quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Vazio (2015)

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Vazio de Bruno Gascon é uma curta-metragem portuguesa de ficção que habilmente une o thriller, o suspense e o terror urbano contemporâneo.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, mais de trezentos milhões de pessoas sofrem de depressão estando perto do milhão aqueles que decidem por um fim ao seu sofrimento não tendo, na sua maioria, chegado a receber qualquer tipo de tratamento ou apoio psicológico.
Esta é a história de um deles. Este homem (Jorge Cruz) deambula por aquilo que se assemelha ao que resta da sua vida. Conseguirá ele resistir a todas as provações que lhe são colocadas?
Joana Domingues e Bruno Gascon assinam o argumento deste filme que se enquadra de forma perfeita naquilo que o espectador poderá facilmente considerar o melhor exemplo do terror real, ou seja, à semelhança do que já havia acontecido com Boy - a anterior curta-metragem de Gascon - aqui, uma vez mais, longe de qualquer subterfúgio ou inuendo sobre a presença de uma qualquer entidade sobrenatural, o verdadeiro medo surge aquando da presença daqueles demónios que se apoderam da mente humana e a dominam sem qualquer dó ou piedade. Aqui, esse demónio é o "Vazio".
Este "vazio" - de esperanças, de objectivos, de amor próprio, auto-afirmação, cumplicidade familiar ou de sucesso familiar - assume-se como o último grande mal que chega de forma não anunciada mas ferozmente desesperante e mortal colhendo as mentes mais sensíveis e frágeis delas fazendo o "nada". No final, para este "homem", a sua existência prende-se apenas e só com uma questão: que faz ele "aqui"?!
Sem alguém com quem falar, uma família que entenda o seu desespero ou um trabalho no qual não só não ascende profissionalmente como também é considerado como um zero dispensável, este homem mais não é do que um entre muitos... Grupo esse que tenta resistir de uma ou de outra forma mas que percebe que por muito que tente sobreviver todos os seus actos ou intenções são rapidamente absorvidos por um mundo que simplesmente deles não quer saber. Com "nada" por alcançar e um crescente "vazio", este - entre tantos outros - percebe que não tem nada a perder sucedendo-se uma espiral de negatividade que contribui para o seu total anulamento e aniquilamento.
Um dos momentos mais curiosos de Vazio - para lá da sua óbvia mensagem - foi um talvez não intencional momento em que ao ligar para uma linha de apoio a voz que o "recebe" parecer oca, distante e como que se tratasse de um favor indesejado que agora tem de retribuir. "Sempre só" pensa este homem - e com razão - quando confirma que tudo à volta da sua existência é um conjunto de pessoas, actos e acontecimentos que o reprimem pela sua existência e pelo seu afundamento. Tantas vezes se repente a um Homem que ele é um inútil que, eventualmente, ele acaba por acreditar que realmente o é.
Quando se perde o respeito - próprio - tudo se perde. Quando nada se tem que almejar... para quê existir? E quando esta existência nada importa... porque não arrastar alguém também para o mesmo buraco? Aquele alguém que "nos" diminuiu, insultou, desdenhou... Aquele alguém que é possivelmente o motivo de todos os problemas, de todas as angústias e de todos os insucessos...
Prisioneiro de uma cela sem grades que se encontra dentro da sua própria cabeça, este homem é a encarnação de um desespero sem limites, de algo vazio e vão... de algo sem sentido, oco e distante. Preso ao seu próprio insucesso - pessoal e profissional - e refém de alguém - todos - que não o quer ou deseja e que encontra apenas na extinção a resolução de todos os seus problemas.
Com uma forte interpretação de Jorge Cruz como um homem sem destino preso na sua própria insignificância - sentida e provocada - e uma breve mas mordaz participação de Duarte Grilo como um patrão sem escrúpulos - ode aos tempos modernos - numa Lisboa nunca antes sentida como tão fria, Vazio é uma afirmação de um mundo presente mas distante... que a todos aproxima mas que ao mesmo tempo os distancia exigindo sempre mais, sempre um pouco mais que nunca é suficiente ou satisfatório e que por isso corrompe, distancia e finalmente mata... pelo vazio de aspirações, de entrega, de cumplicidade, de objectivos, de sucesso e finalmente pelo vazio maior... aquele que se sente por não se ter sentido nada daquilo que se esperou.
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"Ele: Não há nada mais perigoso que um homem que não é ninguém."
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8 / 10
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