação atenta do gato de "Michèle" a um acto bárbaro do qual ela é vítima, momento esse que poderá ser uma mordaz ironia ao seu passado e aos trágicos acontecimentos que rodeiam a sua infância. Será "Michèle" apenas uma vítima ou uma impiedosa observadora de uma barbárie?
Os acontecimento que se despoletam no imediato são, também eles, repletos de uma ironia cortante e sarcástica como que um relato visual do macabro como algo normalizado em sociedade e que deverá ser aceite com uma naturalidade de quem por ele não passou. Logo após a violação de "Michèle", esta encara o acontecimento - pensa o espectador - como algo que quer apagar da sua memória. Da arrumação da casa e objectos destruídos à limpeza do corpo corrompido pela barbárie, a personagem interpretada por Isabelle Huppert assume um comportamento banal de um dia-a-dia enfadonho e sem acontecimentos traumatizantes de registo. Se pensamos que este comportamento se prende com a vergonha de assumir e reconhecer a tragédia ou até mesmo a constatação de que nesse passado os traumas e fantasmas persistem e insistem em assombrá-la, então deduzimos que esta mulher apenas quer prosseguir com a sua vida e encarar um "amanhã" com uma tranquilidade que parece desconhecer. No entanto, os factos contrariam esta premissa...
"Michèle" não só começa a receber mensagens do seu agressor como parece ser cada vez mais impiedosa e mordaz para todos aqueles que a rodeiam... Do ex-marido ao filho, da colega e amiga ao seu amante e marido desta última, sem esquecer todos aqueles funcionários que controla com pulso de ferro por, na prática, aparentar não confiar em ninguém. Se a sua vida aparentava estar à beira de uma ruína, o certo é que todo o seu comportamento demonstra que ela está capaz não só de controlar o sucedido como todos aqueles que de forma directa ou indirecta oscilam ao seu redor e por momentos questionamo-nos sobre até que ponto é esta mulher uma verdadeira vítima.
Uma coisa o espectador tem como certa... Existe uma relação entre "Michèle" e o seu agressor pois este último não só continua a contactá-la como é uma presença em sua casa sem que esta o saiba. Mas em vez de recear novas "visitas" - e apesar de alterar a sua fechadura - "Michèle" parece apenas preocupada em manter todo o controle sobre os demais e ter a sua casa cheia daqueles que mais facilmente pode controlar, humilhar, comandar e seduzir. Quer no trabalho, com o ex-marido, com os amigos e até mesmo com o filho "Vincent" (Jonas Bloquet), "Michèle" é uma mulher habituada a uma dominação consciente dos propósitos e liberdades alheias... e talvez seja aqui que reside a principal componente mais ou menos declarada de Elle. De forma (in)consciente "Michèle" transformou-se - após a sua violação - numa mulher desesperada por um controle desse outro alguém que a domine e humilhe como ela faz àqueles que girem à sua volta. Alguém que a surpreenda da mesma forma desagradável com que ela se expõe aos demais e que, portanto, a controle e deixe vulnerável tal como ela - aqui conscientemente - faz para com quem é seu subordinado.
É nesta perspectiva de jogo de gato e do rato - caçador e presa - que surge alternada de "Michèle" para com o mundo e do seu agressor para com ela que Elle se desenvolve, remetendo primeiramente o espectador para um imaginário solidário com esta personagem e de seguida captando um conjunto de elementos que despertam a dúvida sobre o seu comportamento e lançando a derradeira questão... até que ponto é "Michèle" uma vítima dos acontecimentos? Até que ponto não estará ela consciente - e até desafiada - pelos acontecimentos que são inicialmente trágicos mas depois, analisados os detalhes, fruto de um comportamento planeado e programado.
"Michèle" é o fruto de um passado trágico que a assombra desde a infância... um passado onde foi vítima participante de uma tragédia que dizimou e dilacerou a sua família e no qual ela participou de forma (in)consciente mas que, à luz do seu presente, poderá justificar muito do seu comportamento e do desvio social e sexual que exibe. A um dado momento, e depois da conversa "final" que tem com a sua vizinha, o espectador questiona-se sobre até que ponto todos estes acontecimentos "recentes" não serão programados - a participação do seu filho também isso indicia - e desejados como forma de amenizar um sentimento de perda, de (des)controlo e sobretudo de uma auto-punição que sente (?) ser necessária para poder "sentir" algo de minimamente humano...
Uma personagem que fora sugerida e desejada para Marion Cotillard ou Sharon Stone foi hábil e gentilmente entregue a Isabelle Huppert que lhe conferiu alma... Uma alma atormentada, é um facto, mas repleta de uma certa expressividade de uma culpa dilacerante que não abandona os actos, os gestos e até mesmos os comportamentos de uma mulher que não sabe como desarmar face aos outros e que não sabe delegar o controlo dos seus actos e das suas responsabilidades junto daqueles com quem se relaciona... Uma mulher incapaz de travar os seus actos mais prejudiciais e que não se inibe de os relatar sabendo que vai ferir e magoar pela sua falta de sensibilidade mas que, ao mesmo tempo, cativa e domina pela influência e poder que exerce sobre os outros. Huppert, de certa forma numa "continuação" de La Pianiste (2001), de Michael Haneke que acentua a sua descoordenação sentimental e afectiva necessitando de um esquema elaborado para ser punida num comportamento violento e marginal - afinal todas as suas relações parecem ser matematicamente calculadas -, é uma mestre na forma como personifica esta disfunção humana e dona de uma das interpretações mestres deste ano que agora se aproxima do seu final. A culpa ou a necessidade de uma punição por um passo do qual se teve culpa... ou no qual se participou (?), nunca o saberemos, é o motor desta mulher desarmada - mas curiosa - por um jogo em que foi colocada e no qual tem de todos desafiar para saber quem é quem, assumindo-se sempre no comando de algo que desconhece.
Se todos ao seu redor denotam uma submissão à sua "Michèle", são Laurent Lafitte como "Patrick", o seu disponível vizinho que esconde um rosto de uma violência absoluta e Jonas Bloquet com o seu "Vincent" e toda a ternura e sentimento recalcados numa vivência controlada pela mãe, que oscilam e expõem a sua vulnerabilidade deixando o espectador num misto de sentimentos quanto a esta mulher que agora é vítima... e depois carcereiro.
Intenso, irónico e assumidamente sarcástico, Elle mistura os sentimentos do espectador deixando-o repetidamente perdido num vácuo... quem são estas personagens, o que realmente escondem e quantos são os seus sentimentos ocultados numa realidade paralela e que, em certa medida, nos levam a questionar as relações de dominação versus dominado patentes em tantas pessoas... O que as leva a viver e perpetuar um clima de subjugação e submissão que os encruzilha e faz descontrolar num labirinto sem fim no qual existe sempre um caçador e uma presa... não "interpretando" necessariamente estes papéis aqueles que inicialmente os parecem ser num clima que é exacerbado pela brilhante e igualmente intensa atmosfera que a música original de Anne Dudley perpetua desde o primeiro instante.
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8 / 10
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