segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Faubourg 36 (2008)

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Paris 36 de Christophe Barratier junta parte da equipa vencedora d'Os Coristas nesta história que nos transporta para a Paris de 1936.
Tudo se inicia com um assassinato e um longo e explicativo flashback de Pigoil (Gérard Jugnot), um dos encenadores do Chansonia, um teatro de um dos bairros de Paris que no final de 1935 cai nas mãos de Galapiat (Bernard-Pierre Donnadieu), um homem rude e que toma tudo pela força e pela violência.
Pigoil descobre que a sua mulher tem secretamente vários amantes. Quando desaparece e o deixa com o filho, as suas vidas ganham uma estranha e decadente nova dimensão que apenas se agudiza com o encerramento do teatro e o consequente desemprego de todos aqueles que para ele trabalhavam.
É nesta condição que Pigoil perde o seu filho para a sua mulher, agora novamente casada e com outra família, e que se inicia a sua aventura com os seus antigos colaboradores e a ajuda de Douce (Nora Arnezeder), uma jovem e promissora cantora com uma voz que todos encanta, incluindo Galapiat que a deseja e Milou (Clovis Corniallac) por quem se apaixona.
Apesar de ter visto e amado Os Coristas confesso que até há bem pouco tempo tive uma certa reserva em ver este filme que, como referi um pouco mais atrás, reune boa parte da mesma equipa vencedora desse filme. No entanto, nem tudo dura para sempre e lá me decidi a ver o que me reservava este filme.
Em primeiro lugar devo desde já confessar que o simples facto de centrar a sua acção num período histórico tão conturbado como o final dos anos 30 com a vitória das Frentes Populares em França e o despertar do anti-semitismo numa Europa à beira da Segunda Guerra Mundial eram, por si só, já os motivos suficientes para conseguir fazer deste filme algo de bastante interessante.
E fez. Não só por este aspecto mas por todos os outros que fazem com que a história se torne interessante e apelativa a cada momento que passa deixando-nos com vontade de estar sempre a ver um pouco mais. Temos as personagens em si que já são de encher o ecrã tanto pela sua vivacidade como pelas histórias pessoais a que cada uma delas dá vida. Pigoil, o homem traído que tão depressa cai no fundo do poço pela sua própria tragédia como de seguida luta para conseguir alcançar os seus objectivos e sendo estes os causadores da sua própria desgraça. Temos também a jovem e doce Douce que aparenta estar perdida no mundo mas que é segura de si e das suas acções talvez como nenhuma das outras personagens. Ela procura algo que possivelmente nem sabe bem o que é... mas saberá. A seu lado temos Milou... rude, duro e combativo, encontra em Douce o seu único ponto fraco e que o fará sofrer tal a paixão que por ela sente. Entre ambos apenas se encontra Galapiat... o gangster que monopoliza todos os negócios no pequeno bairro e de quem todos têm medo que julga poder tomar tudo e todos graças ao poder do seu dinheiro e dos rufias que o acompanham. E finalmente Jacky (Kad Merad), a força tragicómica que aos poucos se torna na alma de toda a história.
Se pensarmos que com personagens já tão ricas em si se encontram num completo turbilhão político e social onde a xenofobia crescente se fazia sentir e adivinhar um período desolador pelo qual o continente iria passar, então temos o ambiente perfeito para perceber que o filme será, de facto, grande.
Um dos factores mais originais deste filme, um pouco à semelhança daquilo que acontecera no já referido Os Coristas, é o facto de a uma história mais dramática do que cómica serem adicionados elementos de um musical em segmentos bem conseguidos e totalmente enquadrados. Estes, "impostos" pela própria narrativa do filme, são elaborados de uma forma tão bem conseguida que damos por nós a esperar mais e de maior duração.
Mas e o assassinato?! Sim... havia um logo referenciado no início da história... que se passou com ele?!... Sem querer adiantar nada, pois há com certeza muitas pessoas que ainda não viram este filme, a única coisa que posso e devo adiantar é que ele existe em nome da amizade. Da amizade e da liberdade... se bem que esta única de curta duração... tanto para a personagem que o comete como para o futuro próximo da Europa que se adivinhava.
As obras de Christophe Barratier conseguem surpreender pela positiva e encher o coração de sensações e pensamentos positivos mesmo quando retirados de um contexto histórico e social que não era, ou foi, o mais favorável.
E como se não bastasse a excelência dos actores intervenientes, Paris 36 é ainda um filme de excelência técnica com cenários de época muito bem conseguidos e que mostravam os tempos negros que se faziam sentir, bem como um guarda-roupa da autoria de Carine Sarfati quase desprovido de côr mas rigoroso e que também ele ilustra os dias negros que se viviam à altura.
Com uma nomeação para os Oscar (canção) e cinco para os César em categorias técnicas, Fotografia, Guarda-Roupa, Música, Direcção Artística e Som, este filme é sem dúvida um verdadeiro prazer quer visual quer para o coração pois, nos momentos certos, sabe como fazer para nos emocionar e nos encher de esperança para que não termine mal para as personagens que rapidamente conseguimos amar e com as quais conseguimos criar uma qualquer identificação.
Genialmente dirigido e interpretado é uma pena que para tantos, inclusive para mim, tenha estado "ao lado" durante tanto tempo pois, quem o vê, certamente não se irá arrepender.
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8 / 10
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