quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Por Diabos (2016)

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Por Diabos de Carlos Amaral é uma curta-metragem portuguesa de ficção que imita o estilo mockumentary, presente na Selecção Oficial - Em Competição da XXIIª edição dos Caminhos do Cinema Português que decorre até ao próximo dia 26 de Novembro no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Rosa Maria Azevedo desapareceu nos anos 70. Saída da sua casa durante a noite, foi vista a caminhar em direcção a um monte para dele nunca mais regressar. Esta é a história da busca do seu marido pelo seu paradeiro.
Num registo semelhante ao documental onde são fornecidos ao espectador pequenos elementos da vida conhecida desta mulher, Por Diabos teoria sobre tradições, mitos e costumes populares de uma região que remontam ao período da ocupação Sueva da Península Ibérica. Com testemunhos populares e algumas suposições que a investigação histórica fez compreender, esta curta-metragem alude ao despertar de um mal adormecido que ocupa a região deste tempos distantes.
O mal, esse factor distanciado e nunca realmente identificado no imaginário popular para lá dos costumes celebrados que atentam contra a "norma" instituída pelo conservadorismo da região, é o mote principal deste pequeno e intrigante filme que sem o recurso a imagens ficcionadas consegue instalar um clima de dúvida, suspeita e superstição popular capaz de dominar a atenção do espectador para o tal "desconhecido" que se esconde nas sombras de uma aldeia remota perdida no interior profundo de um país mergulhado numa ditadura ultra-conservadora.
Explicar o inexplicável no seio de um acontecimento raro e do qual ninguém tem, de facto, provas concretas, domina neste filme que tem uma ambiência muito própria recriada por uma intensa e original banda-sonora da autoria de Miguel Santos, capaz de criar esse tal indecifrável "mal" sem que o espectador alguma vez o observe e confirme a sua existência. Desta forma, e tal como os populares que nunca se chegam, também eles, a observar, o espectador fica preso numa teia de insinuações, crenças mistificadas pela perpetuação de um regime que sobreviveu à sua custa e do fanatismo religioso que implementava a culpa sem que, na realidade, nem personagens nem espectador alguma vez possam afirmar que - de facto - Rosa Maria Azevedo tenha sido uma vítima desse tal mal não identificado mas que a superstição e a crença popular alimentam como uma realidade.
Engenhoso, imaginativo e directo aos mitos que abundam no interior profundo de um país enraízado na crença e superstição católica, Por Diabos é um daqueles filmes curtos que o espectador adora pelas incertezas expostas e que desejaria ter mais... principalmente se esse "mal" ganhasse forma e corpo.
Depois de Justino (2010) e do nomeado ao Sophia Longe do Éden (2013), Por Diabos confirma a vertente criativa de um realizador que aposta e oscila no género real versus ficção para dar alma a um conjunto de histórias sobre personagens atípicas e até mesmo... inexistentes pela sua não confirmação "terrena" como aqui temos exposto. Por Diabos é assim uma franca, genial e bem sucedida aposta num género que, quando bem feito, tem sempre pernas para andar.
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8 / 10
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