quinta-feira, 31 de março de 2016

Bellissima (2015)

.
Bellissima de Alessandro Capitani é uma curta-metragem italiana de ficção e o filme curto vencedor do David di Donatello da Academia Italiana de Cinema deste ano na respectiva categoria.
Veronica (Giusy Lodi) é uma jovem de vinte anos que tenta divertir-se numa discoteca quando alguém goza com ela por causa do seu peso excessivo. Com vergonha, Veronica esconde-se no wc masculino enquanto, na cabine ao lado, três rapazes fumam.
Quando Diego (Emanuele Vicorito), o alcoól e algumas drogas fazem-no conversar com ele e seduzi-la a revelar-se para lá das desconhecidas mentiras que ambos revelam por detrás de uma parede.
No meio do encanto, e do desencanto, Veronica prepara-se, inadvertidamente, para uma grande surpresa.
Não foi na Festa do Cinema Italiano a primeira vez que vi esta obra de Capitani mas sim aquando da programação para o Piélagos en Corto que irá decorrer no início do próximo mês de Maio na Cantábria, em Espanha para o qual a seleccionei como uma das vinte da competição internacional. A história da autoria de Capitani e Pina Turco que começa como um conto de desilusão e desgosto consegue, a seu tempo, transformar-se numa história de encantamento, de sonho, de imaginação, fantasia e finalmente de uma inesperada realidade mas não da forma como "Veronica" - ou o próprio espectador - a vão delineando inicialmente.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade consegue rapidamente simpatizar e criar um elo de identificação com a personagem interpretada por uma maravilhosa Giusy Lodi. As suas expressões e o desgosto transportado na sua voz rouca entregam ao espectador aquelas imagens de uma adolescência eventualmente difícil onde as mais ou menos voluntárias discriminações fizeram parte do quotidiano de muitos. O peso, uns óculos, as borbulhas, um sinal ou um qualquer aspecto físico diferente daquele que é tipo como "normal" - a norma - provocaram o desgosto e o auto-isolamento de muitos que viram assim as suas ilusões desfeitas em instantes. No entanto, Lodi entrega à sua "Veronica" uma força desconhecida e uma genuinidade à mesma que criam no espectador aquela vontade de poder entrar naquele ecrã - ou voltar atrás no tempo - e dizer ao seu "eu" que tudo irá correr bem.
Involuntariamente deixamo-nos entrar na fantasia que "Veronica" cria para validar a sua presença naquele espaço, e secretamente desejamos - se bem que com sérias reservas - que "Diego" seja diferente e olhe para ela com olhos de quem realmente é diferente da "norma" e não se afaste como, percebemos, já ser habitual para esta jovem que apenas quer ser ela própria... feliz... e divertir-se como tantos outros da sua idade.
Mas quando os seus desejos - dela e nossos - não se confirmam e no momento em que o espectador se prepara para sentir mais uma desilusão como se a estivesse a viver na sua própria pele, eis que "Veronica" encontra - sem saber - o que espera... não na forma como esperou ter... mas seguramente aquele alguém que a conseguirá fazer feliz.
Uma invulgar história de amor - pelo local em que se desenrola - que cativa pela forma como Lodi se expõe enquanto actriz que dá uma bonita alma a uma "Veronica" que (des)espera poder ser amada, respeitada e feliz, num conto que se inicia com um vivo preconceito mas que termina com a esperança de que em boa hora... ainda existem pessoas diferentes.
Alessandro Capitani - de quem auguro um bom futuro se continuar a dirigir histórias deste calibre - dirige assim uma história dramática com acentuados contornos de comédia sem esquecer de fazer o espectador pensar que por detrás de todas as noções iniciais que se estabelecem sobre o "outro"... é nesse mesmo outro que existe um mundo de histórias e sentimentos por contar e sempre alguém disposto a ouvi-las.
.

.
9 / 10
.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário