quinta-feira, 31 de março de 2016

Sonderkommando (2015)

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Sonderkommando de Nicola Ragone é uma curta-metragem italiana presente na secção Il Corto da Festa do Cinema Italiano que decorre até ao próximo dia 7 de Abril no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Um comboio. Uma viagem com um fim anunciado. Emanuele (Tommaso Lazotti) olha para Leone (Marcello Prayer) e sente uma vontade crescente de se aproximar e retribuir o sentimento que se afirma. No mesmo vagão várias outras pessoas amontoam-se em desespero e silêncios ruidosos que timidamente os separam da loucura.
O comboio pára... Encontram-se em Auschwitz.
Desde este preciso instante que adianto a todo e qualquer leitor e espectador que estamos perante um dos mais fortes filmes curtos da última década. Sonderkommando encontra pela direcção e argumento de Nicola Ragone, o espaço próprio para se afirmar como uma obra símbolo não só dos tenebrosos anos das décadas de 30 e 40 do século passado como tece, ao mesmo tempo, uma elaborada reflexão sobre a discriminação, a perseguição e a própria essência do Homem e da Humanidade... nos nossos dias.
No primeiro momento desta curta-metragem o espectador assiste a uma tenebrosa viagem de comboio. Conhecidas que são pelos inúmeros relatos já disponíveis sobre este macabro percurso, o espectador é levado para o interior de uma carruagem... Uma qualquer carruagem dos milhares de comboios que percorreram o mesmo caminho e que no seu interior viu vidas sem conta a definhar lentamente não sem antes passarem por períodos de um silencioso desespero e viagens pelos infernos e pela loucura. Desmaios, gritos, choro, desespero. Todos escutados como uma presença de fundo mas que os nossos olhares apenas brevemente testemunham encontrando, por sua vez, duas presenças que se observam. Dois homens que encontraram nas respectivas figuras um potencial encanto e compaixão que os aproxima brevemente de um último acto de amor... do qual seriam também privados.
O segundo momento leva o espectador para uma breve mas desarmante viagem pelo interior do campo de concentração onde tudo está privado de vida, de cor, de luz. O espectador é invadido pela noite e pela escuridão, pelo sofrimento, pela agressão e pela desumanização da alma, do espírito e da mente. A sobrevivência - ou aquilo que a ela se assemelha - torna-se crua e violenta e a única coisa que separa "Leone" - que acompanhamos desde o primeiro instante - é o breve vislumbre de "Emanuele" por quem se deixou encantar. Ele é a sua sobrevivência... o potencial amor que poderiam ter concretizado e que fora interrompido pelo acto bárbaro e violento do seu cativeiro.
"Leone" é imediatamente desumanizado... Retiram-lhe as suas roupas, a sua harmonia, rapam-lhe o cabelo e marcam-no com uma roupa igual a todos os demais. A sua nova "tarefa" não poderia ser mais brutal ao forçarem-no a acompanhar os presos para a câmara de gás e de seguida retirar os seus corpos já extintos. O espectador nunca o observa... À excepção de um único cadáver transportado como que uma introdução ao local - como se esta fosse necessária - tudo aquilo que é retido pelo espectador de Sonderkommando é tido pelos olhares e expressões de um "Leone" petreficado com o horror daquilo que observa.
Se a descida ao inferno pudesse ser retratada não pela perspectiva daquilo que o próprio espectador observa mas sim pela forma como ele é olhado por aqueles que a ele chegam, então Sonderkommando entrega essa perspectiva na perfeição. Aqui pouco precisamos de ver para lá do lugar lúgubre em que percebemos se encontrarem ou até mesmo pelas condições em que todos parecem definhar já desumanizados e meros "números" de um registo. Ali nada vive... nem o pensamento - "Leone" é alertado por outro preso que deve deixar de pensar para conseguir sobreviver - nem a luz que se auto-impede de surgir, nem a própria Humanidade pois todos estão, de uma ou outra forma, isentos de pensar para lá daquilo que os fará,  a título individual, sobreviver. O mundo parou e enlouqueceu... A bárbarie instalou-se e transformou-se numa norma selvagem e implacável. A sobrevivência é efémera... vã... curta... incerta.
Poucos são os comentários que temos em Sonderkommando e os diálogos inexistentes. Aqui apenas o olhar comunica e transmite toda e qualquer emoção que ainda ousa existir neste espaço de morte. O mesmo olhar que denuncia o amor, que assiste à morte e à desumanização... O mesmo olhar que sente e percebe perder a sua razão de existir e que vê escapar o único sentimento que percebe ter vivido num local onde todos estão proibidos... o amor.
Nicola Ragone parece, no entanto, querer ainda mais longe estabelecendo através da sinopse e do seu comentário ao próprio filme, uma mordaz observação ao amor entre pessoas do mesmo sexo quando cita Primo Levi... "Se já aconteceu... pode voltar a acontecer". O extermínio que nunca cessa de existir seja em que parte do globo fôr, o amor que é impedido e que - provavelmente - levou à detenção destes dois homens que, nos seus mundos eventualmente opostos, foram presos pelo crime de amar. Estaremos tão distantes deste momento nos dias em que nos encontramos - pergunta-se o espectador - enquanto se questiona também a real dimensão de "Leone"... Uma simples vítima de um acontecimento louco e desumano ou, por sua vez, um seu executante e implacável carniceiro? Até que ponto se distancia a dimensão de uma vítima daqueles que, para sobreviver, cumpriram um conjunto de tarefas contra os seus? Não seria a recusa o assinar de uma auto-sentença que os levaria à sua própria extinção? Ao mesmo tempo, sobrevivendo a este inferno na Terra... poderia - poderá - ou conseguiria a sua consciência - Humanidade - sobreviver?
A desumanização do Homem filmada tantas e sucessivas vezes nos mais diversos títulos e obras cinematográficos encontra em Sonderkommando não a forma como as vítimas pereceram mas sim a forma como foram levadas para a sua morte através dos olhares daqueles que lhes sobreviveram - mesmo que momentaneamente - e que viram, viveram e conviveram com o horror sem lhe poder ou conseguir fazer frente. E apenas no momento final em que "Leone" observa pela última vez "Emanuele", percebe o espectador que nem o amor - principalmente o amor - poderia alguma vez sobreviver num espaço que tudo e todos condenou indiscriminadamente e pelo único sórdido prazer de poder eliminar o "outro"... fosse qual fosse a sua condição, língua e nacionalidade - aqui sempre desconhecidas - numa história da História que se repete ciclicamente diferenciando apenas os locais e as vítimas mantendo vivo aquilo a que chama de "motivos".
Tecnicamente excelso e com uma soberba interpretação de um Marcello Prayer que faz do seu "Leone" um homem em franca degradação física e psicológica que nem no mais nobre dos sentimentos se consegue sustentar para poder sobreviver, Sonderkommando e a sua descida aos infernos é em duas cruas palavras... assustadoramente sublime.
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