sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Winter's Bone (2010)

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Despojos de Inverno de Debra Granik foi o filme independente sensação do ano e que resultaria, entre outras, em quatro nomeações para os Oscars para Filme, Actriz, Actor Secundário e Argumento Adaptado.
Esta história centra-se na vida de uma família algo disfuncional do interior dos Estados Unidos onde Ree (Jennifer Lawrence) uma adolescente de dezassete anos toma conta dos seus dois irmãos mais novos e da sua mãe física e psicologicamente debilitada.
A vida, que já lhes é difícil pela falta de condições de vida num espaço que é agreste, complica-se ainda mais quando as autoridades abordam Ree para lhe revelar que o seu pai recentemente saído da prisão deu como garantia a propriedade onde eles vivem e que lhes será retirada se não comparecer em tribunal. Ree, determinada e assumindo o papel de chefe de família decide partir em busca do seu pai numa viagem que lhe poderá ser fatal.
Tinha já há algum tempo muita curiosidade em ver se este filme era tão bom quanto os relatos que dele me chegavam aos ouvidos. A verdade é que realmente é um filme muito bom e por variados motivos. O primeiro, e talvez o mais importante, é por nos dar um retrato real e bem cruel sobre inúmeras famílias que por este mundo vivem em condições quase desumanas, com carências e problemas financeiros, educacionais e sociais que praticamente (senão totalmente) os excluem do ambiente que os rodeia. Facto este que acaba por se agravar pela também quase inexistente falta de solidariedade para com problemas tão reais e presentes. Este aspecto, aqui centrado numa família do interior profundo desse tão grande país que são os Estados Unidos, poderia aplicar-se a qualquer outro local do mundo.
Em segunda lugar, e quase intimamente ligada ao primeiro, há que referir que sem grande violência física (apesar de tambéms e registar ao longo do filme em diversas ocasiões), esta violência apresenta-se aqui sobre diversos outros aspectos nomeadamente pela impossibilidade financeira de Ree poder estudar, alistar-se no exército ou simplesmente ser uma jovem de acordo com a sua idade mas que aqui, pela força das circunstâncias da sua vida e especialmente da sua família, acaba por se ter de tornar numa mulher adulta de quem todos acabam por depender.
Finalmente este argumento da autoria da própria realizador Debra Granik em parceria com Anne Rosellini sai vencedor por abordar algo de extrema importância e que poderia ficar perdido pelo meio de tantos outros aspectos... Ree, no meio de uma jovem e problemática vida demonstra através dos seus actos e vontades o quão é importante para si o poder e a união da família... da mãe, dos irmãos, de um pai criminoso e ausente e de um tio de passado violento e com quem ela pouco se relaciona. A honra e a lealdade que ela tem para com todos eles é possivelmente o factor mais importante e que serve de elo de ligação entre todos os demais aspectos que compõem esta fascinante história.
Este filme composto por um conjunto variado de interpretações secundárias é simplesmente abrilhantado pela presença desta jovem actriz de seu nome Jennifer Lawrence que revela ser um dos nomes a considerar para o futuro. O seu talento e interpretação entregam-nos uma capacidade dramática notória e a quem aparentemente ninguém ficou indiferente tendo nomeado justamente a jovem actriz para uma quantidade sem fim de prémios de interpretação. Lawrence entrega-nos uma interpretação que toca nos dois polos... excessivamente dramática pelo fardo que a sua personagem acarreta como, por outro lado, é reveladora de uma frieza e indiferença pelas consequências que podem resultar dos seus actos. Correndo o risco de utilizar um cliché muitas vezes utilizado mas Jennifer Lawrence é, de longe, uma verdadeira força da natureza.
Algo que contribui para esta tão rude paisagem é mesmo o conjunto de cenários desoladores e abandonados repletos de vidas à margem da lei, como seria de esperar pelas actividades que percebemos serem a fonte de rendimentos de grande parte daquela comunidade, e que apenas é intensificada por um magnífico trabalho de fotografia da autoria de Michael McDonough que torna toda a paisagem circundante desprovida de qualquer cor que possa estar intimamente relacionado com calor, sentimento ou força.
Apesar de ser um filme bastante parado e sem grandes planos ou sequências de acção que possam intensificar o potencial dramático do filme, este é sim obtido pelas fortes interpretações dos actores bem como pela rudeza e brutalidade do argumento que roça de muito perto o lado mais selvagem que o ser humano tem dentro de si. Mas tudo sempre feito em nome da protecção dos seus e do seu espaço próprio no mundo sem com isso reclamar mais do que aquilo que se merece pois Ree percebe que aquilo que tem ao seu alcance é... muito pouco.
Extraordinário filme, interpretações e argumento que compõem aquele que é sem qualquer sombra de dúvidas um dos melhores filmes deste ano.
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"Ree: Never ask for what oughta be offered."
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9 / 10
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