sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Jeruzalem (2015)

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Jeruzalem de Doron Paz e Yoav Paz é uma  longa-metragem israelita de terror que centra toda a sua premissa numa frase do Talmud - livro sagrado hebraico -, ou seja, "existem três portas para o Inferno, uma no deserto, uma no oceano e uma em Israel".
Sarah (Danielle Jadelyn) e Rachel (Yael Globglas) são duas jovens norte-americanas que durante uma viagem a Israel encontram Kevin (Yon Tumarkin) que as desafia a conhecer Jerusalém em vez de Tel-Aviv, o seu destino.
Com a viagem para uma nova cidade, é num misto de descoberta e incertezas que os três jovens entram na cidade no mesmo momento em que sobre ela se abate uma estranha e invulgar catástrofe de proporções bíblicas que ameaça não só estes jovens como também a cidade e eventualmente toda a Humanidade.
Filmado essencialmente sob uma perspectiva do "eu" em que o espectador é colocado como o principal interveniente da história através de um olhar na primeira pessoa que testemunha todos os acontecimentos da mesma. Desde o primeiro instante em que é fornecido à protagonista "Sarah" - que pouco presenciamos durante esta longa-metragem - até aos instantes finais, o espectador assiste a todos os acontecimentos como se encarnasse o seu corpo. Assistimos àquilo que faz, que vê e por onde caminha e a história aproxima-se do espectador e, apesar de percebermos quem é a protagonista, vai diluindo, portanto, a presença de Danielle Jadelyn enquanto tal.
Num misto de modernidade explícito através daquilo que as novas tecnologias podem fornecer e facultar registando ou um escape ou uma informação mais perniciosa aliando as velhas tradições e julgamentos populares do passado, Jeruzalem cruza o misticismo religioso com a descrença dos tempos modernos expondo numa cidade como Jerusalém ambas as dimensões ao mesmo tempo que celebra uma multiculturalidade óbvia da cidade. Num espaço já dividido com velhas divisões étnicas internas, somos levados por uma viagem que se expõe pelas suas diferenças culturais - de bairro para bairro mudam os aspectos das ruas e das pessoas que neles habitam - deixando claro que estamos prestes a assistir a algo que as colocará em segundo plano. É a chegada de uma catástrofe bíblica que cerca a cidade deixando por sua conta e risco todos aqueles que nela ficam enclausurados que esbate as diferenças entre os seus cidadãos classificando fortemente todos como iguais perante uma eventual morte às mãos do desconhecido.
Entre relações a respeito do Síndrome de Jerusalém e desequilíbrios religiosos, Jeruzalem denota ainda um excerto de found footage logo no seu início e que insere, de certa forma, a referida questão biblíca na narrativa, bem como uma forte influência de World War Z, de Marc Forster (2013) não só através do seu óbvio logo como também pelo segmento em que - neste referido filme - o espectador é levado a uma visita relâmpago à capital israelita que se encontra em quarentena ou mesmo nas entidades demoníacas - spoiler - que nesta longa-metragem ganham vida.
Interessante pela perspectiva de terror bíblico que apresenta, os irmãos Paz recriam uma simpática - que contradição - história de suspense que apesar das suas inspirações óbvias em World War Z ou até, numa perspectiva agorafóbica, ou [REC] (2007), mantém o suspense desejado e uma tensão crescente, assim como uma destacada qualidade na direcção de caracterização reconhecida pela Academia Israelita de Cinema estando o seu grande momento de tensão, no entanto, dividido em dois importantes segmentos; o primeiro no hospital psiquiátrico de Jerusalém - transformado exteriormente em algo muito semelhante a um edifício abandonado - e nas famosas grutas de Salomão onde todos os grandes problemas são finalmente revelados.
Jeruzalem sendo um filme de terror bem executado e que respeita uma já longa tradição de cinema de terror israelita peca, no entanto, por um abrupto e algo expectável final que não retirando o clímax onde ele é, de certa forma, esperado, o atenua para aquele eterno pensamento que assola a cabeça do espectador quando pensa que "já viu isto" mantendo, ainda assim, uma capacidade notável de manter o interesse do mesmo por toda a sua duração e, não sendo uma obra-prima, mantém-se fiel ao espírito do género.
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6 / 10
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