quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Mirror (2016)

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Mirror de Sara Eustáquio é uma curta-metragem portuguesa de ficção nomeada aos prémios anuais do Shortcutz Viseu que apresenta ao espectador uma jovem (Jaimie Marchuk) perturbada e perdida num WC onde o seu pensamento parece distante do espaço em que o seu corpo se encontra.
Tonta e algo animada, as oscilações do seu humor parecem fruto de uma qualquer perturbação psicológica que, no entanto, não surtem a mesma expressão no seu reflexo no espelho.
Com argumento da autoria da jovem realizadora de 4242 (2016), Mirror centra a sua mensagem nas perturbações e exigências de uma "imagem" estilizada como a perfeição a atingir e que, confrontada com uma realidade diferente, faz denotar o conflito interior sentido pela jovem que então a (se) observa.
Com uma direcção propositadamente inconstante, o espectador sente esse conflito interno da jovem que compreende estar perante uma situação que, no entanto, o seu reflexo não encontra identidade ou semelhança. Em directa relação com o próprio espaço em que se encontra, esta jovem vê o seu "eu" decadente e instável como que alguém exterior que observa um estranho em completa decomposição mental. Se por um lado ela compreende que a imagem reflectida no espelho não será outra que não ela própria, não será menos verdade que esses olhos de outrém mais não são do que os seus que contemplam um fim anunciado.
Da instabilidade à paranóia, da satisfação à imediata degradação, esta jovem aparenta estar triste e feliz, contente e arrependida, saudável e instável ao ponto de esta ameaçadora bipolaridade cativar e potencializar o seu próprio fim que, a seu tempo, observamos para a sua auto-mutilação e tortura que têm como directa consequência o seu suicídio.
A doença mental e os perigosos meandros que a anunciam e confirmam - aqui inicialmente ignorados pela espectador mas compreendidos pela própria graças ao seu sentido sofrimento -, condicionam a sua existência primeiro pela saudável relação com outros (que nunca observamos mas depreendemos pelo ambiente vivido "lá fora") e principalmente com ela que tendo consciência da sua condição, observa o seu "eu" a retribuir um olhar, pelo espelho que é, sobretudo, um auto-julgamento anunciado.
Depois do já referido 4242 (2016), Sara Eustáquio regressa ao cinema em formato curto com mais uma pertinente e interessante abordagem ao mundo das expectativas e interacções adolescentes / jovens, principalmente por exigir do espectador uma reflexão ao universo das doenças mentais dos quais a depressão (aqui parcialmente exposta) ou maníaco-depressivas fazem parte. No final permanece apenas uma questão, quando as expectativas interiores são maiores do que aquelas que um mundo externo exige de si própria, poderá a mente desta jovem sobreviver a um iminente conflito?!
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5 / 10
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