sábado, 12 de agosto de 2017

El Bar (2017)

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El Bar de Álex de la Iglesia é uma longa-metragem espanhola e a mais recente obra do realizador de El Día de la Bestia (1995), La Comunidad (2000), Balada Triste de Trompeta (2010) e Las Brujas de Zugarramurdi (2013).
No centro de Madrid. O reboliço de uma cidade que não pára contrasta com a relativa calmaria que se faz sentir no bar de Amparo (Terele Pávez) onde algumas pessoas do bairro se reúnem. As conversas de ocasião são interrompidas quando após a saída de um cliente este é abatido a tiro à porta do bar. A cena repete-se uma segunda vez e todos compreendem que não podem sair. Existirá escapatória para este conjunto de pessoas que agora lutam pela sua sobrevivência... também dentro do bar?!
Álex de la Iglesia regressa à sua já longa parceria com Jorge Guerricaechevarría - enquanto argumentista - iniciada com Acción Mutante (1993), criando mais uma história que celebra, uma vez mais, a evolução dos medos humanos quando colocados em situações de pressão ou crise extrema. Assim o verificámos com a descida à Terra de um Diabo então celebrado - El Día de la Bestia -, com o anúncio de uma pequena grande fortuna por todos cobiçada - La Comunidad - ou até com o medo do extermínio por parte de um conjunto de bruxas sedentas de sangue e vingança - Las Brujas de Zugarramurdi - e que aqui ganha forma com a potencial chegada de um vírus que pode infectar toda uma população desprotegida. Aquilo que começa por ser um relato de uma qualquer sociedade moderna, indiferenciada e cínica face à existência individual alheia - mendigos que são forçados a sair do espaço em que se encontram sem que os seus problemas sejam resolvidos, conversas intermináveis ao telemóvel em detrimento das relações humanas que se degradam ou uma simples ida às compras sem que sequer se olhe na cara de quem nos atende ou mesmo um qualquer indivíduo doente que chega sem que ninguém se preocupe com o seu bem-estar (ou falta dele) -, termina como uma exploração dos medos primários de cada um de nós que face a um potencial "fim" revela o mais selvagem e irracional dos comportamentos que têm - eles sim - como único intuito uma sobrevivência e perpetuação que poderá não chegar. É neste preciso momento de percepção da crise que tudo começa a ruir. A pouca simpatia existente dá lugar ao distanciamento e a já inexistente amabilidade desaparece para fazer valer a lei do mais forte. Aqueles que estão na base da pirâmide social surgem como os primeiros que devem ser eliminados... não por uma qualquer debilidade que aparentem ter mas sim porque são considerados com os que têm menos a perder... nada ambicionam... nada desejam... porque não serem os primeiros a desaparecer?!
Mas, se El Bar dá corpo a essa indiferença do Homem face ao seu semelhante nos ditos tempos de crise extrema, é interessante observar como a dupla de la Iglesia e Guerricaechavarría celebra a facilidade com que no mundo das tecnologias, das redes sociais e da premissa de que o "longe" está hoje cada vez mais "perto", se torna realmente distante e de difícil acesso a comunicação entre os Homens... não será esta outra forma de desumanização mas mais... socialmente aceite?! E na sua continuidade... não será esta manipulação da divulgação dos acontecimentos que tão facilmente podem ser distorcidos ou vedados do conhecimento de um grande público a nova forma de uma qualquer censura que a todos reúne no mesmo espaço com os mesmos factos e com a mesma ausência de curiosidade pelos ditos? Até que ponto questiona, qualquer um de nós, a "notícia" que nos chega evitando (in)conscientemente o seu contraditório ou o apuramento de todas as suas vertentes e implicações?
No rescaldo de toda esta história, o espectador apenas memoriza uma não tão simples questão... quando realmente pedimos auxílio... será que existe alguém que nos escuta?! Um telemóvel não atendido, alguém que percorre desamparado as ruas ou mesmo um esclarecido pedido de apoio que nunca irá chegar... Serão (seremos) todos danos colaterais que alguém prefere nunca contabilizar?
A dar corpo às (sempre) ricas personagens que compõem as suas obras cinematográficas, El Bar conta uma vez mais com a colaboração de Terele Pávez (nesta que seria a última colaboração com o realizador), como "Amparo", a sempre humana dona do bar em que se vêem obrigados a ficar refugiados mas que cedo revela os seus mais negros instintos de sobrevivência, Secun de la Rosa como "Satur", o seu fiel, Jaime Ordoñez como "Israel", a vítima da mais recente crise económica agora mendigo nas ruas de Madrid e ainda Mario Casas como "Nacho" o hipster que todos confundem com um potencial terrorista quando tudo começa a dar para o torto. A juntar-se-lhes encontramos ainda Blanca Suárez como "Elena", a menina "bem" que rapidamente tem de sujar as mãos se quer sobreviver, Carmen Machi que com a sua "Trini" revela o rosto de tantas pessoas que se mantêm anónimas como a única forma de sobrevivência face a um desespero diário e ainda Joaquin Climent como "Andrés" e Alejandro Awada como "Sergio", os dois rostos de uma força repressora que rapidamente se vê privada do seu poder ilusório. Todos encarnam personagens que inicialmente são meros adornos da vida de uma cidade. Todos compõem aqueles com quem diariamente qualquer um de nós se cruza na rua e a quem pouca - se é que alguma - importância lhes é conferida. Mas ali, naquele espaço cada vez mais minúsculo e onde todos começam a desesperar pela ideia de um auxílio que não irá chegar e de uma suspeita crescente sobre as intenções daqueles com quem ali partilham uma vivência forçada, revelam os medos mais impossíveis e irracionais que lentamente ganham forma como realidades e certezas das quais todos querem fugir ou, até mesmo, eliminar. Se o mal - ou o medo - chega daquilo que presenciaram vindo da rua... rapidamente todos começam a temer aqueles que ali se encontram... privados do conhecimento sobre o que se passa "lá fora" e com receio que seja um deles o verdadeiro motivo ou receptáculo do medo. O grupo divide-se e o poder é exibido como aqueles que detêm a força... ou o poder de pressionar para depois separar... mas, como tudo na vida, é em crise que se percebe que esse poder mais não é do que uma ilusão e é, quando as vidas não contabilizadas - e logo desconhecidas - se tornam irrelevantes, que as ironias se sucedem e o poder se revela tal como é... uma mera e efémera ilusão.
No entanto a luta pelo poder vai mais longe, e ainda mais selvagem, quando aqueles que foram momentaneamente considerados como mais fracos começam, também entre eles, a disputar o poder por uma sobrevivência que parece cada vez menos provável ou mesmo, quando essa sobrevivência parece resultar do seu domínio - enquanto indivíduos - sobre aqueles com quem partilharam a base da pirâmide... no entanto, mesmo nesta, existe a hipótese (e os meios) para a escalonar.
Irreverente como sempre e cómico quanto baste para revelar o mais profundo espaço da alma humana, El Bar proporciona não só os elementos fundamentais para que o espectador se sinta abstraído durante  pouco mais de hora e meia mas, ao mesmo tempo, confere-lhe a capacidade de (se) analisar em tempo de crise... de perceber os seus limites (se é que alguns) e demonstrar que por mais humano, preocupado com a realidade do mundo e com o planeta... existe aquele, por vezes não tão breve, momento em que tudo pode ruir e ser liberto uma animal feroz e perigoso que consegue, em sociedade, esconder.
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"Elena: El miedo cambia las personas...
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Nacho: El miedo muestra como realmente somos."
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8 / 10
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