segunda-feira, 16 de março de 2015

Coro dos Amantes (2014)

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Coro dos Amantes de Tiago Guedes é uma curta-metragem portuguesa de ficção candidata ao Sophia da Academia Portuguesa de Cinema na respectiva categoria.
Marido (Gonçalo Waddington) e Mulher (Isabel Abreu) em três canções (actos). Na possibilidade do casal se reduzir pela fragilidade de saúde dela, quais os seus últimos pensamentos? Quais as suas últimas reacções? Quais os seus últimos instantes?
A Primeira Canção dedicada ao segmento em que nos é apresentado o casal, centra-se na indisposição dela que os conduz a uma imediata viagem ao hospital. Enquanto luta por respirar, "Ela" pensa no tempo que passaram juntos, naquele que poderiam ainda passar e principalmente na possibilidade de terem tempo para pensar nesse tempo enquanto "Ele" se centra na emergência em chegar ao hospital. Na realidade, este breve segmento faz o espectador questionar-se não só sobre aquilo que pensamos quando sentimos o tempo a passar muito rapidamente à nossa frente - independentemente da situação ser ou não de um aparente final - bem como sobre a emergência de todas aquelas pequenas grandes coisas que esperamos ou desejamos ainda ter oportunidade de ver concretizadas. Será que deixamos a vida com um conjunto de recordações e memórias de proezas conquistadas... ou será que, por sua vez, deixamos um conjunto de amarguras sobre o que poderia ter sido ou sido feito?
É já durante a Segunda Canção que "Ela" recorda o último momento mais significativo da sua vida antes daquele hospital; o visionamento de Scarface com o Pacino que parece nunca ser concluído. Aquela última grande manifestação de vontade que parece ser sempre adiada. A conclusão do seu visionamento é apenas comparado a uma etapa que dará lugar ao desconhecido. "E depois de?", questiona-se. Ao mesmo tempo pensa na vida, nos primeiros passos, o primeiro beijo, o primeiro contacto com o seu corpo... com o corpo dele. A primeira vez... de sexo, de um beijo, de amor, de qualquer experiência que a despertou para a vida. Uma vida. A sua.
Mas o momento não termina com os pensamentos acelerados dela que parece ter toda a sua vida ali em pequenas lembranças. "Ele" aguarda impacientemente e quase descontrolado por notícias dela... O que sucede se ela não recuperar e que manifestações mais ou menos violentas serão as suas por perceber que agora a sua vida pode, também ela, ter toda uma transformação rumo a um desconhecido para o qual ninguém está preparado?
Durante a Terceira Canção, já em casa e recuperados os velhos hábitos de convivência... decidem terminar Scarface. Ou talvez não. Será este final de um filme que nunca terminaram o sinal de que a sua vida pode, também ela, levar uma mudança para o qual não estão preparados? Há tempo, pensa "Ela" sobre um tempo que pode não existir. Existirão segundas oportunidades? Espaços? Momentos? Lugar para a construção de outras memórias e recordações que levarão nesse tal "último tempo"?
No final o espectador questiona-se... será esta Terceira Canção realmente a primeira? Afinal, Scarface não foi terminado e "Ela" recorda-o enquanto caminha para o hospital... ou será este momento aquele que depois da fatalidade é continuamente renegado por saberem que depois de terminarem aquele filme terão que optar por um novo (caminho... rumo... objectivo...)?
Aquilo que me fez gostar imediatamente de Coro dos Amantes para lá do seu engenhoso e elaborado argumento - uma ressalva bem positiva para a excelência de Tiago Guedes e Tiago Gomes Rodrigues - foi a mensagem para lá da mensagem, isto é, se a primeira se prende com a convivência quer rotineira quer de descoberta de um casal que de ser tão cúmplice aparenta já ter momentos em que são banais na sua convivência, a mensagem que se encontra para lá desta premissa prende-se com aquele pensamento que assola qualquer um de nós a uma dada altura, ou seja, enquanto numa relação qual o verdadeiro propósito de se poder partilhar a vida com outra pessoa? A simples empatia e crescente amizade que se transformam em amor e desejo ou para lá disso a (in)consciente necessidade que todo e qualquer um de nós tem em se sentir completo e "justificado" - ou até mesmo testemunhado - neste mundo do qual, de outra forma, sairíamos sem nele deixar qualquer prova da nossa existência?
É disto uma prova o próprio filme que nunca é terminado. Ao fazê-lo, existirá outro propósito? Mais alguma finalidade? Será o rumo da vida diferente depois de terminar uma etapa que aparentemente já se perpetua por anos? Estará "Ela" consciente de um fim que se aproxima e que assim tenta adiar com o tempo que tem para o poder fazer? Poderá "Ela" dedicar-se a outra tarefa sabendo que nada termina enquanto aquele filme não fôr totalmente visualizado? Poderão assim ser mantidas as esperanças de uma qualquer continuidade?
"Há tempo", escutamos recorrentemente. O mesmo tempo que precisam para se conhecer, completar, conhecer, criar uma criança, viver e perpetuarem a sua própria existência. O testemunho, a necessidade de saber (de fazer saber) que algures no tempo se esteve por cá, se conheceu, se fez, se construiu e principalmente que se sentiu... algo... alguém... momentos. Será a não visualização total daquele filme a confirmação de que o "amanhã" vai chegar e que o mesmo só termina quando começarem os créditos de Scarface?
Três canções (vidas) que se complementam, que se testemunam e que se formam. Três conhecimentos, três perspectivas (a da criança também está implícita no filme) que funcionam em boa parte de Coro dos Amantes como um complemento quase simultâneo. Conhecemos o desespero silencioso de ambos por pensarem um que se está a extinguir e o outro que pode viver numa imediata solidão pela ausência. Três momentos que mostram a mútua vulnerabilidade e a vontade de poder fazer parte de um núcleo... de sentir e de se afirmar como estando presente. Três momentos distintos onde a vida e a certeza da morte de cruzam e que apenas são abalados pela potencialidade de adiar esta última. Como em tempos alguém disse que quando a morte te sorrir... sorri-lhe de volta pois até lá há sempre tempo... Nem que seja para sofrer em silêncio... Num silêncio que não deixa revelar que para lá de um eventual problema... existe alguém que sente... a falta... a cumplicidade... e a entrega.
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9 / 10
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