quinta-feira, 10 de março de 2016

O Amor é Lindo... Porque Sim! (2016)

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O Amor é Lindo... Porque Sim! de Vicente Alves do Ó é a mais recente longa-metragem portuguesa que hoje estreou nas salas e a mais recente do autor de Florbela (2012) vencedor de seis Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.
Amélia (Inês Patrício) é uma jovem Lisboeta a quem a vida parece não estar a sorrir. Abandonada pelo namorado Mauro (João Maria) que se deixa levar pelos encantos de outra mulher, Amélia entra numa espiral de pouca sorte quando perde o seu trabalho, algum do seu brilho e se deixa consumir por um conjunto de pensamentos menos felizes sobre a sua situação.
Com o constante apoio e dedicação da mãe Gigi (Maria Rueff), Amélia tenta lentamente regressar a dias melhores, com mais motivos para sorrir e com a esperança de que o amor esteja, eventualmente, à sua espera... E de repente... parece que realmente está de olho nela. Estará Amélia preparada?
Enquanto espectador afirmo sem qualquer problema que a estreia de uma comédia portuguesa me deixa com sinceras reservas tendo em conta os últimos assumidos desastres que cruzaram as salas de cinema deste país mas, no entanto, tendo em consideração que O Amor é Lindo... Porque Sim! chega pelas mãos do realizador e argumentista do já referido Florbela - que é um dos filmes nacionais da minha eleição - e com um conjunto de actrizes que são e estão seguramente no topo daquilo que este país tem de culturalmente mais interessante - Maria Rueff, Sílvia Rizzo e Ana Brito e Cunha - escondi os meus preconceitos deixando os mesmos para depois de o visionar e, uma vez feito... os meus dissiparam-se.
O simpático ambiente de O Amor é Lindo... Porque Sim! ainda que dominado deste os primeiros instantes pela estreante Inês Patrício que se revela um rosto simpático e convincente nos seus dramas pós-adolescentes é imediatamente controlado por um assumido (por mim) tesouro nacional... Maria Rueff. Sem ofender ou tão pouco menosprezar nenhum actor ou actriz, deste ou de qualquer outro filme pois das suas presenças físicas e psicológicas emanam as emoções de tantos de nós, existem três actrizes portuguesas que deixam trespassar todo o mundo de emoções, expressões e sentimentos através do seu olhar: Rita Blanco de quem espero desesperadamente que regresse ao grande ecrã o mais depressa possível, Dalila Carmo dona de uma sensibilidade extrema e que já trabalhou com Alves do Ó no magnífico Florbela e que tem aqui uma breve homenagem através do "empréstimo" do seu nome à psicóloga de serviço, e finalmente Maria Rueff que aqui brinda o espectador com mais uma inspirada interpretação que oscila entre os brilhantes momentos de comédia e algum drama familiar que seguramente só uma mãe sente e pressente nos e dos seus. Rueff é seguramente um portento aqui e em qualquer outro filme. Nós, espectadores, deixamo-nos levar pela sua presença, pelo seu olhar que tanto diz e pelos seus gestos, eventualmente pensados, mas que dela emanam com uma naturalidade desarmante de tão certeiros que percebemos estar ali um pouco da mãe de qualquer um de nós presente e disposta, dedicada mas sofredora e que apenas deseja ver e ter os seus encaminhados, com um rumo, com um propósito e claro... felizes.
Ainda que com uma interpretação dita "secundária" e deixando os demais actores brilharem a seu tempo, não é menos verdade que Rueff domina o ecrã de forma espontânea e natural. O espectador quer mais, sempre mais, da sua terna e algo tresloucada "Gigi" e por muito que dela tivesse parece nunca ser o suficiente. Os seus momentos de comédia deixam-nos descontraídos e aqueles em que o dramatismo faz ponto de honra deixam-nos (por e a ela) rendidos - apesar de nenhum actor ser definido pela quantidade de prémios ou de nomeações... venha de lá esse Sophia!.
Mas, justiça seja feita, é imprescindível destacar duas outras actrizes que ainda mais "secundárias" - difícil esta palavra - marcam muito do campo da comédia de O Amor é Lindo... Porque Sim!, ou seja, Sílvia Rizzo - de quem sou fã desde Primeiro Amor (1996) e a quem me rendi com a sua participação especial em Crianças SOS (2000) - e a sua "D. Paquita", uma mulher de tradições, relativamente austera mas a quem o amor não tem bafejada com muita sorte tornando-a amarga quanto aos verdadeiros sentimentos dos demais e finalmente Ana Brito e Cunha que consegue recuperar muita da essência da sua "Bárbara" de Jura (2006) com a neurótica psicóloga "Dalila" com muito por revelar dentro do seu armário do que aquilo que tenta descobrir daqueles que a ela recorrem.
No elenco masculino destaque para os estreantes João Maria como "Mauro" o namorado traidor, Francisco Vistas como "Miguel" o "cunhado" de "Amélia" que também esconde algo mais sobre a sua identidade, Jaime Almeida como "Rogério" o potencial namorado cheio de tradições da protagonista e Diogo Leite como "Ruben" o futebolista sensação que se deixa levar por um amor não correspondido constituindo-se todos como secundários de relevância para o crescendo de "Amélia" perdida entre vários amores mas presa a um do qual não se consegue libertar e sem esquecer uma pequena participação de Elsa Valentim - que me conquistou com a sua maquiavélica e perdida personagem de Roseira Brava (1995) há mais de vinte anos.
Várias são as pequenas piscadelas de olho que Alves do Ó faz ao tradicional Lisboeta nomeadamente pela imediata história de bairro onde aparentemente toda a vizinhança se conhece - por vezes até demais - com o talento escondido de "Amélia" (Rodrigues) como fadista, pelas pequenas ruelas de uma Lisboa que se encontra como uma personagem silenciosa de O Amor é Lindo... Porque Sim! e à qual se tenta entregar uma certa dinâmica de cidade do amor - perdido ou não - reflectido principalmente nos últimos instantes desta longa-metragem - belo enquadramento a propósito - sem esquecer que certos hábitos ou elementos da cultura dita tradicional portuguesa também marcam presença nomeadamente a herdade tauromáquica de "D. Paquita" que representam o tal "bom costume" português ou mesmo a presença de um futebolista gingão/pintas que se acha o "sabor" do momento.
De detalhe em detalhe e de momento em momento, O Amor é Lindo... Porque Sim! não sendo aquela grande obra de comédia que o cinema português esperava (espera?!), não deixa de ser um filme simples, sem aparentes grandes pretensões mas que funciona por não cair no ridículo ou no absurdo de outras obras estreadas nos últimos anos que tentam mostrar um lado português parolo e pouco positivo deixando-se levar sim, por sua vez, por uma certa recuperação da comédia tradicional - pelo positivo que a palavra deixa - que agrada pela sua ingenuidade, que faz sorrir por conseguir inserir alguns momentos tão portugueses - Santo Antoninho a quanto obrigas... - e que ainda assim não esquece de parodiar essa mesma portugalidade que se transformou sem esquecer a sua fibra, a sua verve e as suas pequeninas coisas... mesmo quando procura o amor que se esconde - ou não - no escuro de uma qualquer rua à espera de ser descoberto.
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"Amo-te... só porque sim!"
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7 / 10
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