terça-feira, 13 de outubro de 2015

Naciye (2015)

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Naciye de Lutfu Emre Cicek - também o autor do argumento - é uma longa-metragem turca de suspense que nos insere na algo frágil relação de Bertan (Gorkem Mertsoz) e Bengi (Esin Harvey). Estando Bengi grávida de uma criança, os dois deslocam-se para uma casa alugada numa zona pacífica junto à praia onde ela deverá terminar a sua gravidez e fortalecer a relação entre ambos.
No entanto, aquilo com o qual ninguém contava é que esta residência estivesse ainda ocupada por Naciye (Derya Alabora), a sua antiga proprietária que recusa de lá sair ou de receber qualquer tipo de hóspedes.
A premissa inicial de Naciye que remete o espectador para o imaginário de casa assombrada não por espíritos mas pelos trágicos acontecimentos do passado que a condicionaram é imediatamente desperto quando nas cenas iniciais lhe é revelado que a sua sinistra ocupante esconde mais do que a violência dos seus actos parece demonstrar. No entanto, é esta mesma violência que, ao mesmo tempo, condiciona também o filme e a sua credibilidade ao ser exposta com algum amadorismo e falta de crédito dramático não só no acto como principalmente nas interpretações dos actores que as interpretam.
Quando um espectador fiel ao género suspense/thriller se predispõe a assistir a uma longa-metragem do género, existem um conjunto de requisitos mínimos que são obrigatórios, nomeadamente as interpretações que têm de ser levados ao extremos mas sob o efeito da intensidade dos mesmo, ou seja, se é para parecer alucinado... que se seja de facto. Não é possível permanecer pela história apenas com aparências que são imediatamente "cortadas" por uma música - nem sempre bem sucedida - de alguém que parece estar num bar a beber uns copos com os amigos, e os traumas que permanecem entre quatro paredes têm, também eles, de estar reflectidos no ambiente geral do espaço. Aqui, nenhum deles marca presença.
Se por um lado o espectador entende quais são os verdadeiros mistérios de "Naciye" e da sua família cujo passado é marcado pela violência física e pelo incesto, não é menos verdade que a sua história se perde por um conjunto de inuendos, suposições e confirmações que apenas chegam no final e tacitamente expostas no enredo de forma a que todos as consigam perceber. Se por um lado o espectador gosta e entende as explicações, por outro o suspense não funciona porque nada fica implícito e os vilões mais se aproximam de vítimas de um dilema sociedade vs. comunidade sendo ambas fechadas sobre si mesmas vivendo alegremente na política do "don't ask... don't tell...".
As interpretações são desta forma - também elas - muito frágeis e no limite. Secundários a mais sendo na maior parte das situações perfeitamente dispensáveis, outros tantos que surgem onde - também neles - a suposição sobre "quem são?" permanece no ar, e aqueles que deveriam estar no centro da história, nomeadamente a "Naciye" de Derya Alabora acabam por não expôr todo o seu potencial limitando-se ao que está... "by the book"...
No final a única coisa mais positiva pelo qual consigo destacar Naciye é o sub-enredo que não sendo devidamente explorado acaba por justificar não só os comportamentos da personagem homónima como também aquele tido pelos principais que se deslocam para aquela casa, ou seja, a violência. Existe uma constante violência física e psicológica inerente a todas estas personagens quer através do incesto explícito mais perto do final desta longa-metragem mas também aquele físico exposto ora através da tortura ora através de comportamentos abusivos onde a exposição de força é uma constante. Não sendo explorado e aqui apresentado apenas como "algo" que surge, é esta mesma violência que consegue destacar - mal - este filme ao ponto do espectador poder por breves momentos questionar-se sobre até que ponto não é a violência o motor para a perpetuação de sucessivos comportamentos disfuncionais quando alguém está a ela exposto desde jovem idade permanecendo como um único "real" vínculo entre os indivíduos.
Sendo este o ponto mais interessante de Naciye acaba também por ser aquele que mais o debilita por não se explorar devidamente e ao qual se junta uma fragilidade não só interpretativa como principalmente técnica que fazem desta longa-metragem turca uma aposta arriscada... e muito pouco superada.
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3 / 10
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