segunda-feira, 21 de março de 2016

#Lingo (2015)

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#Lingo de Vicente Niro é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na terceira edição do Leiria Film Fest.
Lingo é um solitário. Para ultrapassar a sua solidão e encontrar novas amizades, liga-se a todas as redes sociais onde "encontra" diversos amigos. No entanto, nos momentos em que mais necessita, Lingo irá compreender que estas amizades nem sempre trazem amizade e que aqueles dos quais se "desliga" são os únicos que sempre estiveram ao seu lado.
Com uma acentuada crítica às redes sociais e às novas formas de socialização inter-pessoal, o argumento de #Lingo, também da autoria de Vicente Niro, reflecte sobretudo sobre um dos graves problemas da sociedade contemporânea... a solidão. Numa era em que o mundo se encontra à pequena distância de um click, um fenómeno que se vai acentuando é o distanciamento das redes tradicionais de amizades onde os contactos pessoais e frequentes são substituídos por uma "aproximação" virtual onde, na prática, nunca se conhece ninguém e na qual os diversos intervenientes se afastam e isolam num pequeno e recluso espaço que pode ir desde a sua casa - num seu todo - a uma pequena divisão na qual tecem todas as "redes" imaginárias que vão estabelecendo.
Em #Lingo, aquilo que o espectador verifica é a virtualidade da amizade e dos conhecimentos que se "estabelecem" - na prática não são mais do que meros "pedidos de amizade" que não o são - onde o individualismo se (des)virtualiza do pensar no "eu" para dar lugar a um seu novo significado que se prende exclusivamente com o isolamento do indivíduo que deixa de conhecer o exterior, aquilo que o rodeia e, no fundo, todo o mundo que "lá fora" continua a girar.
No final Vicente Niro lança três grandes questões... a primeira que se prende com a noção real do "eu" em sociedade... quando preciso de amigos com quem criar e partilhar momentos ou histórias... será que as centenas ou milhares de rostos anónimos de uma qualquer rede social são, de facto, alguns desses intervenientes ou meros desconhecidos dos quais observamos e admiramos fotografias? Estarão eles realmente dispostos a ver o nosso "eu"?
A segunda grande questão colocada em #Lingo vem, de certa forma, como uma imediata conclusão da anterior... estará o "eu" a dar real atenção àqueles que sempre estiveram do "meu" lado e independentemente de todas as adversidades ali se colocaram sem fazer questões ou insinuações bastando um pouco da nossa atenção para se sentirem felizes? (o momento em que um animal doméstico percebe e sente a indiferença de quem ama é desarmante...).
Finalmente, e como um resultado lógico - ou talvez não - de tudo o que foi anteriormente mencionado... se uma segunda oportunidade fosse oferecida... estaria o indivíduo em questão disposto a enveredar por uma nova "estrada" e dar primazia aos contactos sociais estabelecidos in loco ou, por sua vez, voltaria a repetir todos os mesmos erros e criar ligações e redes virtuais que, na prática, nunca se materializam enquanto reais e verdadeiras?
Nesta dualidade entre o real e o virtual, o desejado e o imaginado, #Lingo - filme e personagem - são então a reflexão sentida e honesta de uma nova era e de um novo século onde tudo (imaginado) está realmente à distância de um "click"... e aquilo que temos à distância de um toque é ignorado e desprezado em nome de algo que de concreto pouco (ou nada) afirma ter.
Já vencedora de um prémio nos Caminhos do Cinema Português em 2015 e um dos mais fortes filmes deste Leiria Film Fest, #Lingo é uma assertiva e bem real história sobre os tempos modernos e novas realidades de uma individualidade habituada à praticabilidade de "conhecer" pessoas que nunca se conhecem de facto.
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9 / 10
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