quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Amor de Hombre (2014)

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Amor de Hombre de César Mari Soucase é uma curta-metragem espanhola de ficção e o mais recente trabalho do realizador de Las Séxicas, premiado aqui no CinEuphoria no início do ano com dois prémios do público.
Satur (Carles Montoliu) dirige-se ao cemitério para visitar a campa da mãe. Nas suas mãos transporta uma coroa de flores em forma de coração. Pelo caminho dirige-se a outra campa onde desabafa o que sente no seu coração.
Num misto de suspeitas e de inuendos, o argumento de César Mari Soucase leva o espectador a uma viagem onde se podem confirmar os (auto-)bloqueios impostos não só pela comunidade como aqueles que daí resultantes são impostos pelo "eu" da personagem "Satur". Percebemos pelo meio circundante que a comunidade onde vive é pequena, potencialmente de uma Espanha interior e conservadora onde os sentimentos e os papéis estão previamente estabelecidos pela sociedade. O homem tem de ser homem e resplandecer uma total ausência de sentimentos ou sensibilidade impondo o seu lado físico e de força que se quer dominante. No entanto, o que acontece quando os sentimentos são sentidos para com o seu semelhante e se percebe que tudo em seu redor irá condenar esse sentimento? O que acontece quando da atracção se passa do ciúme e deste à posse transformando esse lado físico numa força dominante que não se controla e que cega?
É então neste cemitério onde será suposto chorar e lembrar os seus mortos que "Satur" revela o seu maior segredo (e crime) que o consumiu e deu lugar ao seu lado mais selvagem e possessivo. Numa história que vai para além dos limites da comunidade, das várias épocas e principalmente do "eu" que "Satur" encarna, Amor de Hombre transforma-se num filme confissão de um personagem atormentado pelo seu próprio passado e pela sua verdadeira identidade, a qual se viu obrigado a ocultar de todos vivendo numa prisão auto-imposta e na qual se condena por tudo o que teve (e tem) de esconder.
Porque o "melhor lugar para esconder um morto é entre os mortos", o próprio esconde-se - e à sua verdade - no local que escondem todos os seus segredos - quem amou e o que escondeu - para além de quem lhe deu vida e a quem teve de ocultar a sua essência.
Carles Montoliu tem uma interpretação que oscila entre a obsessão e a posse, entre a confissão e a dor para além de, ao mesmo tempo, revelar toda a essência de um homem que vive atormentado pelos seus sentimentos e dor que o condenam a uma prisão ao ar livre que talvez já não consiga aguentar.
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7 / 10
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